Em: X-8 Detetive Etimológico

X-8 Atinge Croquezz

 

O escritório de X-8, cuidadosamente desmazelado. Luz entrando pela janela, lançando sombras na horizontal. O grande detetive em pé, olhando fixamente para a frente.

Quem é o alvo do seu olhar feroz? Croquezz, nada menos do que Croquezz.

Sim, aquele pulha que é inimigo de X-8 e de todas as palavras, aquele criminoso que se compraz em fornecer falsas etimologias às palavras que, crédulas como sempre, acabam atribuindo-se origens inexistentes, está no local de trabalho de X-8.

Ele, o psicopata que é capaz de se disfarçar de pipoqueiro para ensinar coisas mentirosas a pobres palavras criancinhas. O maior perigo que já houve na área desde os primeiros etimologistas populares.

Ali está o rosto do vilão, um cara-de-pau completo, encarando fixamente o corajoso detetive.

Então é o confronto final, não há dúvida; é matar ou morrer. Da imobilidade completa, o detetive explode em ação precisa, com total controle e sangue frio impressionante. Sua mão direita se move, pega a pistola no coldre de ombro e dispara contra a face iluminada do bandido.

Ele é atingido no olho esquerdo e resvala até o chão, ficando recostado à parede. X-8 o olha, ainda alerta.

Um sopro de vida ainda anima aquele réptil; o suficiente para ele chamar X-8 e pedir um último cigarro. É o último desejo de quem vai partir logo; não resta senão atender.

Mas o detetive não fuma. Aliás, nem tinha notícia de que o criminoso fumasse.

Ele tira um chiclete de bola do bolso da gabardine, desembrulha-o e o larga do alto na mão do moribundo, para não se arriscar a levar uma mordida vingativa.

Com a vida se esvaindo, o sujeito caído leva o chiclete à boca, começa a mascar e fala, de modo arrastado:

– Enfim, você ganhou. Não dá para negar. É a vida, alguns dirão até que é a morte. Enquanto espero entrar em choque hipovolêmico e ter a devida parada cardíaca, só posso repassar os meus defeitos e pecados e esperar que, se bondade divina houver, eu seja perdoado pela compaixão infinita do Grande Etimologista lá do Céu – fez uma bola com o chiclete e prosseguiu:

– Invejei você desde o primeiro dia na Faculdade de Etimologia. Você estava tão contente, tão entusiasmado com aquilo tudo… Mesmo quando os veteranos, durante o trote, o colocaram sentado sobre um urinol na parada de ônibus, sozinho, você curtia.

Por minha vez, eu não queria estar ali. Fui obrigado por um pai rígido cujo sonho era ter um filho que dominasse as palavras. E sabe por quê? Por que ele era gago!

Isso, um tartamudo balbuciante que levava as pessoas à exasperação quando queria dizer alguma coisa. Tanto que, quando ele casou com mamãe, o padre combinou que ele diria o “sim” apenas levantando o polegar.

Ele teve uma carreira de sucesso como vendedor de seguros porque as pessoas topavam tudo para se livrarem logo daquela interminável confusão de vogais saindo para um lado e consoantes para o outro.

Isso lhe permitiu pagar adiantado todinhos os quatro anos da minha faculdade – fez mais uma bola com o chiclete, esta maior do que a anterior. Continuou. Não dava para saber se a sua voz estava atrapalhada pela morte próxima ou pelo chiclete:

– Por outro lado, eu sabia que você era filho de gente humilde. Sabia que tinha passado muito trabalho para fazer o vestibular, sem cursinho de qualquer tipo, estudando no intervalo das entregas de jornais que você fazia para levar pão para casa.

Você estava ali com meia bolsa de estudos. Eu o via fazendo faxina nas salas de dissecção de palavras, varrendo letras caídas pelos corredores, espanando as sílabas guardadas nas gaiolas, encerando os alfabetos antigos do pequeno museu, cuidando com carinho das palavras em extinção que ainda respiravam, espantando a vassouradas os neologismos que tentavam se infiltrar no prédio.

E tudo isso você fazia com aquela cara de idiota que está faceiro com o que faz.

Mesmo quando você pegou um serviço extra no bar da Faculdade, lavando os copos e pratos descartáveis, você não demonstrava cansaço. Você não tinha mais do que três horas para dormir por dia, e estava sempre com os olhos brilhantes de quem está encantado com a sua atividade – outra bola cor-de-rosa saiu de sua boca e estourou:

– E o que você fazia quando conseguia juntar uns trocados? Comprava livros!! Eu, que passava as noitadas em dissipação, com uísque e más companhias fartamente pagos pelo velho, que pensava estar mandando dinheiro para material de estudo, não podia acreditar que você andava magro como cão sem dono pelos corredores da Faculdade só para poder comprar aqueles alfarrábios cheios de letras!

Tudo isso me gerou uma inveja terrível. Você era o que o meu pai queria que eu fosse! E eu não conseguia ser o que ele queria, nem sequer conseguia ser o que eu queria. Meu sonho era ter uma carrocinha de pipoca e passar a vida nas praças e parques, olhando a vida passar.

Por isso foi que eu resolvi arranjar para você ser perseguido pelo professor mais ranzinza que já apareceu em qualquer universidade do planeta. E, logo que aprontei essa, desapareci de pura vergonha, pois algo em mim dizia que eu fora injusto. Não deixei endereço.

Minha família até hoje, tantos anos passados, não sabe de mim. Consegui um cargo público e sobrevivi, mais pelo meu desejo de lhe fazer mal do que por capacidade minha.

Uma bola começou a sair de entre os seus lábios agora pálidos, mas fez pfff e não foi adiante.

Veja, meus pulmões já não conseguem nem encher uma bola de chiclete – e X-8 pensou: “Mas ainda conseguem encher o saco de um ouvinte!”.

O moribundo tossiu e continuou falando:

– É chegada a minha hora. Mas não posso partir sem receber o seu perdão. Perdoe-me, amigo – gostaria de o chamar assim agora – pelo mal que lhe fiz. Perdoe-me pelas barbaridades que cometi contra as pobres palavras, que pagaram pelos meus defeitos. Perdoe-me pelas minhas frustrações, embora eu saiba que foi culpa minha não ter feito a psicoterapia que certamente me recolocaria no caminho do bem.

Dê-me a mão; tudo está escurecendo, estou com zumbido nos ouvidos, com visão tubular, sinais de hipóxia cerebral. Claro que, se você me tivesse deitado e elevado os meus membros inferiores eu não estaria assim ainda. Mas não vem ao caso.

Gostaria que você me atirasse pela janela.

Sim! Já que meu corpo não tem mais salvação mesmo – e a alma vai por pior caminho – , pelo menos quero lhe dar o prazer de olhar pela janela e me ver espatifado no chão, dentro do círculo de luz do poste, pálido, esquálido, frígido, céreo, lívido, álgido, cinéreo; uma visão bárbara, tétrica, mórbida, fúnebre e em breve pútrida, para alegrar os seus olhos depois de tanto mal que lhe causei. Você merece!

Segure a minha mão! Parto agora! Vejo um túnel e uma luz brilhante no final! Espero que não seja o farol de um trem que está vindo.

Mas não, é a Redenção! Diga que me perdoa! Tenho poucos minutos para ouvi-lo! – tentou mais uma bola, mas tudo o que conseguiu foi cuspir o chiclete no colo.

X-8 agora tinha que fazer algo pelo moribundo. Não pega bem bater em inimigo que está morrendo. Em toda a literatura, em todos os filmes, esta era a hora em que o vencedor se mostrava generoso, grandioso, magnânimo. Ele tinha que atender aos últimos desejos daquele que estava partindo.

Não hesitou em sua compaixão; ergueu-se, foi rapidamente até sua escrivaninha, tirou dali a luva de borracha usada pela faxineira e a colocou entre as mão frias do agonizante:

– Pronto, Segure minha mão neste momento tão especial de sua vida. Não repare no cheiro de água sanitária. Minha pele sempre fica assim quando estou muito emocionado.

Quanto ao perdão, palavra que vem do Latim perdonare, de per-, “total, completo”, mais donare, “dar, entregar, doar”, quem sou eu para fazer isso? Ele cabe a instâncias mais altas do que um pobre ser humano.

Aliás, instância vem do Latim instantia, “ato de exigir pressa, proximidade”, literalmente “estar perto”, do verbo instare, “estar presente, exigir pressa”, que veio de in-, “em”, mais stare, “estar”, de uma raiz Indo-Européia sta-, “estar”. Em Lógica Escolástica, instantia era “um fato ou exemplo”. É por isso que os ingleses dizem for instance quando querem dizer “por exemplo”.

Sendo eu nada além de um pobre ser humano, conforme declarei acima, cabe lembrar a origem desta palavra, que veio do Latim homo, aparentemente com influência de humus, “terra”, dando a noção de “seres da terra”, em oposição aos seres divinos das alturas.

Não podemos esquecer que o Hebraico Adam, o nome do nosso Pai bíblico, vem de adamah, “chão, terra”, e que o Homem foi feito “do pó da terra” (Gênese, Cap. 2, Versículo 7).

E falando nisso, temos que Humanismo vem de Humanitas, “educação adequada a uma pessoa de cultura”, usado em sentido filosófico e teológico. Aliás, Ariosto, o poeta italiano falecido em 1533, cunhou em Italiano a palavra Umanismo, “estudo da natureza humana”.

Assim, seus pecados, palavra que vem do Latim peccatus, que originalmente queria dizer “pisar em falso, tropeçar” (vindo de pes, “pé”), estendendo-se o sentido aos falsos passos que você deu em relação à Moral, à Ética, à Decência, deverão ser encaminhados a Alguém que possa analisá-los para perdoar.

Sempre devemos lembrar que análise vem do Grego analyein, “soltar, afrouxar”, verbo esse composto por ana-, “através”, mais lysis, “afrouxamento”. É uma construção muito expressiva, que dá a idéia de que se pode entender melhor uma situação ou idéia quando as suas diversas partes se encontram como que soltas, separadas entre si para melhor contemplação.

Se você quiser, nesta situação tão extrema, eu posso escrever as suas confissões, que poderiam ser enviadas em três vias para… para… – olhou com mais atenção ao ser que jazia aos seu pés. A última palavra de Croquezz saiu, num sussurro:

– Saco! – o olho que não fora atingido revirou para cima, em evidente midríase paralítica. Logo ficou baço. As feições, essas não se suavizaram, mostrando que até o fim a alma criminosa deixara a sua marca na pobre carcaça.

X-8 se ergueu. Pensou em tirar o chapéu mas se lembrou que nunca fazia isso. De qualquer jeito, não havia ninguém para ver.

Olhou para o inimigo caído. Finalmente a luta da sua vida terminara. Agora ele poderia descansar.

Repentinamente, tudo entrou nos eixos da realidade.

Quem tinha levado um tiro no olho esquerdo era uma foto de Croquezz. A pistola de X-8 era de plástico e disparava água. Os diálogos tinham sido imaginados – mas provavelmente ocorreriam mesmo se a situação fosse verdadeira.

X-8 pensou:

– A coisa está ficando preta. Alucinei prá valer. E olha que larguei os pirolitos há tempo! Preciso me livrar desta obsessão.  Acho que está na hora de consultar, pelo menos enquanto não consigo acabar com o toutiço daquele bandido.

E se sentou atrás da escrivaninha, pensando, pensando…

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