Em: Conversas com meu Avô

As Férias

Eu tinha meus dezessete anos e estava voltando das férias na praia. Estava muito bom lá, mas voltar para casa quando tudo está bem nela sempre é agradável.

Depois de largar a minha bagagem e tomar um banho, não pude resistir e fui visitar meus avós paternos, que moravam perto.

Lá estava só o velho, que abracei com força. Ele correspondeu e me achou maior e muito bronzeado; disse que meus hormônios deviam ter sido ativados pelo sol.

Contei-lhe as aventuras da praia, ele nos preparou um lanche… Meu mundo entrava no lugar de sempre!

– Vô, uma pergunta que não é de Etimologia, pode ser?

– Não sei se consigo responder fora desse assunto – disse ele com um sorriso – mas tente.

– Por que o senhor e a Vó nunca saem antes de março para descansar?

– Em primeiro lugar, não precisamos mais descansar tanto; já tivemos toda a trabalheira que os seus pais agora estão tendo e que você terá daqui a algum tempo. Em segundo, é entre dezembro e fim de fevereiro que esta nossa cidade fica melhor: pode-se estacionar em qualquer lugar, há pouca gente… É a vantagem de não ter praias nem ser cidade puramente turística.

Depois… Ora, você ficou afastado da Etimologia por muito tempo; vamos espaná-la um pouco. Vamos ver:

Férias vem do Latim feriae, “dia de descanso ou dedicado a festas”. Com o uso eclesiástico, recebeu o sentido de “dia em que se homenageia um santo”. Atualmente significa uma época do ano reservada para o descanso estudantil ou profissional.

Pois quando a gente sai de férias, muitas vezes vai para a praia. Esta palavra vem do Grego plagía, “oblíquo, transversal, de flanco”, que é uma descrição do declive que toda praia forma junto ao mar. Passou pelo Latim plagia antes de chegar ao nosso litoral.

Nesse lugar, a gente se vê acossado por uma série de pragas:

Areia – do Latim arena; quando venta, entra em todas as frestas e roupas e narinas e bocas e móveis da casa da gente.

Sim, a arena onde os gladiadores se enfrentavam e os toureiros e os touros tentam se espetar uns aos outros vem daí: trata-se de um lugar plano recoberto de areia, que facilita tapar as manchas de sangue.

Daí se chamar de “arena” um local de enfrentamento, mesmo que seja de idéias, como na política.

Filas – que vem do Latim filum, “fio”, pelas proporções. As filas para tudo, na praia, são enormes e acho que já aprendi a ter toda a paciência que posso, de modo que elas não me trarão nada de novo.

As filas também eram chamadas de bichas, um nome usado em Portugal para qualquer verme longo, do Latim bestia. Esta denominação com esse sentido tem caído em desuso ultimamente aqui no Brasil.

Música – que veio do Grego musiké tekhné, “arte das Musas”. Nas cidades da praia, toca a todo volume para que alguns pobres de espírito possam se exibir com seus equipamentos de som. Dou tal nome a essa mistura de sons desagradáveis com letras ainda piores fazendo um grande favor. A responsável pela Música era Euterpe, pobre Musa, tão estudiosa e vendo estas coisas serem cometidas em seu nome!

Na verdade, seria melhor chamar isso de zoeira, palavra que vem de zoar, de origem onomatopaica – ou seja, feita a partir da imitação de um ruído. No caso, a fonte parece ter sido o “zzzz” dos insetos. Moscas varejeiras, diria eu.

Sendo bem sinceros, caberia melhor aí a palavra barulho mesmo. A origem desta não está muito bem definida; querem uns que venha de marulho, o ruído que o mar faz. De qualquer modo, é um som igualmente caótico.

Dormir em paz? Nem pensar! Esta palavra deriva do Latim dormire, que além disso queria dizer “estar descuidado, ocioso, inativo”. Dormitare era “ter sono, ser negligente, descuidado”. Nem isto a gente pode ser, ou o que é nosso é roubado.

E, em geral, as casas acabam comportando um amontoamento de gente, com os amigos chegando de surpresa, cunhados e cunhadas e filhos deles e namorados e namoradas dos seus filhos e as amizades destes. Isto faz jus à origem da palavra, do Latim mons, “acúmulo, monte, montanha”. Uma vez eu  tive a sensação de que aquela quantidade de gente ia se derramar em cima de mim e me sufocar até à morte.

– Ah, Vô, quer dizer então que o senhor ia à praia como todo o mundo?

– Não sou responsável pelos erros da minha juventude. Agora sou velho e sábio! Mas deixe-me prosseguir a minha lista de horrores:

Sol – era esse o nome que o astro tinha, como divindade, em Roma. A ele foram agregados mitos do seu correspondente na mitologia grega, Helios. Você sabia que este era um belo jovem que tinha a cabeça rodeada por raios de brilho intenso? Ele andava pelos céus num carro puxado por quatro cavalos. O nome deles não poderia ser mais apropriado: “Fogo”, “Luz”, “Chama” e “Brilho”.

Quando chegava o fim do dia, ele banhava os corcéis cansados no oceano. Aí eles repousavam num palácio todo de ouro e no dia seguinte refaziam o trajeto pelos céus. Como é que eles voltavam para o local de partida a Mitologia não explica. Ou será que o outro lado do mundo era bem mais curto do que este?

Tenho para mim que, nas praias, esse senhor desce mais do que devia para olhar melhor as moças de biquíni (as deusas do Olimpo andam sempre de túnica), trazendo as chamas perto demais e queimando os incautos.

Queimar também tem uma origem controversa. Uns querem que seja do Latim cremare, “incinerar”. Isto quer dizer “transformar em cinzas”, de in mais cinere, “cinzas”. Para outros, veio do Grego kaima, “cautério”, objeto usado para queimar. Seja como for, a sensação para quem se descuida com o sol é de que colocaram um ferro em brasa na pele da gente. E não parece, quando a gente está queimada, que todo o mundo se combinou para dar um tapinha amigável nos nossos ombros?

Já que falamos em cinere, que deu cinder em Inglês, aviso que a heroína da história da Cinderela tinha esse nome justamente porque era tão maltratada pela família dotiva que era comparada a uma gata que dorme no borralho, dormindo nas cinzas para se manter aquecida.

– Por isso então que a história se chama também A Gata Borralheira?

– Exato. Borralho quer dizer “cinzas” e vem de buratulu, de burare, “queimar”. Mas, voltando aos meus resmungos:

E as crianças, principalmente as alheias? A palavra vem do Latim creantia, “o que está sendo criado”. Em Espanhol, crianza significa outra coisa, significa “criação”. Assim, uma mala crianza em Espanhol não quer dizer “uma criança má”, quer dizer “uma criação ruim”, que aliás é o que mais se vê nas praias. Andam por todos os lados, subindo e descendo por sobre quem está na areia, atirando coisas, gritando, derramando a água dos baldinhos em quem está pacificamente deitado, levantando areia que nem tatus…

E muitas vezes acertam boladas na gente, jogando descuidadamente. Bola vem do Latim bulla, “corpo redondo, esfera”. Gerou, entre outras: bolha, aquilo que sai na pele da gente quando a gente se queima e depois descasca e deixa a gente parecendo uma múmia que está perdendo as bandagens. Também originou bolo, que tem forma redonda.

E ainda temos que agüentar os pseudoartesãos e vendedores de bugigangas. Aqui temos uma história interessante. O Latim vesica, “bexiga”, passou a vexiga e depois a boxiganga, que era o nome de um personagem cômico do teatro espanhol. Depois vieram mogiganga, bogiganga e finalmente bugiganga. Por um tempo, a palavra designou “festa com pessoas disfarçadas” ou “peça de teatro cômica, curta “. Depois passou a designar qualquer objeto usado para debochar de alguém e, finalmente, se assentou querendo dizer “objeto de pouco valor”.

– E a bexiga, o que é que tem com isso?

– Ah, sim: esta personagem usava bexigas de animal infladas debaixo da roupa (não tinham ainda inventado os balões), as quais iam sendo estouradas ao longo da peça e fazendo diminuir o tamanho da figura. Acho que aquele pessoal era mais fácil da fazer rir do que hoje.

Em épocas anteriores, quando chovia nas praias, as ruas se enchiam de sapos, para horror das moças e deleite das crianças. Hoje eles estão diminuindo no planeta inteiro; os biólogos acham que talvez seja por alteração do habitat, mas não têm certeza do que está havendo na realidade. Seja como for, esta palavra só aparece em idiomas da Península Ibérica, o que faz pensar numa origem separada de outros idiomas.

E as baratas, que ficam tomando conta das casas nos meses fora da temporada? Quando a gente volta, lá estão elas, com ar de donas… Elas já atormentavam os romanos, que as chamavam de blatta.

E o mofo? Uma vez cheguei num apartamento de praia cujos móveis estavam cabeludos de tanto mofo. Era inacreditável, ver tudo revestido por pelos esverdeados com uns três centímetros de comprimento: estofados, cadeiras, mesas, camas.

Esta palavra vem do Germânico muff. Talvez fosse muito abundante entre eles, que viviam em lugares úmidos. E quem sabe não teve algo a ver com a higiene que os caracteriza? Imagine uma Frau na Floresta Negra, na época das legiões romanas, varrendo e limpando furiosamente o interior da cabana, resmungando contra aquele muff todo, querendo que o maridão, um Eberhard ou Kunegund qualquer, topasse se mudar para a beira do Mediterrâneo…

– Chii, Vô, o senhor está muito resmungão!

– Não estou nada. O que acontece é que eu acho que ir à praia dá muito trabalho, e me parece que já estou numa fase da vida em que posso me dar o direito de ser um pouco preguiçoso. Na verdade, estou é treinando o discurso que passo aos outros quando eles resolvem insistir para que a gente vá à praia.

Bem verdade é que, quando a gente é jovem, nada disso é ruim. Ah, os hormônios!

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