Em: Etimologia no Maternal

TIA ODETE FICA ATURDIDA

 

Não posso acreditar. Entro na aula e meus aluninhos, que usualmente se comportam como funcionários do Reino Subterrâneo atacados de sarna, estão placidamente sentados. Estão arrumadinhos, limpos, penteados, não gritam, não batem um no outro…

Terei morrido e ido para o Paraíso?  O que é isso, jamais visto? Estou francamente atordoada.

Antes de aprofundar o mistério, vou aproveitar a ocasião para dizer que esta palavra aparenta derivar do Espanhol atonodrar, “estontear, tirar do normal”, do Latim tonitrus, “trovão”. Ou seja, fiquei como se um raio tivesse caído bem do meu ladinho e o trovão me privasse por um momento das capacidades mentais que ainda me restam depois de dar aulas para vocês.

Aliás, eu poderia dizer também que fiquei aturdida, que tem exatamente a mesma origem e significado.

Ou ainda que restei atônita, que veio direto do Latim attonitus, também “assustado por um trovão”.

A continuar tão estranho estado de coisas, terei que me declarar atarantada, que vem do nome de uma aranha. O grupo continua quieto, sem se agitar ao ouvir falar deste artrópode octópode?

Pois vou contar igual: havia uma cidade no sul da Itália chamado Taranto, onde abundavam aranhas de picada muito dolorosa. Dizem que estas faziam as pessoas ficarem descontroladas e agitadas. Aliás, esta condição, que se chama tarantismo, pode ser usada para descrever meu estado atual.

E antes que me perguntem de onde veio o nome da Taranto, informo que foi em homenagem a um deus do mar chamado de Taras, filho de Poseidon.

E acrescento que a música tarantela recebeu o nome a partir da lenda de que as pessoas picadas pela aranha tinham uma vontade incontrolável de dançar. Na verdade, o que sentiam devia ser a agitação física causada pela dor.

Posso acrescentar a esses adjetivos o de embasbacada,  que deriva de embarbascar, “tontear peixes com o barbasco”, do Latim verbascum, o nome de uma planta. Dela se extrai a rotenona, que leva os pobres peixes à superfície e permite aos pescadores fazerem a festa.

Manifesto também meu espanto, do Latim expaventare, de ex-, “para fora”, mais pavere, “tremer de medo”, ligado a pavor, “pavor, medo”.

Também me sinto perplexa, do Latim perplexus, “complicado, confuso, intrincado”, de per-, “totalmente”, mais plectere, “dobrar”. Perante tão assustador surto de bom comportamento, estou com toda a minha mente como que amarfanhada, toda dobrada, tentando entender o fenômeno.

E me sinto admirada perante o que se desdobra ante meus olhos; esta vem do Latim ad-, “a, para”, mais mirare, “olhar, espantar-se”.

Na verdade, estou tão confusa, que vem do Latim confusio, “mistura, desordem”, de confundere, “misturar, transtornar”, formada por com-, “junto”, mais fundere, “derramar, fazer fluir”, que me preocupo com o que pode haver por trás de tão assustador bom comportamento.

Será que finalmente os extraterrestres nos invadiram e estão alterando as mentes de nossas pobres crianças? Será que se trata de alguma maldição dos Maias, Incas, Egípcios ou assemelhados? Ou quem sabe, pior ainda, o maravilhoso cérebro desta pobre Tia Odete finalmente deixou de funcionar e tudo não passa de um delírio?

É por isso que me sinto apavorada, que devia ter citado ali junto com espanto, já que deriva também de pavor.

Falando nesta sensação de medo intenso, vem à minha já duvidosa mente a palavra horrorizada, do Latim horrere, que quer dizer “ficar de cabelo em pé, arrepiar”. Como o medo é uma causa tão freqüente deste fenômeno, horrere acabou significando “assustar, encher de medo, fazer tremer”.

Tamanha calma reinando em minha aulinha só pode me deixar arrepiada.

E também abismada. Esta lembra a sensação de uma pessoa estar à beira de um abismo, um precipício, um despenhadeiro, com a possibilidade de ir dar com a testa no fundo dele.

Vem do Latim abyssus, do Grego abyssós, “sem fundo”, formada por a-, “sem”, mais byssós, “fundo do mar”.

Estou visivelmente boquiaberta, cuja origem me parece que não preciso explicar. Mas, para que nunca possam dizer que Tia Odete deixou de ir até o fim de uma explanação, ela vem de boca e aberta, mostrando uma expressão facial de descontrole devido  a algum fato espantoso.

Também estou estupefata, vem do Latim stupefactus, “ficar pasmado, atônito, espantado, sem ação perante algo extraordinário”, formada por stupere, “chocar, espantar”, mais facere, “fazer, tornar”.

Para não falar em pasma, do Latim spasmus, “espasmo, convulsão”, do Grego spasmós, de mesmo sentido, que veio de span, “puxar, dar um tirão”.

Isso tudo me deixa desorientada, formada por des-, indicando “oposição, falta”, mais  o Latim oriens,  “leste, a parte do céu por onde nasce o sol”, de oriri, “nascer, erguer-se, levantar-se”.

Mas… o que é isso? Todos olham para mim e gargalham, atiram coisas para o ar, se dão tapas, berram como bugios na floresta…

Então era assim? Fingiram se comportar para dar um enorme susto na professora que tanto faz por vocês?

Bem… O caos de volta… Normalidade enfim.

 

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