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Pragas

Não é raro estarmos incomodados, irritados ou até furiosos com alguém. Isso pode ser objetivo, porque essa pessoa nos trouxe algum tipo de prejuízo, ou pode ter base numa idéia sem maior fundamento.

De qualquer modo, quando estamos assim, muitas vezes usamos de uma série de recursos de pensamento, ou até os cristalizamos em linguagem. O poder da palavra se manifesta fortemente em nossa fantasia. Vamos falar um pouco nisso.

PRAGA – vem do Grego plegma, “golpe, ferida, aflição, desgraça, surra” pelo Latim plaga, com o mesmo significado, e ainda com o de “região, país”. Plaga também se transformou em “chaga”, em Português e “llaga” em Espanhol.

Aqui registramos mais uma tradução mal feita em nosso filmes da TV: em Inglês, plague significa “peste”, a doença infecto-contagiosa. Nossos gloriosos tradutores, no entanto, não se dão ao trabalho de abrir um livro quando escutam essa palavra e assim nos impingem, nas legendas, praga. Diz o mocinho: -“Ele está contaminado com a praga! Afaste-se!” Depois ele chega para o doente, que está quase apodrecido, e pergunta: -“Are you OK?”…

Falando em filmes e pragas, podemos citar o damn que tanto aparece nos diálogos de Hollywood. O Latim damnus significava “dano, perda“; daí veio damnare, “prejudicar, causar dano”. O seu sentido acabou passando a “julgar”, tanto no sentido jurídico quanto no teológico. O nosso verbo condenar descende deste. Dizer que alguém estava damned significava que esta pessoa estava com a alma condenada, perdida.

Para nós, parece estranho que isso soe ameaçador, mas para os povos de cultura inglesa as palavras que lidam com assuntos divinos e diabólicos são importantes. Tanto que eles muitas vezes trocam o damn por darn, Jesus por geez, etc.

MALDIÇÃO – em Latim, male, “mal” e dicere, “dizer, falar” formaram maledicere, que inicialmente significava apenas “falar mal de alguém”. Foi com o cristianismo que surgiu o significado de execração, de afastamento do que é sagrado e correto. Por longo tempo, chamar alguém de “maldito” ou “amaldiçoado” era ofensa muito grande.

Na década de 70 havia uma revista editada nos Estados Unidos, chamada Maledicta. Era uma publicação inteiramente dedicada a estudar os desaforos usados nos mais diversos idiomas. Ali se constatou que o Português é particularmente pobre na matéria, pouco se afastando da emissão de juízos desabonatórios sobre a progenitora alheia.

A fama da existência de maldições sobre as tumbas dos nobres egípcios é coisa de literatura e cinema, apenas. São raríssimos os túmulos que apresentam alguma praga escrita rogada sobre eventuais violadores.

IMPRECAÇÃO – vem do Latim precatio, “rogo, pedido, oração”. Se alguém está desejando o mal a outra pessoa, talvez esse alguém faça uma imprecação, de in, “contra”, e precari, “orar”. Pelo visto, orações podem servir a maus propósitos também.

Agora, se você se encontra numa situação difícil, apertada, com os credores à sua porta, filhos incomodando, cônjuge resmungando, saúde ruim, provavelmente você apele às orações para que isso passe. Seu estado então poderá ser descrito, em Latim, com as palavras precari e o sufixo osus, “cheio”. Em Português, você estará em situação precária.

AMEAÇA – quando nos sentimos ameaçados, não parece que há alguma coisa pendendo sobre a nossa cabeça, prestes a cair e nos esmagar? Pois os antigos, em sua sabedoria, usaram uma raiz que significava “estender, projetar” para formar, em Latim, mincia, “ameaça, intenção de causar dano”, minare, ameaçar”, minax, “ameaçador”.

Esta palavra, aliás, parece boa para um conjunto de rock daqueles com componentes bem sujos, descabelados e promotores de quebra-quebra em tudo que é lugar. “Banda Minax presa por desordem”, diriam as manchetes.

EXECRAÇÃO – vem do Latim exsecratio, “juramento, maldição, imprecação”. E esta palavra por sua vez é composta de ex, “fora”, e sacer, “sagrado”. Tudo o que se afasta do que é sagrado é considerado detestável, ruim.

ANÁTEMA – é mais uma palavra que anda sumida dos textos atuais, exceto na linguagem religiosa. Em Latim, anathema significava inicialmente “dom, oferenda”.

Origina-se no Grego anathema, de ana, “para cima” e tithenai, “colocar”. Tratava-se do gesto de elevar com as mãos, na frente do altar, algo devotado a um deus, como um perfume, uma flor, um cálice de vinho. Como muitas vezes a oferta era um animal a ser sacrificado, a palavra se distorceu e veio a assumir a conotação de “a ser exterminado, condenado, amaldiçoado”, como a Igreja Católica usa agora. Tanto é assim que, a partir de certa altura, ainda em Latim, passou a significar “excomunhão, reprovação, rechaço”.

É de se perguntar como é que os antigos gregos faziam a oferta de um boi ou pelo menos a perna de um boi, erguendo-a aos ares. Os sacerdotes deviam ser muito fortes.

FULMINAR – do Latim fulmen, “raio”. Fulminare significava “atingir com um raio”, o que era um dos numerosos maus hábitos de Júpiter. Mas, pensando bem, quantos de nós se conteriam se tivessem à mão um sortimento de raios estalando de novos?

No Latim medieval, passou a significar “pronunciar uma censura eclesiástica sobre alguém”. Naquelas épocas, ser censurado pela Igreja tinha mesmo um efeito semelhante ao de um raio, pois se podia perder uma série de direitos.

Nos sinos de igrejas antigas se inscrevia muitas vezes a frase Fulgura frango. Antes que alguém imagine todos os frangos da aldeia correndo pelos campos, aterrorizados com os raios da tempestade, avisamos que esse frango do sino pertencia ao verbo frangere, “quebrar, romper”. Fulgura frango quer dizer “destruo os raios”. Frágil vem daí: é “aquilo que pode ser rompido”. ,

Naquelas épocas se acreditava que o som dos sinos conseguia dominar os raios. Aliás, estes não eram pouca ameaça, já que muitas casas eram de madeira e não existiam os pára-raios.

EXCOMUNGAR – do Latim ex, “fora” mais communicare, “compartilhar, colocar em comum”. Significava “afastar do contato, da comunhão dos fiéis”. Era coisa das mais sérias. Uma pessoa excomungada ficava impedida de receber os sacramentos. Assim, ela não podia receber os últimos ritos e a sua alma só encontraria guarida lá embaixo, onde ninguém queria ir. Tal pessoa seria isolada em sua comunidade, não conseguiria fazer negócios e acabaria na miséria. As autoridades eclesiásticas tinham na excomunhão uma arma poderosa .

EXORCISMO – esta, digamos, é a excomunhão levada ao extremo, usada contra a turma de Satanás.

Vem do Latim exorcismus, “afastamento de espíritos maus”, do Grego exorkizein, formado por ex-, “fora”, mais horkos, “juramento”.

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