Em: Conversas com meu Avô

GÊMEOS

 

Eu tinha dez anos quando entrei no gabinete do meu avô, sem poder aguentar mais uma curiosidade do mundo adulto:

– Vô, fiquei sabendo que a Tia Ana, nossa vizinha, teve trigêmeos e que eles estão doendo!

– Como assim, menino? Eu a vi na semana passada e ela não estava nem um pouco grávida, ainda mais de três crianças. E doendo?

– Foi o que ouvi a Mãe dizer há pouco, muito preocupada. Como eu vi que ela não estava com muita vontade de contar mais, vim aqui falar com o senhor.

– Espere um pouco. Vou dar um telefonema –  disse o velho.

Fez a sua ligação, que foi breve. Dava para ver que estava se contendo para não rir:

– Pronto, seu trapalhão. Já descobri tudo. A vizinha de vocês está sofrendo de uma doença chamada neuralgia do trigêmeo. É uma dor muito intensa que acomete um nervo da face que atende por esse nome. Mas ela está atendida e já está passando melhor, felizmente.

– Também, Vô, escolhem cada nome!

– Esse foi escolhido para o nervo porque ele aparece na superfície da face em três pontos. Mas acomode-se que vou lhe falar na origem de gêmeos e coisas parecidas.

– Manda brasa, Vô.

– Vamos começar com gêmeo, que vem do Latim geminus, “dobrado, duplicado, igual”, do verbo geminare, “dobrar, repetir”. Possivelmente derive do Indo-Europeu yem-, “formar um par”.

– Já ouvi falar em gêmeo siamês, é coisa que só ocorre com certos tipos de gatos?

Ele riu:

– Você tem cada ideia! Não, o que aconteceu é que, na Tailândia, que então era chamada Sião, em 1811, nasceu um par de gêmeos unidos pelo peito. Eles têm uma história interessante, mas para efeitos de Etimologia o que conta é que eles foram chamados de siameses por causa de sua origem.

No entanto, lá no Sião eles eram conhecidos como “os gêmeos chineses” porque a mãe deles era dessa nacionalidade.

Eles fizeram carreira sendo apresentados em público. Naquela época essas coisas aconteciam. É por causa deles que ainda se usa o adjetivo siamês para seres que nasceram com partes do corpo unidas.

– Deve ter sido uma vida difícil, hein?

– Pois ainda assim eles se estabeleceram nos Estados Unidos, eram muito apreciados pelos vizinhos e deram um jeito de gerar 21 crianças após casarem com duas irmãs. Atualmente há cerca de 1500 descendentes deles no país.

– Que coisa!

– Para você ver. Mas isso me lembra também da palavra sósia, que quer dizer “pessoa muito parecida com outra, a ponto de poder ser confundida”. Esta vem do personagem de uma peça teatral romana, de mesmo nome. O deus Mercúrio assumiu a semelhança de Sósia para aprontar alguma e hoje o seu nome está virado num substantivo comum.

E há outra palavra que aposto que você nunca ouviu: menecma. É um sinônimo de sósia e também vem do nome de personagens de uma comédia romana, Menechmi, que tratava de um par de gêmeos.

– Esquisito, Vô.

– Até aqui estamos lidando com pessoas quase idênticas. Esta vem do Latim idem, “o mesmo”. Há gêmeos idênticos, aqueles que apenas os pais podem distinguir, e gêmeos fraternos, que são parecidos apenas como dois irmãos quaisquer.

Para isso podemos dizer também igual, do Latim aequalis, “idêntico, uniforme”, de aequus, “parelho, justo”.

– E o que não é idêntico, Vô?

– Aí é apenas parecido, do Latim parere, “fazer-se visível, chegar à frente”.

Uma outra palavra que pode se usar para denotar essa ideia é similar, do Latim similis, “tal qual, como, semelhante”, do Latim arcaico semol, “junto”. Símile e semelhante são suas variantes.

– E equivalente?

– Parabéns, eu já ia falar nisso. Seu vocabulário não está dos piores!

Fiquei contente, os elogios do velho eram raros. Aí ele acrescentou, entredentes:

– Claro que, na sua idade, o meu era muitíssimo maior…

E seguiu:

– Pois essa palavra vem do Latim aequivalens, “de mesmo poder, com a mesma capacidade”, formada por esse mesmo  aequus, mais valens, particípio presente de valere, “ser forte, ser capaz”.

Isso traz à lembrança uma palavrinha curta, afim. Ela, para variar, veio do Latim: é de affinis, “vizinho, contíguo, amigo de”, de finis, “fronteira, limite, fim”.

E podemos falar noutra, análogo, do Grego analogon, “semelhante”, de ana-, “igual”, mais legein, “recolher”, donde “computar, enumerar, contar”.

Para terminar, vou-lhe ensinar outra palavra que aposto que você não conhece: pariforme.

– Conheço, sim, Vô. Não quer dizer “com forma de parede”?

O velho me olhou sério:

– Ainda não consegui descobrir se você demonstra uma sensacional burrice ou se é um digno descendente deste seu brilhante interlocutor.

As palavras diziam uma coisa, mas a suavidade em seus olhos mostrava o que ele pensava. Senti-me como se fosse um gato no colo de alguém.

– Como eu ia dizer antes que você interrompesse com semelhante besteira, pariforme vem do Latim par, “igual, semelhante, parelho”, e quer dizer “semelhante” mesmo.

E por hoje chega de igualdades e gemelaridades.

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