Em: Conversas com meu Avô

LIVROS DE REFERÊNCIA

 

Visitando o aconchegante gabinete de meu avô, quando eu tinha uns doze anos, perguntei se ele já tinha lido todos aqueles livros. Ele me disse que, fora os que estavam na fila para serem lidos, e os de referência, já tinha lido todos.

– E o que é um livro de referência, Vô? – perguntei.

– É um livro para consulta, não tem um enredo. Existem diversos tipos, você com certeza já usou alguns sem saber. Olhe aqui: um dicionário, cujo nome vem do Latim dictionarium, “coleção de palavras, frases e citações”, de dictionarius, “relativo a palavras”, de dictio, “palavra”, de dicere, “dizer, declarar”.

– Ah, sei! E lá em casa temos também uma enciclopédia. Qual é a diferença? Ela tem figurinhas e o dicionário não tem?

O velho riu:

– Sem figurinhas não tem graça, não é? O  nome desse outro livro – que normalmente é constituído de vários volumes e explica assuntos e não palavras  – veio da expressão grega enkyklos paideia, traduzida como “educação geral”.

– Eu gosto de olhar mapas, tão coloridos!

– Então você gosta desses aqui – e apontou para livros grandes e vistosos. Estes são os Atlas, cujo nome vem de uma das coleções de mapas dum holandês chamado Mercator. Na capa, ele tinha o Titã Atlas, que depois de se meter numa guerra contra Zeus foi condenado a segurar o globo terrestre todinho nas costas. O título em Latim era Atlas, sive cosmographicae meditationes de fabrica mundi, ou seja, “Atlas, ou meditações cosmográficas sobre a estrutura do mundo”.

– E daí o nome pegou?

– Até agora tem sido um sucesso.

– E aqueles pequenos ali, Vô?

– Esses são os manuais; em geral são os mais mal escritos. Os de aparelhos eletrônicos, então, são mais confusos que discurso de bêbado vesgo.  Seu nome vem do Latim manualis, “relativo à mão”, pois eles se caracterizam por serem portáteis, podendo serem levados na mão.

O que me lembra outro livro feito para ser carregado assim: o hinário, um livro que contém hinos cantados na igreja. E hino vem do Latim hymnus, do Grego hymnos, “canção em honra a deuses ou heróis”, possivelmente derivada de hymenaios, “canção nupcial”.

Há também o suprassumo do livro portátil, pelo menos quanto à origem: o vademecum, que em Latim queria dizer “Vai comigo”. Vem a ser mais ou menos o mesmo que um manual.

– Puxa, quanto tipos, Vô!

– E você nem faz idéia da quantidade, mesmo porque muitos são de alta especialização, de uso muito restrito. Por exemplo, as efemérides. Estas são tabelas de posições relativas de astros, indispensáveis para a navegação. Elas registram a posição dos mais importantes deles a cada dia. Daí vem o seu nome, pois em Grego ephemeros se forma por epi-, “sobre”, mais hemera, “dia”, e quer dizer “de curta duração, o que dura só um dia”.

Como essas listas registram posições celestes que duram apenas um dia, temos aí um nome muito bem escolhido.

E ali temos um conjunto de antologias. Estas podem ser lidas por inteiro mas, como servem para dar uma amostra de épocas literárias ou de autores ou gêneros,  podem ser colocadas entre as referências. Essa palavra vem do Grego anthologia, “coleção ou conjunto de flores”, de anthos, “flor”, mais logia, “coleção”, de logein, “reunir, juntar, colher”.

Mais adiante temos um catálogo, do Grego katalogos, “lista, registro”, de kata– aqui com o sentido de “completamente, de todo”, mais logos, aparentado com o logia que acabei de citar.

E ali está uma gramática, que ajuda a gente a escrever direito ou pelo menos evitar as bobagens maiores. Essa palavra vem do Grego grammatike tekhne, algo como “a arte das letras”, de gramma, “letra”, derivada de graphein, “escrever”.

Em Inglês ocorreu uma alteração interessante com esta palavra. Inicialmente, estudar gramática significava ter um conhecimento restrito às classes superiores, ainda mais que isso significava aprender Latim, que o povo em geral desconhecia.

Como nisso se incluía algo de Astrologia, a palavra acabou tendo por um tempo uma conotação de “conhecimentos ocultos”, com um tom de feitiçaria. Em dialeto escocês, isso virou glamor, que resultou na grafia americana glamour, algo que toda mulher deseja e nem todas têm. Mas quando têm, vai até o fim da vida.

Mas agora vá ler alguma lista de roqueiros ou coisa parecida e deixe seu avô descansar, pois já trabalhei bastante e agora só quero ficar de papo para o ar!

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Em: Conversas com meu Avô

No Jardim

Era verão e minha avó tinha feito aquele suco de uva fantástico, saboroso, espesso. Eu, com meus doze anos, e meu avô, com seus conhecimentos, pegamos copos enormes cheios daquela maravilha gelada e fomos sentar no pátio à sombra, sentindo um vento amável que prenunciava uma daquelas chuvas rápidas da estação.

Ernesto, o enorme gato, nos acompanhou e ficou esperando que brincássemos com ele. Comecei a atirar-lhe casquinhas e pedrinhas. Ele passou a exibir suas capacidades atléticas, pulando alto para as pegar.

Em breve ficou cansado – ou envergonhado de tanta criancice, que gatos têm um elevado senso de dignidade – e se deitou junto aos nossos pés para fazer uma cuidadosa higiene.

– É bom aqui, Vô, com tantas plantas e flores. É o paraíso seu e da Vó, né?

– Você está mais perto do que pensa com essa afirmação. Já ouviu falar no Jardim do Éden?

– Era o nome do Paraíso da Bíblia, não era?

– Exato. E esse nome vem do Latim paradisus, do Grego paradisos, “parque, jardim cercado”, de uma fonte iraniana pairidaeza, “local cercado, parque”, de pairi, “ao redor”, mais diz, “fazer, formar”.

Na época em que estava sendo escrito o Velho Testamento já havia o hábito de se fazer jardins cercados, muito bem cuidados, na Mesopotâmia, o que certamente influenciou os escritores dos textos bíblicos.

– Isso o paraíso; e jardim, de onde vem?

– Do Frâncico gardo, “cercado”. Parece que desde muito cedo era melhor as pessoas terem cuidados para as plantas não serem roubadas. Aliás, essa palavra também originou o garden do Inglês.

– E as flores?

– A palavra flor vem do Latim flos, “flor”, de uma fonte Indo-Européia bhlo-, “brotar, florescer”. Existe uma palavra usada em Literatura que é relacionada e poucos desconfiam: antologia.

– Já sei: é o estudo das antas, ou seja, pessoas que se metem a escrever sem saber nada. Acertei, Vô? – aproveitei a ocasião para o provocar. Gostava de ver a sua reação.

– Não. A única anta que vejo por aqui é um certo neto metido a gracioso. E, como tal, tem que parar de tomar este suco gostoso e ir beber de quatro num rio lamacento.

– Tá bom, Vô. Deixe que eu fique com o suco e fale na antologia, então.

– Em Grego, anthologia era “coleção de flores”, de anthos, “flor”, mais logos, de legein, “colher, juntar”. Era o nome dado a um conjunto de versos e pequenos poemas de diversos autores.

– Foi enquanto Adão e Eva estavam no Jardim do Éden que todas as flores receberam os seus nomes, como me disse a nossa vizinha, Dona Aída?

– Ela tem muita fé, mas isso não torna verdadeiras certas afirmações. Os romanos diziam facile credere quam volemus, “é fácil acreditar no que queremos”.

As flores foram ganhando seus nomes aos poucos, à medida que iam sendo descobertas. Por exemplo, a hortênsia ali, vem do Latim hortus, “jardim, horto, plantação”.

Logo ali temos o crisântemo, a “flor de ouro”, que vem de chrysos, “ouro” em Grego e anthemon, “flor”.

Há o amaranto, do Latim amarantus, do Grego amarantos, de a-, partícula negativa, mais marainein, “morrer”. Literalmente, era a “sempre-viva”, a flor que não morria. Por isso, tinha um bom uso em Poesia.

– Minha mãe gosta muito de gardênias. Tá na cara que esse nome vem do lugar onde elas são plantadas, o garden, na Inglaterra, certo?

– Errado, seu etimologista chutador. Eis mais um caso de parece-mas-não-é. O nome é devido a um naturalista que aconteceu de se chamar de Alexander Garden. Portanto, vem de um sobrenome, mas não do lugar onde cresce.

– Droga.

– É bom ser humilde por ora. Um dia você vai chegar onde eu estou e não vai mais precisar disso – disse o velho com a cara mais séria do mundo – e continuou:

– Há aquela flor muito comum na Holanda, a tulipa. Seu nome vem do Turco tülbent, “turbante”, do Persa dulband, com o mesmo significado. Isso porque ela lhes lembrava essa cobertura para a cabeça tão usada no Oriente.

Existe também a anêmona, do Grego anemone, “flor do vento”, mais exatamente “filha do vento”, de anemos, “vento”, mais -one, terminação de nomes femininos.

– E a grama, Vô? Muito discuti com meus amigos sobre a grama e o grama. Como é isso?

A grama, que é verde e cresce no chão vem do Latim gramen, “relva, gramíneas em geral”, do Indo-Europeu gre-, “o que cresce”. Esse é um substantivo feminino e o artigo que lhe corresponde é a.

O grama, que é uma unidade de massa do sistema métrico decimal vem de outra fonte, o Grego gramma, “sinal escrito, marca”, relacionado com graphein, “escrever”, originalmente “sulcar, marcar arranhando” . Passou a ser o nome de uma unidade de medida porque no Latim havia uma palavra derivada, o gramma, usado como unidade de massa.

– Meu amigo Gilberto diz que, se termina com “A”, é feminino.

– Então diga para ele enviar uma telegrama com muitas fonemas ou dar uma telefonema ou fazer umas poemas para o governo, para ver se consegue mudar isso! Cabeça simplista!

Percebi que ele se irritava com aquele tipo de teimosia. Mudei de assunto:

– E o capim?

Esse nome tem origem em nosso país mesmo. Vem do Tupi ka′a, “erva, planta”, mais pii, “fino, estreito”.

– Vô, e porque a parte de baixo do pé se chama planta? Pegou esse nome porque quem anda descalço pisa nas plantas com ela?

– Antes o contrário. Por incrível que pareça, o nome dessa parte do corpo é que passou para os vegetais. Tudo indica que veio do Latim plantare, “enterrar, empurrar contra o chão com o pé”, de planta, “sola do pé”. Depois passou a significar, ainda em Latim, “broto, rebento, enxerto”. O seu uso para “vegetais fixos no solo” é estranhamente recente; tem pouco mais de 500 anos.

– Puxa! E esse broto de que você falou?

– Vem do antigo Germânico spreutanan, do Indo-Europeu spre-, “espalhar, dispersar”, passando pelo Grego speirein, “espalhar”. Quando eu tinha a sua idade, chamávamos as moças de brotos. Pena que agora não se usa mais, pois era muito expressivo.

– Se eu chamar uma moça de broto

– Já sei, você vai levar um corridão. Não tente, use as palavras de agora.

– E a raiz? O senhor sempre fala em raízes das palavras…

– Porque radix em Latim significava “base, fundamento”. Uma raiz é o fundamento por onde a árvore se fixa ao solo, a raiz de uma palavra é a base de onde ela evoluiu, a raiz quadrada ou cúbica de um número é a base de onde ele surgiu, depois de determinadas operações.

– E, para tudo isso crescer, é necessária muita água – disse eu, ao ver a mangueira enrolada ali perto.

– É. Temos que usar muito a mangueira. O nome deste objeto vem de uma parte da roupa, a manga, devido à forma e à função. E manga vem do Latim manica, derivado de manus, “mão”.

É preciso regar frequentemente. Esta palavra vem do Latim regare, “molhar, derramar”. Para uma pessoa crescer e ser algo que preste, ela há de ser regada com bons exemplos e muito estudo, sabia? – e me olhou por cima dos óculos com ar feroz. Pulei para outro assunto:

– E o adubo?

– Este vem do Frâncico dubban, “armar um soldado para a guerra”. Seu sentido evoluiu para “preparar, deixar apto, adequado”, que é o que se faz com a terra quando se colocam nela certos compostos químicos necessários ao crescimento das plantas. Para crescer bem, uma pessoa precisa ser adubada também, sabia? – e repetiu o olhar. Em gente, este adubo tanto é feito de carinho, como um suco feito especialmente para um neto, como por exigências de estudo.

Mas agora vá correr pelo pátio com esse gato, que estou com a boca seca de tanto falar. E aproveite para me trazer mais um copo de suco.

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