Em: Conversas com meu Avô

FUNÇÕES ANTIGAS

– Como vai, Vô? Fazendo alguma coisa que preste?

– Estou sempre fazendo algo que preste, mesmo quando não estou fazendo nada. O oposto de você.

– Tá bom, Vô. Deixe para lá e conte-me uma coisa: outro dia meu pai comentou que a palavra brasileiro nem sempre quis dizer “nativo do Brasil”. Na hora me distraí e deixei passar, mas agora me lembrei. E, como o senhor até sabe uma coisinha que outra, resolvi perguntar…

– “Uma coisinha que outra”, impressionante como minha extraordinária cultura pode ser avacalhada por um adolescente. Em todo caso, como sei que é melhor não contrariar pessoas com certos problemas, vou atendê-lo.

Era assim há anos; nós nos comportávamos como se não tivéssemos aquele afeto enorme um pelo outro.

– Sei que, na sua idade, pai e mãe são a coisa mais insalubre que há. Quando a gente é adolescente, se impressiona de ver como eles sabem pouco e são faltos de bom senso.

Sei disso porque eu fui assim também. E um dia você vai aprender umas coisas. Mas, em vez de ficar falando sobre o que acontece ao amadurecermos, prefiro dizer que seu pai estava certo. Realmente, brasileiro inicialmente foi usado para designar a pessoa que se dedicava à extração de pau-brasil, palavra esta última que vem do Germânico brasa, “fogo”.

No século XVI essa árvore era abundante na Mata Atlântica. Havia um grande interesse comercial por ela entre os europeus, pois ela fornecia um importante corante vermelho para tecidos.

– Ah Vô, vai me dizer que antes de se descobrir o Brasil não havia tecidos vermelhos?

– Ah, Senhor, dai-me paciência para agüentar este pobre rapaz, acho que ele não tem culpa pelos seus processos mentais deficientes! Acontece, rapazinho, que essa árvore não é exclusiva de nosso país; suas propriedades já eram bem conhecidas na Europa.

Na época das descobertas, o Ceilão era um importante produtor dessas árvores, as Cesalpinas. Mesmo elas sendo de diferentes espécies, todas produzem a brasilina, que é o tal corante.

Essas árvores foram exploradas em nosso país até se tornarem espécies ameaçadas; agora elas estão ressurgindo espontaneamente em alguns Estados, mas ainda é proibido comercializar essa madeira. Ainda mais que ela foi escolhida como nossa árvore-símbolo.

As campanhas de preservação ajudaram nisso, mas muito importante foi a descoberta, após muita pesquisa, da estrutura do corante há poucas décadas.

– Quem diria, Vô!

– Sim. Já que você falou nesta atividade antiga, vou-lhe contar sobre a de meirinho. Estes eram oficiais da Justiça em Portugal, na Idade Média. Cabia-lhes fazer apreensões, penhoras, prisões, mandados judiciais. Volta e meia a gente encontra algum deles perdido em alguma leitura.  A palavra deriva do Latim majorinus, “maior, maior ainda”, de major, aumentativo de magnus, “grande”.

– Nunca tinha ouvido falar.

– Não me espanta. E o que será que você sabe do amanuense?

– Também nada…

– Essa era usada até mais recentemente. Quer dizer “secretário, escrevente”, e vem do Latim amanuensis, “secretário, aquele que escreve as cartas para seu patrão”, de manus, “mão”.  E era à mão mesmo, pois talvez você saiba que não havia computadores até há pouco tempo no mundo.

– Aah…

– Isso, fique caladinho enquanto eu conto de outra que também teve um uso maior e que agora está sumidinha: o chantre. Ela vem do Latim cantor, “cantor”, de cantare, “cantar” e era usada para designar quem supervisava um coro religioso. Depois passou a designar determinada função num Colégio  Canônico.

– Complicado, esse assunto de cantar.

– E que me diz do de ouvir? Havia uma função em Portugal chamada ouvidor, do Latim audire, “ouvir”. Eles eram magistrados que supervisavam a Justiça e parte de sua função era mesmo ouvir o que diziam as partes queixosas.

Na mesma época, havia o cargo de veador, que…

– Epa, meu nobre antepassado! O senhor quis dizer vereador, não?

– Eu quis dizer veador, nobre e impertinente descendente. Esse era o nome do cargo de camarista real ou imperial. Deriva do Latim venator, “caçador”, de venare, “caçar”.

Isso porque inicialmente ele era uma pessoa que auxiliava nas caçadas reais. Nosso D. Pedro II vendeu vários desses títulos, que permitiam à pessoa pavonear-se em troca de algum dinheiro.

– Parece que não houve muita mudança para os dias de hoje, né?

– Coberto de razão, meu caro.

– O senhor tem mais algumas para comentar? Estou achando interessante.

– Tudo o que eu digo é interessante. Podemos falar também de bedel. Este era um funcionário das faculdades que se encarregava de ajudar os professores com as listas de chamada e outras tarefas administrativas. Vem do Francês antigo bedel, “infante, oficial de Justiça”, de uma forma bidal, relacionada com o Alemão bieten, “rezar, rogar”.

Nas forças armadas, tínhamos o anspeçada,  uma graduação que se situava entre soldado e cabo. Seu nome vem do Italiano lancia spezzata, “lança quebrada”, que era o seu símbolo. Inicialmente denotava um soldado experimentado mas que não fazia parte de uma “lança”, palavra medieval para um grupo de cinco a dez soldados.

E, falando em cargos militares, vem-me à mente o de furriel, que é um sargento com a função de lidar com folha de pagamentos e refeições de sargentos, cabos e soldados. A palavra vem do Francês fourrier, “encarregado da alimentação e alojamento dos soldados”, e veio do Latim fur, “ladrão”.

Não que eles desviassem material ou dinheiro; acontece que, no Exército romano, eles eram os encarregados de prover alimentação para os soldados. Naquela época, um exército tinha que se aprovisionar do que encontrasse em seus deslocamentos, o que  levava a soldadesca a obter alimentos dos civis que encontrassem através de métodos pouco amigáveis.

Bem, meu neto, já estou com a boca seca de tanto tentar iluminar as suas trevas mentais. Agora deixe este cidadão idoso descansar um pouco.

 

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