Em: Conversas com meu Avô

Cíclopes

Eu tinha uns quinze anos e me orgulhava de gostar de ler, ao contrário da maioria dos meus colegas. Eu levava uma vantagem sobre eles: a minha família toda era uma grande leitora, a começar pelo meu avô, em cuja biblioteca eu me encontrava agora, de papo furado.

– No outro dia eu li sobre os Cíclopes, Vô. O senhor chegou a conhecer algum?

Sem perder a seriedade, ele disse:

– Não, o último dele faleceu pouco antes de eu nascer. Foi uma pena.

– Por que?

– Porque, se eu pudesse falar com ele, poderia pedir o seu cacete gigantesco para poder dar a certos netos o que eles merecem. Aliás, você sabe por que esses seres se chamam assim?

– Ããã… Não foi escolha dos pais deles, não?

– Esse nome, em Grego, é Kýklops, de kýklos, “redondo, círculo”, mais ôps, “olho”. Eram “os que têm um olho redondo”. Um só, como você sabe.

– E mesmo assim, eles dominavam os lugares por onde andavam…

– …Até que alguém mais esperto do que eles, Odisseus – Ulisses para os romanos – lhes deu um jeito. Ele se encontrou com um dos três tipos de Cíclopes, os ditos “Sicilianos”.

Eles eram mais altos do que as montanhas, muito selvagens e adoravam convidar gente para jantar – para ser o jantar, bem esclarecido.

O nome do principal deles era Polifemo, de polýs, “numeroso, muito”, mais phemo, uma forma do verbo fánai, “dizer, declarar, falar”.

– Então ele era um sujeito que gostava muito de falar, que nem a minha colega Val?

– No caso, esta palavra quer dizer “o famoso, o muito falado”. Só que a sua fama não se devia aos seus bons atos, não.

– Pois é, Vô, mas lendo sobre esses seres mitológicos eu fiquei pensando: e se…

– Ai, ai, ai. Quando você começa com “e se…”, em geral sai besteira. Mas prossiga.

– Eu fiquei achando que seria mais simples se a gente tivesse um olho só, mas meio blindado como os dos camaleões.

– E por que isso, Senhor Gênio?

– Ora, em vez de se fazer binóculos, seriam feitas lunetas: só metade do aparelho. Os óculos teriam uma única lente. Quando uma pessoa chorasse, gastaria metade dos lenços de papel. O que estou vendo de problema seria o caso de se perder um olho e ficar sem nenhum. E se um olho pudesse nascer em caso de falta?

– Só esse seria o problema, seu economizador? Você se esqueceu de alguma coisa.

Nós precisamos ter dois olhos para calcular bem as distâncias, a profundidade. A uma distância menor de seis metros, os olhos convergem para formar direitinho a imagem. Sensores na musculatura deles nos informam o quanto tivemos que envesgar (quanto mais perto o objeto, mais juntamos as pupilas) e nos permitem saber com grande precisão até onde devemos estender a mão para pegar o copo, acariciar a namorada, dar um ponto numa cirurgia, passar o pincel com tinta numa obra de arte.

O mundo seria uma confusão se só tivéssemos um olho. As artes, as técnicas, tudo seria impreciso. Aliás, você conhece algum animal com um olho só em toda a natureza?

– Tá bom, Vô. Essa minha idéia não deu certo. Mas alguma há de dar, um dia!

– Claro que sim. Mas não tente se meter contra a Natureza, pois ela teve um bocado de tempo a mais do que você para chegar onde chegou.

Já que falamos nisso, saiba que Natureza vem do Latim natura, futuro do verbo nasci, “nascer”. Inicialmente, natureza significava “nascimento”; depois passou a significar a parte do mundo não dependente do Homem, mas também as qualidades e características inerentes a alguma coisa, inclusive o próprio Homem.

Veja só o caso do colchão de casal. Ele só existe devido a uma característica da natureza.

– Como é isso?

– É o seguinte: você já viu cães e gatos dormindo e tendo sonhos?

– Já. Eles ficam mexendo os bigodes e com uns tremorzinhos nas patas… É engraçado. Gosto de ver.

– Pois é. Os gatos devem estar sonhando que estão a pegar camundongos e borboletas recheados de filé, o cachorros que estão pegando um carro recheado de ração.

Pois quando a gente sonha – deve acontecer o mesmo com esses animais – há um conjunto de neurônios no nosso tronco cerebral que desliga a nossa musculatura estriada.

Essas células musculares são responsáveis pelos nossos movimentos voluntários e nos permitem flexionar os membros.

Há outros músculos que não são desligados nunca: o coração em si, os que movimentam os pulmões, os intestinos – os que cuidam de nosso funcionamento básico, enfim.

– E porque ocorre esse desligamento?

– Ora imagine que você é um homem das cavernas. Você está dormindo ao lado da sua mulher das cavernas e sonha que um tigre de dentes de sabre pulou em você. Ou que o Superintendente da Caverna está tentando lhe bater porque você não tirou o lixo para fora esta noite. Ou que aquela morenaça gostosa da caverna do lado está querendo coisas inconfessáveis com você.

Já pensou em que estado vai ficar a sua companheira se você puder reproduzir dormindo os movimentos dos seus sonhos? Ou o seu estado se ela ela sonhar que está puxando o cabelo de alguma lambisgóia que esticou o olho para o seu gostosão?

– Puxa, Vô, é mesmo! Quer dizer que a indústria de colchões deveria fazer uma estátua a esse grupo de neurônios?

– Sim. Mas não fizeram nada, viu só? Mas há outras condições naturais que são esquecidas pelos homens.

Por exemplo, o lugar onde o nosso pé se articula com a perna se chama articulação tibiofibuloastragalina. Os íntimos, para encurtar, a chamam em Latim: articulus talocruralis.

– Aiai, explique melhor esses nomes extraterrestres!

– Bem, articulação você sabe o que é. Vem do Indo-Europeu ar-, “encaixar, unir”. Agora, tíbia é o nome do osso maior da perna…

– Outro dia a gente estava numa confusão no recreio, Vô. O pessoal decobriu que não sabia exatamente o que é perna.

– Sei. Já vi muita gente se atrapalhar com isso. Perna é o segmento entre o joelho e o tornozelo, formado por dois ossos. Coxa fica entre o quadril e o joelho. Como osso, só tem o fêmur.

– E os dois juntos?

– O nome certo é membro inferior. Popularmente se diz perna, mas não está correto. Mesmo assim, devo reconhecer que seria esquisito dizer que “aquela moça tem um belo par de membros inferiores”…

Bem, como eu estava dizendo, tíbia vem do Latim tibia, “flauta”, já que deste osso eram feitos instrumentos de sopro desse tipo. Ou, mais provavelmente, porque a forma do instrumento lembrava a do osso. O nome acabou aplicado a este mais tarde.

Fíbula, que antes era dita perônio, é o outro osso da perna, mais delgado. Vem do Grego fiboula, “broche, ponta”; aplicava-se às peças com ponta que eram usadas para manter vestimentas no lugar. Pelo formato, este osso recebeu o nome.

E astrágalo queria dizer “vértebra, osso pequeno” em Grego. É o osso do pé onde se articulam os da perna – parou e resmungou:

– Toda essa Etimologia para falar sobre Anatomia! Cada volta que a gente tem que dar por causa de certos netos curiosos! – fez uma cara de vítima, mas eu sabia como ele gostava de ensinar.

– Bem. Essa articulação permite que o pé tenha um jogo para cima e para baixo, como fazemos ao caminhar ou correr. Mas também permite certa flexibilidade lateral. Por causa desta é que a humanidade pôde fazer barcos que lhe permitiram andar pelos mares. Se não fosse assim, a menor sacudida ia jogar todo o mundo de lado e em seguida todos iriam desistir de navegar, com o corpo roxo das batidas e quedas.

– E a América toda estaria só com os índios, hein?

– Hum. Pensando bem, não parece má idéia … Enfim, abra sempre um olho bem grande e redondo quando resolver ter idéias para melhorar o mundo.

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