Em: Etimologia no Maternal

DESORDEM

 

 Caras colegas, o que estão fazendo junto da janela da Sala dos Professores? Deixem-me chegar perto para ver… Ah, olha só! O pátio do recreio é a cena de uma batalha campal em que cada aluno faz o que bem entende. Uns gritam como bezerros desprovidos de mamadeira; outros atacam o próximo com tudo que podem e fazem misérias nas roupinhas e cabelinhos cuidadosamente arrumados pelas mamães; outros roubam a merenda alheia; a maioria corre sem destino e se choca com tudo o que encontra pelo caminho.

Não, colegas, calma. Não chamem a Polícia Militar, não gostaria de ver homens grandes e uniformizados saírem daqui traumatizados e chorando, pobres rapazes.

Isso que aqui vemos é rotina dentro de minha aula, daqui a pouco passa.

Vamos ficar olhando; enquanto isso, vou contar para vocês a origem de algumas palavras que descrevem o que estamos vendo.

Por exemplo, desordem. Esta se forma pelo antepositivo des-, com ideia de oposição, mais o Latim ordo, “arranjo de elementos feito conforme certos critérios”, “exigência de disposição regrada de elementos, comando”, relacionado ao verbo ordiri, “ordenar, mandar”. É o que mais se vê em nosso pátio no momento.

bagunça é o nome dado a uma máquina usada para retirar terra e outros materiais em obras.  Mas sua origem é desconhecida.

O que não é o caso de confusão, do Latim confusio, “mistura, desordem”, de confundere, “misturar, transtornar”, formada por com-, “junto”, mais fundere, “derramar, fazer fluir”. A cena dantesca que se desenrola à nossa frente não parece mesmo a rebentação do mar durante uma tempestade?

Olhem só o alvoroço! Esta não vem de Roma; é do Árabe al-buruz, “sair dando gritos de alegria para receber alguém”. Vá que os gritos que ouvimos não pareçam de boas-vindas, mas são notáveis pela potência sonora.

Nossos aluninhos estão promovendo uma reverenda baderna, para a qual existe uma interessante explicação, mesmo que não totalmente dada como certa. Diz-se que, em 1851, uma dançarina italiana chamada Marieta Baderna esteve se apresentando no Rio de Janeiro,despertando considerável interesse e levantando uma legião de fãs, que foram chamados “os badernas”. Sendo eles pessoas agitadas e pouco dadas ao comportamento civilizado, a palavra encontrou um novo uso.

É impossível deduzir se há grupos ou partidos predominantes em tudo isso que vemos. Temos aqui um legítimo quiproquó,  da expressão latina quid pro quod, “quem a favor de quem?”, o que descreve uma confusão na qual não se sabe de que lado está cada pessoa.  Se alguma colega ainda não se atualizou com a reforma ortográfica, anote que o primeiro “U” é pronunciado. Esse é um caso que nos dá saudades do trema, sobre cujo desaparecimento tantos tripudiaram.

A balbúrdia que vemos vem do Latim  balbus, “gago”, já que, por ininteligível, lembra uma assembleia de gagos furibundos.

O aspecto geral do comportamento dessas desenfreadas crianças lembra a explosão de um vulcão, a queda de um asteroide em nosso planeta, enfim uma catástrofe, do Grego katastrophe, “fim súbito, virada de expectativas”, de katá-, “para baixo”, mais strophein, “virar”. Estranhamente, esta palavra  teve a sua origem no teatro, no antigo drama grego; era o momento em que os acontecimentos se voltavam contra o personagem principal, num movimento feito pelo coro inteiro no teatro.

Depois foi aplicada a coisas menos artísticas, como é o nosso caso hoje.

Isto também me lembra um pandemônio. Inventada em 1667 pelo escritor inglês John Milton, para nomear o palácio construído no meio do Inferno, “a alta capital de Satanás e todos os seus pares”, a partir do Grego pan, “todos”, mais daimon, originalmente “divindade menor”, transformada pela Igreja Católica em “entidade maléfica”.

Seu sentido mudou, lá pelo século XIX, para designar uma confusão desatinada.

Da origem de mixórdia não se tem informação suficiente, mas ela parece vir da raiz de mexer.

Um sinônimo de mixórdia pouco usado atualmente é mistifório. Sugere-se que esta derive da expressão latina mixti fori, “de foros mistos”, isto é, que determinado fato pertencia ao mesmo tempo ao foro civil e ao eclesiástico, passando a ideia de uma situação jurídica que envolvia uma mistura complexa.

E tumulto, então? Deriva do Latim tumultus, de mesmo significado, e que era inicialmente usado para qualificar o estado de guerra resultante de um ataque súbito. Tudo a ver com a presente situação.

Ocorre-me, por motivos evidentes, o substantivo rebuliço,de re-, “de novo”, mais bulício, do Latim bullitius, “agitação da água fervendo”, de bullire, “ferver, fazer bolhas”, de bulla, “bolha, objeto redondo”. Não parecem uma chaleira com água saltando, nossos queridinhos?

A perturbação que eles estão fazendo vem do L. perturbare, “trazer confusão, desordem, desarranjo”, de per-, “completamente”, mais turbare, “agitar, confundir”.

Falando nisso, agitação vem do Latim agitatio, “movimento, sacudida, agitação”, de agitare, “mover para a frente e para trás”, relacionado ao verbo agere, com o sentido de “levar, guiar”.

Viram só o que eu disse? Os demoninhos estão se cansando do gasto de energia e já estão se aquietando. Agora vão entrar num estado semicomatoso pós-combate que vai tornar nossas aulas mais calmas. Por hoje, pelo menos.

Quando precisarem em assessoria de controle de turbas enfurecidas, podem chamar aqui a Tia Odete.

 

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Em: Etimologia no Maternal

RUÍDO

Muito bem, terminou o recreio. Entrem todos e sentem-se em seus lugarzinhos que hoje temos um assunto etimológico de muita base na realidade.

Eu estava escutando os assustadores sons que vocês há pouco produziam no pátio e aproveitei para elaborar um ofício à direção solicitando proteção de ouvidos para quem está por perto nessa hora, a fim de evitar perdas auditivas, como está contemplado na legislação de nosso país.

Ainda está por ser feito um estudo para descobrir como é que o aparelho fonador de vocês, em conjunto com esses seus pulmões, pode gerar tamanho volume de som.

Aproveitando que vocês devem estar com as gargantas ardendo de tanto gritar, começo a dar o étimo de, por exemplo, gritar, que vem do Latim quiritare, “gritar, pedir por socorro”. Coisa que muitas vezes a pobre Tia Odete aqui tem vontade de fazer em plena aula.

Ruído vem do Latim rugitus, o mesmo que o rugido dos animais ferozes, com os quais devo dizer que meus aluninhos apresentam uma extraordinária semelhança.

rumor vem do Latim rumor, “barulho, ruído”, mas também “conversa, boato, fofoca”. Ali a nossa Valzinha já é uma campeã disso, imaginem só quando for grandinha.

Não entendo o que você falou, Valzinha, pode repetir? Não, não! Não queremos saber nada sobre os rumores que correm no seu condomínio sobre a prima do Síndico e a Subsíndica, isso não é assunto que interesse a gente de uma aulinha família como esta.

E passemos rapidamente para a origem de barulho, que uns dizem que veio de “embrulho”, apesar de ser difícil entender a relação, e que outros autores dizem vir de “marulho”, o ruído do mar, hipótese mais razoável.

Já que não há certeza, quando vocês forem grandes etimologistas, respondam “origem incerta” a esta pergunta e não se comprometam.

Por sua parte, estrépito vem do Latim strepitus, “grande ruído”, de strepere, “fazer barulho”. Parece que eles estavam bem acostumados com isso, pois tinham uma porção de palavras derivadas que não deixaram descendentes entre nós.

Por exemplo, adstrepere, “fazer ruído do lado”, circumstrepere, “fazer ruído ao redor”, instrepere, “ressoar em”, substrepere, “murmurar”,  perstrepere, “ressoar fortemente”.

Eu poderia lançar um movimento para reinstituir essas palavrinhas antigas no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, já que vocês aqui usam abundantemente os seus conceitos.

Tumulto, que se usa para “motim, levante, rebelião”, tem também o significado de “barulho, alvoroço”.

Deriva do Latim tumultus, de mesmo significado, e que era inicialmente usado para qualificar o estado de guerra resultante de um ataque súbito.

Há quem diga que existe uma relação com o verbo timere, “temer”, mas isso não foi confirmado.

Realmente, quando meus queridos aluninhos entram em tumulto, a sensação é de que uma tribo inteira de bárbaros se lança ao ataque sem quartel.

E já que falei há pouco em alvoroço, explico que essa palavra vem do Árabe al-buruz, “sair dando gritos de alegria para receber alguém”.

No caso aqui da Tia Odete, eu dou gritos de alegria quando certos alguéns se afastam de mim, mas esqueçam.

Estrondo, outra coisa que vocês produzem a torto e a direito, vem do Latim extonitrus, “grande barulho”, formado por ex-, “fora”, mais tonitrus, “trovão”.

Liga-se a tono, “atroar, ribombar”. Uma das apresentações de Júpiter era o Júpiter Tonante, “o que ribomba, que ressoa como um trovão”.

Bem que eu gostaria de poder lançar raios que nem ele sobre aqueles que me incomodam. Ah, aqueles tempos antigos eram maravilhosos!

Vejam que tono é uma palavra onomatopaica; ela foi feita imitando o som profundo de um trovão e…

Parem já de dizer tono com voz grossa em uníssono! Não tem graça!

Aliás, levem esse trovão para casa com vocês, que graças aos deuses do Olimpo nossa aula terminou e vocês poderão presentear seus pais com um pouco do que aprenderam aqui hoje.

Até amanhã!

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