Em: Assunto da Edição

METAIS

 

Nós temos contato com metais durante todo o tempo; mesmo que não queiramos, vários deles fazem parte de nossa química interna e sem eles não viveríamos.

Cada um deles um dia recebeu um nome; vamos ver as origens de alguns dos mais conhecidos.

 

METAL  –  para sabermos com o que estamos lidando. Vem do Latim metallum, “metal, mineral, mina”, do Grego métallon, “minério, metal”, originalmente “mina, local de extração de minério”.

 

LIGA  –  designa uma combinação de metais, uma substância feita por uma mistura deles com o objetivo de aprimorar características como resistência, flexibilidade, leveza, etc.

Vem do Latim liga, do verbo ligare, “unir, juntar”.

 

FERRO  –  do Latim ferrum, “ferro”. Possivelmente derive do Indo-Europeu bhars-, “ser firme, rígido”.

 

AÇO  –  é uma liga de ferro com carbono e outros materiais. Vem do Latim aciarium, “aço”, mais propriamente “ferro temperado para se obter um fio cortante”.

 

ALUMÍNIO  –  este nome foi dado em 1812, a partir de alume, substância usada como adstringente e em vários processos industriais, como tingimento e outros.

E alume vem do Latim alumen,  “sal amargo”.

 

COBRE  –  vem do Latim cuprum, “cobre”, da expressão aes Cyprium, “bronze de Chipre”. Isso porque, na época clássica, essa ilha do Mediterrâneo era um importante local de mineração desse metal.

 

ESTANHO  –  do Latim stannum, aparentemente derivado de uma raiz sta-, com a noção de “estar parado, ser sólido”. Na verdade, este nome se aplicava a um metal diferente e acabou sendo atribuído ao estanho mais tarde.

 

LATÃO  –  esta liga de cobre e zinco recebeu o nome Árabe de latûn, “cobre”.

 

LATA  –  aparentemente não tem nada a ver com latão. O significado inicial seria o de ‘madeira larga, vara”, latho no Germânico.

 

NÍQUEL – do Alemão kupfernickel, literalmente “o demônio do cobre”, de kupfer, “cobre”, mais nickel, “duende, demônio”, uma alteração do nome Nicholas, “Nicolau”.

Isso porque os mineiros que escavavam atrás de veios de cobre encontravam em seu lugar o níquel, e por isso eles diziam que este afugentava o cobre como se fosse um demônio.

Não se sabe por que, mas o nome Nicholas se aplica ao demônio há vários séculos. Ainda hoje em Inglês ele pode ser chamado de Old Nick.

Mas é melhor não tentar, vá que ele atenda.

 

COBALTO  –  outra história que nem esta acima. Na Idade Média, os mineiros acreditavam que havia uma espécie de demônio que evitava que o minério produzisse o metal desejado; ele era chamado de Kobold, do Germânico Godbald, formado pelas palavras Gott, “Deus”, mais bald, “atrevido, desobediente”.

Quando o metal foi identificado, no século XVIII, recebeu este nome.

 

CROMO  –  vem do Grego khroma, “cor”, pois ele tem a capacidade de produzir diversos materiais coloridos.

 

MAGNÉSIO  –   no século XVIII, foram descobertos dois minerais diferentes em Magnésia, um distrito da Tessália, na Grécia. Um recebeu o nome latino de magnesia alba, “magnésia branca”, e acabou sendo conhecida como magnésio.

O outro foi chamado de magnesia nigra, “magnésia negra”, e agora responde pelo nome de manganês.

Essa região contribuiu também para a palavra magnético, derivado do Grego he Magnes lithos, “a pedra de Magnésia”, um óxido de ferro com o comportamento de um ímã.

 

CÁLCIO  –  do Latim calx, “cal, pedra pequena”, do Grego khalix, “pedrinha”.

Em Latim existe uma palavra idêntica, da mesma declinação e tudo, com o significado de “calcanhar”. Esta nos deu palavras como coice (golpe dado com a parte traseira do pé), calcar (pisotear),  recalcitrar (resistir, teimar como uma cavalo que firma as patas no chão) e o próprio calcanhar.  

 

MERCÚRIO – os romanos deram a este, o único metal existente em estado líquido na Natureza, o nome do deus Mercúrio (outros dizem que o retiraram do planeta que havia sido nomeado em honra ao deus), talvez pelas qualidades de deslocamento rápido que o personagem tinha.

E o deus recebeu esse nome como um derivado de merx, “bens, mercadorias”, pois ele era o protetor dos comerciantes.

Em Grego o elemento se chamava hydor argyros, “prata líquida”.

 

TITÂNIO  –  assim chamado devido aos Titãs, os gigantes que se revoltaram contra Zeus e foram por ele derrotados.

 

¤ ¤ ¤
Em: Etimologia no Maternal

Tia Odete é Homenageada

– Puxa, pessoal, eu realmente não estou acostumada a falar em público, exceto para as crianças da minha aulinha. Como? Não preciso gritar tanto assim? Está certo, desculpem , é o hábito.

Mas que surpresa! Bem que ontem eu vi o pessoal preparando esses cartazes de “Viva a Tia Odete!”, mas não podia imaginar que fosse para mim, apesar de hoje ser o “Dia da Funcionária do Mês”.

E surpresa, não se esqueçam, vem do Francês surprendre, de sur, “sobre”, mais prendre, “pegar, prender”, do Latim prehendere, “agarrar, prender, pegar à força”. Imaginem o que o bandido sente quando está achando que escapou e o mocinho pula de uma árvore em cima dele. Essa é a idéia.

Mas, como eu ia dizendo, apesar da minha falta de experiência com uma audiência adulta, não posso me furtar a dizer uma ou duas palavras para agradecer a esta homenagem tão sincera e tão espontânea de que sou alvo.

E, falando em homenagem, posso dizer desde já que essa palavra provém do Provençal Antigo, onde era omenatge, derivado do Latim hominaticus, de homo, “homem”. Era uma forma de um homem prestar vassalagem a outro nas épocas feudais, mas acabou tendo um sentido geral de “fazer honrarias”.

É claro que eu sei que nossa escolinha está fazendo um daqueles programas de qualidade que são usados para extrair até o bagaço de quem trabalha, fazendo muitos cumprimentos e recusando aumentos.

E todos nós aqui sabemos que, como parte desse programa, cada pessoa daqui já foi nomeada “Funcionária do Mês”, desde o pessoal que varre o pátio até a Diretora que está ali ruborizada e que eu sou a última da lista e que no próximo mês tudo vai recomeçar, mas tudo bem.

Já que eu disse funcionária, não custa lembrar que esta palavra vem do Latim functio, “função”, de fungi, “cumprir, realizar, desempenhar”. Functionarius era quem exercia uma função. Chegou até nós pelo Francês fonctionnaire.

Em todo caso, agradeço comovida esta medalha de plástico dourado numa corrente de alumínio também dourado que estão me entregando.

Engraçado, há uma figura de atleta nela. Ou não havia outra na casa das medalhas ou então estão dizendo que sou uma verdadeira atleta por agüentar essa turma. Prefiro esta hipótese.

Colho a ocasião para contar aos presentes que agradecer vem do Latim gratus, “o que agrada ou que reconhece um agrado”.

E que comover vem do Latim commovere, “mobilizar, mover conjuntamente”, formado de com-, “junto”, mais movere, “mexer, deslocar, mover”. Uma pessoa comovida é alguém que foi retirada do seu estado natural pelo esforço de outros, mesmo que eles não estejam muito desejosos de fazer isso.

E medalha tem uma história até bastante longa. Em Francês é médaille, em Italiano é medaglia, e derivou do Latim metallea moneta, “moeda feita de metal”. Nesse idioma, metallum queria dizer “metal”, e derivou do Grego metallon, “minério, metal” . Só que o sentido original desta palavra era “mina, escavação para buscar material”, derivado de metalleúein, “escavar, minar”, relacionado ao verbo metallan, “procurar, pesquisar”.

Quem diria, um caminho ininterrupto entre os gregos que procuravam materiais úteis e esta coisinha barata que acabam de pendurar no meu pescoço!

Por sua vez, alumínio é da palavra cunhada por Sir Humphrey Davy, que lá pelo fim do século dezoito, descobriu este elemento. Inicialmente ele o chamou de alumium e depois aluminum. Este nome foi mantido pelos americanos, mas os ingleses preferiram aluminium, “que soava mais clássico”, conforme uma publicação de 1812.

O nome foi escolhido por ele devido ao alume, sal mineral usado como adstringente, que em Latim se chamava alumen, “sal amargo”, com a mesma origem do Grego aludoimos, “amargo”.

Mas acho que estou me desviando do meu objetivo, que é agradecer pelas honrarias de hoje.

E a maior honra foi terem trazido a minha turminha de aluninhos que me olham dali do fundo. Vejam só o Zorzinho escrevendo sem parar, a Valzinha falando sem parar, o Joãozinho muito compenetrado com alguma revistinha misteriosa, a Joana Beatriz ouvindo os sussurros do Sidneizinho no seu ouvido, a Ledinha sem saber o que está acontecendo… São uma turma inesquecível. Mal posso esperar que termine este ano.

Sinceramente, não precisavam tê-los trazido! Principalmente se queriam me homenagear de verdade.

Como dizia eu, é uma honra, palavra que vem do Latim honos, “honra, reputação, dignidade”, ser agraciada com este título e este diploma impresso pelo computador em papel A4 barato, vejam só: vou mostrar e vocês vão aplaudir como se fosse algo fabuloso.

Não vou dizer que diploma, “licença, mapa”, originalmente, vem do Grego diploun, “dobrar”, de diplos, “dobro” porque acho que todos já sabem, mas quero lembrar que esta palavra não deve ser confundida com dilema, um termo técnico de Retórica, do Grego dilemma, “dupla proposição”, formado por di-, “dois” e lemma, “premissa, algo aceito como verdade”. A noção correta é “ter que fazer uma escolha entre duas alternativas desagradáveis”.

Antes que alguém me pergunte de onde vem título, respondo que é do Latim titulus, “cabeçalho, inscrição”, de origem obscura. Adquiriu o sentido de “palavra que indica a posição hierárquica de uma pessoa” lá pelo século quinze.

E fabuloso vem de fabula, como se chamava em Latim uma história. Literalmente, quer dizer “o que é contado”, do verbo fari, “falar, contar”, com base Indo-Européia bha-, “falar”.

Os mais velhinhos, como eu, se lembrarão das fábulas que ouvíamos na infância, histórias edificantes passadas entre animais, cuja idéia era nos incutir moral e sentimentos elevados. Pelo que se vê do mundo ao nosso redor, parece que não deu muito certo.

Mas, senhora Diretora, – ei, a senhora sabia que esse seu cargo se chama assim porque em Latim dirigere era “colocar certo, determinar corretamente”, formado por dis, “fora” e regere, “guiar”? E que isso vem do Indo-Europeu reg-, “mover em linha reta”?

Como se supunha que o soberano de um povo fizesse tudo certinho, tudo direitinho – que tempos aqueles, não? – daí veio o Latim rex, “rei”. Em Sânscrito, era rajan, “rei, líder”, que originou rajá e marajá. Essa base também originou em nosso idioma as palavras reto e correto.

Como eu dizia antes de interromper a mim mesma, senhora Diretora, não posso senão expressar meus grandes agradecimentos por esta homenagem tão espontânea, tão sincera, tão pura, tão especial, tão… faltam-me as palavras, exceto para perguntar se já definiram um aumento de salário para nós, pobres seres que aguentam a dureza sem praticamente emitir uma queixa que seja.

Ah, puxa, desculpe, a senhora está atrasada para o dentista e vai ter que sair correndo, eu não sabia! Diga a ele que a senhora merece o prêmio de Paciente do Mês!

¤ ¤ ¤