Em: Conversas com meu Avô

ORDEM

 

Entrei no gabinete do meu avô e o encontrei muito atarefado, tirando o pó de seus livros, às voltas com panos de limpeza e aspirador de pó. Não pude perder a gracinha:

– Trabalhando, caro antepassado? Nunca pensei que veria isso!

– Arranjei uma ocupação para ganhar um dinheirinho, assim posso mudar de país para não aguentar as pilhérias de certos descendentes – disse ele, com a maior seriedade.

– Ah… E a que se deve tanta atividade?

– Resolvi alterar a ordem de certos livros. Coisas de gente sábia, não são para você –  disse ele, com fingida arrogância.

– Como estamos, Vô! Mas, já que o senhor falou nisso, de onde veio ordem?

Ele largou o pano, sentou-se em sua poltrona e começou:

– Bem, já que eu estava ficando cansado mesmo, vou aproveitar para iluminar o seu pobre cérebro. Olhe aqui: ordem vem do Latim ordo, “arranjo de elementos feito conforme certos critérios”, “exigência de disposição regrada de elementos, comando”, relacionado ao verbo ordiri, “ordenar”, originalmente “começar a tecer”, duma raiz Itálica ord-, “disposição dos fios num tear”.

É o que estou tentando fazer agora, dispondo os livros conforme o assunto de que tratam. Mas, já que fui atrapalhado…

– Não venha com conversa, Vô, o senhor bem que gostou de parar um pouco. Mas diga-me como é que essa palavra adquiriu o significado de mandar uma pessoa fazer algo que não quer, como quando minha mãe resolve que preciso arrumar o meu quarto?

– Esse significado surgiu lá pelo século XVI e é uma extensão natural do inicial, já que passa a necessidade de colocar algo em forma, sob algum grau de organização. No caso do seu quarto, acho que essa ordem de sua mãe deveria ser acompanhada de uns bons varaços. Não que o quarto fosse melhorar, em todo caso…

Mas, deixando de lado o que você merece, podemos lidar com a origem de arrumação, que vem do Germânico rum-, “espaço onde ficava a carga em navios antigos”, daí o sentido de “colocar em ordem, dispor”.

arranjo é do antigo Francês arrangier, “colocar em ordem de batalha”, de a-, “para”, mais rangier, “dispor em fila”, de rank, “fila”, por sua vez de origem germânica. Como sabe, germânicos adoram tudinho em boa disposição.

– Gostam de tudo catalogado, né?

– Isso mesmo. Já que você perguntou, catálogo vem do Grego katalogos, “lista, registro”, de katá-, aqui com o sentido de “completamente, de todo”, mais logos, “estudo, coleção, tratado”. Ou seja, é uma lista ordenada das partes de um todo.

– Se não for assim, tudo vira confusão?

– Vira, principalmente se você estiver por perto. Essa palavra vem do Latim confusio, “mistura, desordem”, de confundere, “misturar, transtornar”, formada por com-, “junto”, mais fundere, “derramar, fazer fluir”. Lidar com algo líquido é meio complicado em matéria de ordem, pelo seu comportamento caótico.

– Muito bem, e caos?

– Ela vem do Grego khaos, que queria dizer “abismo, vazio, vasto, o que se abre largamente” de khaino, “abro-me”.  Conheço gente que é caótica. Mas também há pessoas que sabem colocar em série o que vem pela frente para lidar melhor com a vida.

Esta vem do Latim series, “cadeia, fila, conjunto em linha”, do verbo serere, “colocar junto, unir, atar”.

– Já que meu antepassado está muito falador hoje, pode dizer de onde veio construção?

– O seu antepassado está é muito paciente hoje, até agora nem bateu em você. E por isso pode contar que essa palavra vem do Latim com-, “junto”, mais struere, que quer dizer “amontoar, empilhar, reunir, criar, erguer”. Quando a gente constrói alguma coisa é isso que faz.

E para reunir objetos como vigas, peças de metal, madeira, tijolos e muitas outros materiais, a gente muitas vezes precisa fazer um encaixe; esta vem de caixa,que veio do Italiano cassa, do Latim capsa, que era o nome dado às caixas cilíndricas onde os cidadãos de Roma guardavam os seus livros.

– Por que eram cilíndricas?

– Porque os livros eram cilíndricos. Era a época em que o que se lia era escrito em rolos de papiro ou pergaminho. Só mais tarde foi que se inventou o códex, no qual havia folhas que eram cosidas formando uma lombada.

Para obter um bom arranjo das coisas, é necessário método. Esta vem do Latim methodus, “maneira de ir ou de ensinar”, do Grego methodos, “investigação científica, modo de perguntar”, originalmente “perseguição, ato de ir atrás”, de metá-, “atrás, depois”, mais hodos, caminho”.

– Puxa, essa deu uma volta grande, Vô. E o que me diz de organização?

– Digo que vem do Latim organizare, de organum, “instrumento musical, implemento, órgão do corpo”, literalmente “aquele que funciona”, relacionado ao Grego ergon, “trabalho”. Seus métodos devem funcionar direito para que resulta a ordem.

E você precisa, para fazer essa implementação, de disciplina, que veio do Latim disciplina, “instrução, conhecimento, matéria a ser ensinada”. E esta deriva de discipulus, “aluno, aquele que aprende”, do verbo discere, “aprender”. Mais tarde ela assumiu o significado de “manutenção da ordem”.

E é com esta noção que declaro encerrada esta magnífica sessão de aprendizado, embora eu pouco espere dessa cabeça com neurônios ligados tão frouxamente.

– Foi o que herdei do senhor, Vô!

– Isto está ainda por comprovar. Agora vamos para o jardim, que em paga do que lhe ensinei você vai ter que regar as plantas para minha respeitável pessoa.

 

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Em: Assunto da Edição

ACORDOS

 

A simples existência em sociedade impõe acordos a cada instante. Sem eles, seria impossível a um grupo se manter. Desta maneira, sabemos que não podemos matar, roubar, passar de ano sem notas adequadas, deixar de recolher impostos e milhares de outras coisas que fazem de nós bons cidadãos.

Claro que muitos escolhem não atender a esses acordos. E é interessante ver como, assim que acontecem problemas legais com eles, vão correndo exigir direitos que derivam de acordos preestabelecidos pela lei.

Vamos dar uma olhada em diversas palavras que designam esses acertos e suas origens.

 

ACORDO  –  vem do Latim accordare, uma variante de concordare, “estar em harmonia, concordar”, de ad, “a, para”,  mais cor, “coração”. Ou seja, em teoria os participantes de um acordo colocaram seus corações juntos nessa combinação. Pena que nem sempre estejam dizendo a verdade.

 

PACTO  –  do Latim pactum, de pacisci, “fazer um trato, um acordo”, de uma fonte Indo-Europeia pag-, “colocar em seu lugar, firmar, unir”.

 

TRATADO  –  do Latim tractatus, “assunto tratado”, particípio passado de tractare, “lidar, manejar, administrar”, relacionado ao verbo trahere, “puxar, arrastar, trazer”.

Pode-se usar também com o significado de “obra didática”.

 

COMBINAÇÃO  –  do Latim  combinare, de com-, “junto”, mais binare, um derivado verbal de bini, “aos pares, dois a dois”, de bis, “dois”.

Para se fazer uma combinação são necessárias duas pessoas ou duas partes. Ninguém pode combinar sozinho.

 

ACERTO  –  formada por a mais certo. E esta vem do Latim certus, “seguro, fixo, determinado, garantido”, derivado de cernere, “distinguir, decidir”, originalmente “peneirar, separar”. A ideia é que, ao fazer um acerto, o resultado seja garantido.

 

CONCERTO  – esta iniciou a vida com um sentido oposto ao de agora, que é o de “acordo, pacto”. Deriva do Latim concertare, “disputar, contender, discordar”, de com-, “com, junto”, mais certare, “contender, brigar”, uma variante de cernere, “separar, decidir”.

O que é paradoxal, pois um concerto é tudo menos isso; acontece que o verbo mudou de sentido e passou de “lutar contra” a “lutar junto”, o que está de acordo com o significado moderno.

 

ENTENDIMENTO  –   usa-se para referir-se à capacidade de avaliar coisas, de compreender. Mas também pode significar “pacto, arranjo”. Em qualquer sentido, deriva do Latim intendere, “estender, propor-se, reforçar”; metaforicamente, para “entender”, você precisa “estender, esticar” o seu conhecimento e o seu propósito até chegar ao objetivo. Para fazer um acordo a pessoa precisa também esticar-se até obter a concordância da outra parte.

 

AJUSTE  –  do Latim adjuxtare, “trazer perto, colocar junto”, de ad-, “a”, mais juxta, “próximo, junto a”, de jungere, “juntar”.

Uma coisa, para se ajustar a outra, seja física, seja metaforicamente, deve ser aproximada a ela.

 

arranjo  –  veio do antigo Francês arrangier, “colocar em ordem de batalha”, de a-, “para”, mais rangier, “dispor em fila”, de rank, “fila”, por sua vez de origem germânica.

 

ALIANÇA  –   do Latim alligare, de ad-, “junto”, mais ligare, “unir, atar”.

 

COALIZÃO  –  do Latim coalitio, “combinação, união”, de coalitus, particípio passado de coalescere, de com-, “junto”, mais alere, “nutrir”. Uma união, mesmo que temporária como muitas vezes são as coalizões, deve ser nutrida pela confiança. Pelo menos aparentemente.

 

CONVÊNIO  –  do Latim convenire, “concordar, fazer um pacto”, formada por com-, “junto”, mais venire, “vir”. A palavra demonstra que as pessoas devem convergir para chegarem a um acordo.

 

CONTRATO  –  em Roma se dizia contractus, “acordo, concordância”, particípio passado de contrahere, “trazer junto”, de com-, “junto”, mais trahere, “puxar, arrastar”. Ou seja, as partes precisam puxar juntas a sua concordância.

 

CONSENSO  – do Latim consentire, “sentir junto”, de com-, mais sentire, “sentir”. O significado mais tarde evoluiu para “dar permissão, concordar”.

 

LIGA  –  do Latim ligare, “unir, atar”. Para as nações ou agremiações constituírem uma liga elas devem ser unidas por laços previamente acordados.

 

UNIÃO  –  de unus, “um”. Uma união deve funcionar como se os seus participantes fossem apenas um. Se não for assim, não vai dar certo.

 

SOCIEDADE  –  de socius, “companheiro”, originalmente “seguidor”, relacionado com o verbo sequi, “seguir, ir junto, acompanhar”.

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