Em: Conversas com meu Avô

Viagens

– Passei de ano, Vô! Estou de férias e agora vou poder fazer uma viagem com os meus pais! – eu havia irrompido barulhentamente no gabinete cheio de livros do meu avô, muito contente por lhe dar a notícia, recém recebida no meu colégio, que ficava perto dali.

Ele me olhou com ar indiferente:

– E daí? Porque cumpriu com uma obrigação se acha grande coisa agora? – mas não conseguiu manter o disfarce e me deu um grande, quente, alegre e demorado abraço – em todo caso, parabéns!

Ele não me enganava. Eu sabia que ele se entusiasmava com as minhas vitórias, apesar de tentar aparentar indiferença. E eu me encantava com a emoção que fluía entre nós nessas ocasiões, um sentimento cúmplice, pouco falado mas captado com nitidez.

– Então vocês vão fazer uma viagem, é? Vão descansar, soltar-se um pouco… É muito bom, principalmente quando a pessoa deu duro para isso.

– Vô, isso me lembra que, no outro dia, vi escrita a frase “Ele era um grande viajor”. Não consegui entender esse erro.

– Não foi erro, rapaz. Ai, a falta de vocabulário! Viajor é sinônimo de viajante, “aquele que viaja, que se desloca em trajetos longos”. Ambas vêm de viajar, que vem do Latim viare, “viajar”, que por sua vez vem de via, “caminho, trilha, estrada”. Viare era, digamos, “pegar a estrada”.

Além dos caminhos terrestres podemos trilhar outros. Existe a palavra viático, que quer dizer “as provisões para uma jornada, para um deslocamento”. Essa palavra se aplicou também ao sacramento que se faz para uma pessoa doente ou prestes a fazer sua última viagem.

Temos também palavras para viagens mais curtas – uma excursão, por exemplo. Essa palavra vem do Latim excursum, particípio passado de excurrere, “correr fora”, formado por ex-, “fora”, mais currere, “correr”. E esta, por sua vez, vem do Indo-Europeu kers-, “correr”.

Note-se que uma viagem, por curta que seja, implica em um deslocamento, palavra essa que vem do Latim des-, “fora, ação reversa”, mais locare, “colocar”, de locus, “lugar”.

– E um passeio, Vô?

– Esse vem de passar, pois é o que a gente faz ao longo dele. E passar vem do Latim passare, “pisar, caminhar, passar”, de passus, “passada, ritmo da caminhada”. Relaciona-se com o verbo pandere, “espalhar, esticar (a perna)” e vem de uma raiz Indo-Européia pete-, “espalhar”.

Outra palavra que derivou daí foi pétala, do Grego pétalon, “folha”, pois estas se espalham a partir da planta.

Quando você estiver passeando e parar para apreciar as pétalas de uma flor, lembre-se disso.

– E o marca-passo que colocaram no nosso vizinho, o Seu Venâncio? Que eu saiba não foi nas pernas e sim no coração.

– Certo, Sherlock Holmes; embora ele sirva para a pessoa poder passear e evitar que ela passe desta para melhor, ele é colocado no coração para lhe corrigir o ritmo. Essa palavra se começou a usar em 1951 e é tradução do Inglês pace-maker, que originalmente (em 1884) era o nome dado ao tripulante de uma embarcação a remos que ditava o ritmo dos esforços para coordenar os demais atletas. Pace aqui está no sentido de “ritmo”.

– Meus pais estavam falando sobre a viagem no outro dia e citavam um vau… vau…

Voucher. Essa é uma palavra inglesa que se usa como tal, embora tenhamos as nossas. É o nome dado a um papel que a gente entrega no hotel de destino para demonstrar que já reservamos nosso quarto e já pagamos e que não devem tentar nos enrolar. Vem do Francês voucher, “chamar, convocar, clamar”, do Latim vocitare, “chamar insistentemente”, de vocare, “convocar, chamar”, que deriva de vox, “voz”.

Outra palavra inglesa que usamos como se não tivéssemos substituto em Português é charter; usa-se para designar um avião ou ônibus alugado especialmente para determinado grupo. Ela vem do Francês charter, que vem do Latim chartula, diminutivo de charta, “papel, documento”. Também se refere ao documento que comprova a transação.

– Quando a gente vai a outros lugares nós gostamos muito de caminhar. Esta palavra foi inventada porque a gente se cansa fazendo isso e depois só pensa numa boa caminha?

– Muuito engraçadinho este meu neto. Não tem nada que ver com cama, que vem do Latim cama, “leito estreito e baixo”; vem é do Latim vulgar camminus, “via, caminho, roteiro”, de origem Celta .

Falando em caminhar e dar voltas, me ocorre a palavra turismo. Ela vem do Francês tourisme, de tour, “ao redor, circuito, volta, circunferência”, que vem do Latim tornare, “polir, arredondar, girar como num torno”, que veio de uma fonte Indo-Européia ter-, “dar voltas, dobrar”.

Existe algo chamado city-tour, que é um passeio em ônibus numa cidade para conhecer os seus pontos principais. Vale a pena fazer logo que se chega a uma cidade desconhecida, para poder escolher passeios mais demorados depois.

Turismo, no sentido de “viajar”, se usa desde o século 17.

Ecoturismo eu sei o que é, Vô. É quando as pessoas viajam para achar montanhas que tenham eco, para poderem gritar e se divertir com o fenômeno, acertei? – o velho olhou ao redor, como procurando uma arma para me abater.

– Tá bom, acho que não era bem isso… Explique então para mim, Vô – eu disse com o meu ar mais anjinho-de-teto-de-igreja.

Ele me fulminou com um olho, mas o outro mostrava que ele estava se divertindo:

– Esse é o turismo ecológico, no qual as pessoas vão ver a natureza, águas, bichos em extinção, etc., para poderem voltar horrorizadas com o nosso futuro. O nome foi criado em 1873 pelo zoólogo alemão Ernst Haeckel, a partir do Grego oikos (pronuncia-se “écos”), “casa”, mais logia, “estudo”.

Existem outras formas de turismo orientado, como por exemplo o gastronômico, palavra que foi criada em 1800 por um francês, Joseph de Berchoux, como título de um poema sobre viver bem. Ele a fez a partir do Grego gastros, “estômago”, relacionado com gran, “comer, morder”. Neste turismo, as pessoas viajam a lugares famosos por seus pratos e restaurantes. Alguns sabem comer bem, outros só querem encher o bucho de forma cara para poderem se exibir depois.

– Não há gente que viaja para ver prédios também?

– É o turismo arquitetônico, de pessoas que se deslocam para conhecer palácios, castelos, ruínas e outras manifestações da engenharia antiga. Essa palavra vem do Grego arkhitekton, “mestre de obra, mestre construtor”, formada por arkhi, “chefe”, mais tekton, “construtor, carpinteiro”.

– Ah, daí as placas arquitectônicas? Ou placas teutônicas? Nunca sei direito.

– Se a sua capacidade de dizer besteira se transformar um dia em riqueza, prometa cinco por cento dos lucros para o Avô que tanto o agüenta agora. Olhe aqui, as placas são tectônicas, de tektonikós, “relativo à estrutura,à construção”.

E você sabe muito bem que teutônico se refere aos Teutos, um povo que vivia na Alemanha há muito tempo.

Mas falar sobre turismo com você me deixou com fome e sede. Vamos fazer uma excursão gastronômica à cozinha, para ver o que é que a gente consegue surripiar?

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