Em: Assunto da Edição

Culpa e Culpados

Há ocasiões em que uma pessoa ou um grupo delas se vê às voltas com acusações. Isso traz conseqüências duras, mesmo que não se prove nenhuma culpa. A contrapartida é que, por vezes, não há interesse em que seja feita a justiça, com o que os culpados de verdade saem ilesos.

Seja como fôr, os resultados abalam os relacionamentos dessas pessoas e, às vezes, atingem até um país inteiro. Hoje aproveitaremos para olhar as origens de algumas palavras relacionadas com esse assunto.

ACUSAR – do Latim accusare, “chamar uma pessoa para dar conta de suas ações”. O verbo se formava por ad-, “contra”, e causari, “apresentar como motivo”.

Passou pelo Francês acuser.

arrependimento –  do Latim re-, intensificativo, mais poenitere,“sentir contrição ou mágoa por uma má ação”.

Em Italiano existe uma palavra, pentimento, que passou a fazer parte de outros idiomas. Significa “anotações e alterações feitas por um autor do decurso do processo de criação de um texto”. Um manuscrito com pentimentos de um autor famoso tem extraordinário valor.

O surgimento dos editores de texto acabou com o mercado de pentimentos. A menos que o escritor seja tão vaidoso que salve as suas alterações.

PENITENTE – é uma parente da palavra anterior. Vem do Francês peine, do Latim poena, do Grego poiné, “punição, penalidade”. Penitente é “a pessoa que está pagando por uma infração”.

Penitenciária é o lugar onde as pessoas cumprem a punição por seus crimes. Nem todos os que merecem estão lá dentro.

Em diversas religiões existem penitentes que se flagelam em público para a expiação dos pecados.

Flagelar vem do Latim flagellus, diminutivo de flagrum, “chicote, látego”.

COMPUNÇÃO – cometer um mau ato e não sentir compunção é, literalmente, fazer isso sem que a consciência cutuque, sem que ela espete um dedo na pessoa para chamar a atenção sobre o que se está fazendo.

Há quem tenha consciências indulgentes assim; essas pessoas são um perigo para as outras.

Em Latim era compunctio, de com-, intensificativo, mais punctio, de pungere, “espetar, fincar”.

Como derivados deste verbo temos: pungente, “aquele que finca”; punção, “instrumento que faz furos”; puncionar, “fazer um furo para escoamento de um conteúdo”.

CONTRIÇÃO – do Latim Medieval contritus, particípio passado de conterere, “moer, esfregar”, formado de com-, intensificativo, mais terere, “atritar, esfregar”. Indica alguém que está arrepndido e se penitencia por maus atos.

A noção é a de que uma pessoa arrependida se sentiria como que moída, arrastada sobre pedras. Se isso acontecesse com todos, o mundo seria bem melhor.

REMORSO – é a mordida da consciência. Vem do Latim Medieval remorsus, “tormento”, do Latim remordere, “morder de volta”. Forma-se de re-, “outra vez”, mais mordere, “aplicar os dentes, morder”.

Existia a expressão remorsus conscientiae, “o tormento da consciência”.

A consciência indulgente de que falamos acima desconhece o remorso, não sofre com o sofrimento alheio e é por isso que os maus atos são praticados.

CONFISSÃO – do Latim confiteri, “conhecimento”, de com-, intensificativo, mais fateri, “admitir”. O particípio passado é confessus, “aquele que admite a culpa, confesso”.

Esse verbo confiteri não deu origem ao que hoje chamamos de confeito, não. Esta palavra, significando “um doce”, veio do Latim confectum, particípio passado de conficere, “preparar, fazer”. Esta palavra se forma de com-, “junto”, mais facere, “fazer”. Passou pelo Italiano confetto para designar um produto de pastelaria.

Nossos conhecidos confetes descendem também de confetto. Provavelmente por semelhança de forma e colorido, este nome foi aplicado às rodelinhas de papel usadas no Carnaval.

CONDENAR – passou pelo Francês Antigo damner, do Latim damnare, de damnum, “perda, estrago”. No Latim Eclesiástico, este dano era a perda da alma, a danação.

É por isso que, para os povos de língua inglesa, a palavra damn foi uma palavra a ser evitada por muito tempo. Eles até desenvolveram eufemismos para não pronunciarem a palavra em si, tais como dang e darn.

Estes seguiram a trilha de todos os eufemismos: acabaram virando em si palavras pouco recomendáveis em meios mais exigentes.

Curiosamente, no Português do Brasil, danado é uma palavra usada muitas vezes em termos elogiosos: “este site é danado de bom”!, por exemplo.

HUMILDADE – muitas vezes uma pessoa, para escapar a uma punição, adota uma conduta humilde. Com isso ela quer dizer que é simples e sem orgulho como a terra de que fomos feitos, já que a palavra vem do Latim humus, “terra”.

Convém lembrar que a palavra umidade não é escrita com “H”, erro bastante comum; nada tem a ver com humus. Ela vem do Latim umere, “molhar, encharcar”.

CONSCIÊNCIA – vem do Latim conscire, “estar mutuamente a par de”. Este verbo se forma por com-, “com”, e scire, “saber”, origem da palavra “ciência”.

“Saber algo consigo mesmo” implica em consciência, inclui uma prontidão mental, uma capacidade de distinguir entre o certo e o errado.

Uma consciência limpa ajuda a dormir bem. Dizem que dormir sobre pilhas de dinheiro mal havido é difícil. Mas há tanta gente fazendo isto que é difícil acreditar.

CULPA – do Latim “negligência, descuido, dano, crime”. A expressão mea culpa, “minha culpa”, foi agregada ao Latim Eclesiástico em 1374.

Desculpa é a tentativa de se livrar de uma culpa, seja comprovando que ela não existiu, seja reconhecendo que ela é verdadeira e retratando-se por isso.

VERGONHA – do Latim verecundia, “respeito, pudor, timidez”.

¤ ¤ ¤