Em: Conversas com meu Avô

HORÓSCOPO II

Eu tinha ouvido histórias sobre o horóscopo que meu avô me contara e, daí a uma semana, fui visitá-lo e pedi o resto.

– Você gosta mesmo de historinhas, não? Como eu gosto de contar, estamos bem complementados.

Mas vamos ver: tínhamos falado já em dois signos, Áries e Touro.

Vejamos o resto da bicharada, conforme me vier ocorrendo.

Gêmeos, Castor e Pólux, eram filhos de Zeus. O nome do signo e da constelação vem do Latim gemini, “gêmeos”.

– Esse Zeus é o mesmo que o senhor contou que se transformou num touro para namorar a tal da Europa?

– Exatamente. Só que desta vez ele estava querendo namorar uma bonita moça chamada Leda. E, para não perder o hábito, ele se transformou num animal. Desta vez num enorme e alvo cisne.

– Credo, e ela acreditou que se tratava mesmo de um cisne?

– Como eu já disse, naquela época era tudo diferente, as pessoas eram mais ingênuas… Ou ela era meio desligada mesmo. Só sei que, terminada a gestação, ela pôs dois ovos,  cada um com duas crianças. Outros dizem que foi um só, com quatro rebentos. Só sei que eu é que não queria estar na pele do obstetra dela.

– E então?

– Dali saíram: Helena, a que causaria uma enorme confusão que terminaria na Guerra de Tróia; Pólux; Clitemnestra e Castor.

Os dois primeiros eram imortais como Zeus; os dois outros eram mortais como Tíndaro, o legítimo marido de Leda.

– Algo me diz de novo que eles não foram felizes para sempre.

– Nem agora existe isso, que dirá naqueles tempos sem lei. Depois de muitas aventuras Castor foi morto. Seu irmão sentiu muito e quis abrir mão de sua imortalidade. O pai divino então concedeu que cada um morresse por um dia, alternadamente enquanto o outro brilhava no céu, entre os deuses.

– Que história, Vô!

– Ah, tem muito mais. Veja o Leão, por exemplo, cuja origem é o Latim Leo, “leão” mesmo.

Dizem que esse animal enorme, fortíssimo e feroz, habitava a região de Nemeia, na Grécia e fazia um enorme  estrago entre os rebanhos vizinhos. O semideus Héracles foi enviado para combatê-lo. Teve um enorme trabalho, mas acabou torcendo-lhe o pescoço e retirando a pele do felino.

Passou a  usá-la como couraça, pois ela era invulnerável. É por isso que ele é sempre representado usando ume pele de leão.

– E como fazia para lavá-la?

– Nem pergunte. Ele não devia cheirar muito bem.

Héracles está envolvido na história de mais uma constelação do Zodíaco. Trata-se de Câncer, do Grego karkinos, “caranguejo”.

– A doença é um signo, Vô?  –  disse eu, espantado.

– Não é isso. Ela recebeu esse nome pela semelhança entre um tumor típico, com seus vasos salientes, e um caranguejo. Mas na história que nos interessa, trata-se do animal que era amiguinho da Hidra de Lerna.

Este monstro precisava ser combatido e lá foi Héracles enfrentá-lo. Mas, ao chegar perto, um caranguejo saiu da toca do animal de sete cabeças e mordeu o calcanhar do herói.

– E aí, Vô?

– Ora, ele calçava no mínimo 62; com um movimento, achatou o pobre crustáceo decápode que se meteu onde não devia.

– E?…

– Aí a deusa Hera, esposa de Zeus, que não gostava de Héracles porque ele era mais um fruto de seu divino e inquieto marido com outra, premiou o animal colocando-o no céu e tornando-o numa constelação.

– Isso é que é prêmio.

– Verdade. Os deuses eram generosos naquela época. Também, com um céu ainda vazio, podiam fazer estrelas à vontade. Agora é que a coisa está mais difícil.

– É, antes era mais romântico, né, Vô?  E o que o senhor me diz do aquário? Era o símbolo das casas que vendem aquários? Quantos peixes tem dentro?

– Meu caro e inculto neto, quanto terei que trabalhar para iluminar essa pobre cabecinha? Esse signo não tem nada que ver com os objetos feitos para conter água e peixinhos.

– Como assim? O que é um aquário então?

aquário vem do Latim aquarius, “relativo à água”, de aqua, “água”. Era o nome dado à pessoa que servia água ou outros líquidos para os participantes duma refeição. A palavra também se usava para designar um tanque para plantas aquáticas ou um bebedouro para animais.

– E qual é a história sobre ele? Garanto que tem Zeus no meio.

– E tem mesmo. Acho que ele esperava ser eternizado pelas constelações que patrocinava.

Acontece que ele um dia viu um jovem pastor, chamado Ganimedes, cuidando do rebanho de seu pai perto do lugar onde se daria a guerra de Tróia e se tomou de simpatias pelo rapaz. Assumiu então a forma de uma águia, raptou-o e o levou para o Olimpo, onde o moço, entre outras coisas, servia os deuses de bebidas à mesa.

Parece que, em vez de pagar algum salário decente para o jovem, o que Zeus fez foi imortalizá-lo na constelação de aquário, com o que o servidor se deu por bem pago.

– Falando em aquário, e o tal de Peixes?

– Essa palavra vem do Latim pisces, “peixe”. Como as demais histórias que estou lhe contando, esta tem versões as mais diversas. Mas, enfim, como nada disso é verdade, vamos ficar com a que diz que Afrodite e seu filho Eros um dia estavam brincando à beira de um rio, quando se aproximou o monstro Tifão, com as piores intenções possíveis.

– Você quer dizer Tufão, Vô?

– Se eu disse Tifão, foi exatamente o que eu queria dizer, rapazinho. Mas vá lá, talvez o nome da potente tempestade e o do monstro tenham a mesma origem, possivelmente o verbo typhein, “fumegar”, não há certeza.

O fato é que o tal ser era o pior de todos os monstros. Sua cabeça tocava as estrelas,
seus braços abarcavam do Ocidente ao Oriente, em vez de dedos tinha cabeças de
dragões; da cintura para baixo tinha o corpo recoberto por serpentes e de seus olhos saía fogo.

– Credo, Vô, isso é assustador!

– Até os deuses tinham medo, meu caro, de modo que você está em boa companhia. Mas, seja como for, quando ele avançou contra mãe e filho, eles se atiraram na água e
foram salvos por dois peixes.

– Como Vô?

– Ah, isso a história não conta, de modo que vou ficar devendo. Só vou dizer que Zeus
colocou esses peixes no céu como mais uma constelação zodiacal, para comemorar
a coragem deles em enfrentar tão horrível criatura.

– Puxa! E o que foi feito dele?

– Depois de muita luta, em que ele quase venceu o pai dos deuses, este o encurralou com seus raios e arrancou diversas montanhas, que lhe atirou por cima sem dó nem
piedade.

O monstro fugiu para a Sicília, mas Zeus lhe atirou em cima o Monte Etna, que até hoje é um vulcão ativo. Suas chamas são provenientes dos raios que foram usados no
combate e comprovam que lá embaixo está enterrado o descontrolado Tifão.

E agora vá para casa, que da próxima vez tem mais.

– Existe no céu a Constelação do Avô?  –  perguntei eu.

Ele me deu um forte abraço:

– Se você fosse Zeus, aposto que existiria…

 

 

 

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Em: Consultório Etimológico

Origem das palavras em caixa alta

1) Por que crio peixe num AQUÁRIO e no sábado tomo BANHO na PISCINA?
2) (…) Após explosão com um barco, três passageiros cairam na água e se AFOGARAM, enquanto outros dois QUEIMARAM no fogo do combustível espalhado.

Resposta:

1) Vocês criam peixe num aquário porque essa palavra vem do Latim AQUARIUS, “relativo à água”, de AQUA, “água”.

Mas não pensem que os romanos criavam peixinhos dourados em frascos de vidro, não, que eles eram muito práticos e reservavam o nome AQUARIUM para “lugar para o gado beber água “.

A origem da palavra banho  se encontra em nossa Lista de Palavras. Mas façam como eu, tomem banho só em sábado ímpar, que é para não exagerar nesse assunto de higiene.

E a piscina vem do L. PISCES, “peixe”. Aquelas piscinas nas casas romanas não eram para o pessoal praticar nado, eram para criar os peixes que depois iriam ser convidados para o jantar.

2) Muito triste; mas eles se afogaram porque essa palavra vem do Latim AFFOCARE, de AD-, “a”, mais FAUCES, “goela, garganta, entrada apertada”.

Os outro infelizes sofreram o efeito de queimar, que vem do L. CREMARE, “fazer  consumir pelo fogo”.

Melhor não usar mais esa empresa de transporte aquático.

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