Em: X-8 Detetive Etimológico

VENTOS

 

 

Hoje nossa flutuante e fantástica Câmera Literária nos leva até o escritório etimológico de X-8, o detetive disposto a tudo em defesa das palavras e de sua própria conta corrente.

Mas, esperem! O que aconteceu aqui? Papéis espalhados pelo chão, objetos fora de lugar, nosso detetive sentado no chão, tonto, com a gabardine toda amassada, o chapéu caído a seu lado…

Ora, bem quando íamos focalizá-lo para registrar um rosto que há muito tempo não é visto, ele recolhe a cobertura do chão e a enterra na cabeça, como é de seu hábito. E se acomoda resmungando na cadeira giratória forrada de vinil que um dia foi branco.

Bem, talvez em outra ocasião a gente consiga dar esse furo de reportagem.

Agora vamos regular a câmera para uma meia hora antes desse fato, para ver se descobrimos o que aconteceu.

A cena que se abre no visor de LCD perante o espectador e os operadores do sensacional aparelho nada tem de incomum.

X-8 está à sua escrivaninha, começando a atender um grupo de palavras desejosas de conhecerem suas origens. Elas estão sentadas em diversas cadeiras desconjuntadas, muito quietas.

Mas vamos deixar a ação transcorrer:

– Pois é – diz uma palavra de aspecto portentoso e imponente que parece mandar sobre as outras – um dia resolvemos saber sobre nossas origens, juntamos nosso dinheirinho e aqui estamos.

O douto, probo e sábio investigador responde:

– Vão aprender muita coisa comigo, claro. Dá para ver que vocês se referem todas a movimentos de ar. Colho a ocasião para manifestar a honra que sinto em estar lidando com Vossa Majestade Éolo, o Rei dos Ventos da mitologia grega.

Ergueu-se um pouco na cadeira, fez uma breve mesura e continuou:

– Seu nome, prezado Rei, embora a Etimologia sempre seja difícil com palavras de tamanha antiguidade e importância – esse detetive sabia agradar –  parece provir do Grego aíolos, “rápido, vivo, ágil, veloz”, bem de acordo com suas características pessoais. Sendo um dos filhos de Posídon, o deus dos mares, coube-lhe o comando geral dos ventos no mundo, o que não deve ser fácil.

Éolo concordou, revirando os olhos para o teto e reparando que ele estava cheio de teias de aranha.

X-8 continuou:

– Mas, começando mais da base, já que Sua Majestade se dedica ao deslocamento do ar, lembremos que este nome vem do Latim aer, “ar”, do Grego aer, relacionado com aenai, “soprar, respirar”.

E vejo ali, ao lado de ar, uma palavra diretamente derivada dela, aragem.

Ao seu lado se vê, muito modesta, a palavra viração; ela vem de “virar”, do Francês virer, “agitar, fazer girar ou mudar de aspecto”, do Latim virare, “mexer, mudar”.

Sentadinha junto a elas se encontra brisa, originalmente do Espanhol briza, “vento frio do nordeste”, mais tarde se aplicando a “vento fresco vindo do mar” e depois a “vento suave”.

Aliás, vento está naquele grupinho. Deriva do Latim ventus, “vento”, de uma base Indo-Europeia we-, “soprar”. Diretamente dele temos vendaval, antes que alguém esqueça.

Ah, ali se agitou sopro. Já vai, prezada palavra; sua origem é o Latim sufflare, formado por sub, “sob”, mais flare, “fazer deslocar o ar, assoprar”. Daqui se formou flato, que felizmente não veio com vocês à consulta.

Acomodados mais atrás temos um pessoal mais turbulento, obviamente impacientes que chegue sua vez.

Vejo ali a truculância de furacão, que veio do Espanhol huracán, derivado de uma palavra do Taino,  hurakán, o nome dado a esse fenômeno da Natureza na região.

Junto a ele se encontra, também fazendo cara de feroz, mas louco para saber sua origem, o tufão.

Ele vem do Grego Typhon, um mitológico gigante de vento, provavelmente derivado de typhein, “fumegar”. Mas há outras interpretações possíveis, como o Cantonês tai-fung, “grande vento”. Seja como for, o nome se aplica ao vento catastrófico do Oceano Pacífico; o cargo no Atlântico já está tomado por furacão.

As duas palavras começaram a se dar cotoveladas.

O grande profissional continuou:

– E não podemos deixar de citar ciclone, que nos olha expectante da sua cadeira. É uma palavra moderna que foi feita a partir do Grego kyklon, “o que se move ao redor, que gira”, de kyklos, “círculo”.

Mas não se esqueça, cara palavra, que você foi inventada por um oficial inglês em 1749 para descrever uma tempestade tremenda que se desencadeou numa região da Índia; os gregos não tinham nada disso.

Agora chegou a vez de tornado. Muitos dizem que você veio do Espanhol tornar, “virar”, mas parece que na verdade o que há em sua fonte é tronar, “trovoar”, do Latim tronare, de igual sentido.

Note-se que esta é uma palavra onomatopaica, isto é, que imita um som; no caso, o trooom do trovão está muito bem expresso.

– Bem, por hoje e pelo que vocês estão me pagando é isso, caras clientes – arrematou ele.

O rei dos ventos se ergueu, contente, e bradou com voz estentórea:

– Uma saudação ao nosso mestre!

Prá que! Todos os ventos fizeram o melhor que sabiam e assopraram, zuniram, zumbiram, zoaram, reviraram, misturaram, espalharam o que havia naquele escritório – enfim, estabeleceram o caos completo, a um nível jamais imaginado. Saíram agitados, pensando que o homenageado deveria ter ficado profundamente emocionado com aquela manifestação de carinho de suas partes.

Deslizaram corredor e escadas afora, transtornando o bairro inteiro, espalhando mais ainda o lixo que já estava acumulado pelas calçadas.

Foi neste ponto que nossa Câmera Literária entrou pela janela escancarada pela força dos ventos e encontrou X-8, pensando na dureza e sacrifício que se faz para  bem praticar a Etimologia.

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