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Excessos

As férias já terminaram há algum tempo. Muitas pessoas se excederam em alguma coisa nesse tempo: bebida, velocidade, comida, sono, festas até tarde, esforços físicos.

E dificilmente terão saído limpas disso: ressacas pavorosas, um carro amassado ou coisa muito pior, quilos a mais que se sabe que vão grudar ali por um bom tempo  –  enfim, conseqüências no mínimo incômodas. Ao lidar com os exageros depois de feitos, ocorrem-nos certas palavras cuja origem vamos investigar agora.

EXCESSO – vem do Latim excedere, de ex-, “fora”, mais cedere, “sair, ir embora, retirar-se, abandonar”. Significava “ir além da conta”, que é exatamente o que acontece amiúde nas férias.

Havia entre os romanos a expressão vita excedere, “deixar a vida”, algo que pode ser conseqüência de certos excessos.

MODERAÇÃO – do Latim modus, “medida”. Moderar vem de moderari, “dar medida a”.

Primeiro esta palavra designava uma das escalas da música grega. Depois, uma melodia e um modo de cantar, de onde veio a acepção de “jeito, maneira de fazer algo”. É este o sentido na expressão “À moda da casa”: quer dizer “do jeito que se faz em casa”

Modulus era o diminutivo de modus, e gerou modular, no sentido de “harmonizar, combinar as partes entre si”.

Via o Italiano modello e o Francês modèle, “pequena medida, critério”, temos o modelo que deveríamos seguir mas que é difícil…

Essa palavra também abrange as esqueléticas modelos de moda que a maioria das mulheres pensa que deve imitar.

Uma pessoa modesta é aquela cujas ações são medidas, contidas. O artigo é raro atualmente, mas ainda se encontra alguma coisa por aí.

Se as coisas estão bem assentadas entre si, estão em sintonia ou acomodadas, do Latim ac- mais com, “junto”, mais modus: accomodare.

Cômodo vem de um adjetivo latino, commodus, que quer dizer “conveniente”: com- mais modus, “medido junto”, ou seja, “de acordo com o desejado; adequado”.

Passou também a ser um substantivo, cômoda, designando um móvel com gavetas onde a gente pode guardar confortavelmente tudo que é tipo de inutilidade.

As commodities nas quais se fazem investimentos vêm daí: “algo para vender com vantagem, com adequação; mercadoria”

CONTROLE – do Latim contra mais rotulus, “rolo, escrito, registro”: “ação de verificar os escritos ou as contas dos rolos”.

Há sempre a necessidade de ver se as nossas contas internas estão em ordem e se podemos pagar o que vem depois, principalmente quando os diabinhos vêm nos apresentar as tentações.

DISCIPLINA – do Latim discipulus, “aquele que aprende”, do verbo discere, “aprender”.

De discipulus veio disciplina, “instrução, conhecimento, matéria a ser ensinada”. Gradualmente se agregou um novo significado, o de “manutenção da ordem”, que é necessária para fornecer instrução.

O verbo discere tem relação com docere, “ensinar”.  Este, por sua vez, teve uma grande progênie, como: douto, (de doctus, “o que foi instruído”, logo, “pessoa erudita”); doutor (de doctor, “aquele que ensina”); doutrina (de doctrina, “ensino, sistema de idéias filosóficas, religiosas, científicas”), documento (de documentum, “lição, ensino, admoestação”).

Um órgão de ensino tem o Corpo Docente  – o que ensina –  e o Discente  –  o que deve aprender.

CONTENÇÃO – do Latim com-, “junto” mais tenere, “segurar, manter, obter”. O verbo continere queria dizer “segurar firme, conter, rodear”. É o que deveríamos fazer com as nossas tendências ao exagero.

PUREZA – é o que invejamos naqueles que não bebem nem se excedem em nada e que não amargam conseqüências nefastas. E o pior é que nem por isso as vidas dessas pessoas são sem graça!

Por estranho que pareça, esta palavra vem de “fogo”, pyr em Grego, que em Latim deu purus, “puro, limpo como pelo fogo”. Mais tarde passou a significar “limpo por qualquer processo”.

Ainda bem que há outros métodos para limpeza que não o fogo. Senão em vez de chuveiro teríamos um maçarico.

Aliás, isso faz lembrar uma história que faz parte da lenda de São Lourenço, perseguido e martirizado por ser cristão.

Ele foi condenado a morrer assado sobre o fogo. Preso a uma grelha, foi colocado de costas sobre as chamas. Depois de algum tempo, pediu aos seus algozes que o virassem, pois suas costas já estavam suficientemente assadas. Devido a isso, ele é o padroeiro daqueles que têm dor nas costas.

ABSTENÇÃO – em Latim, abstinere era formado por abs-, “fora” e tenere, “segurar, manter”. Assim, abster-se de bebida, por exemplo, é mantê-la fora do nosso corpo. Nunca é má idéia, mas muitos acham difícil de entender.

RESTRINGIR  –  de re-, partícula intensificativa, mais stringere, “amarrar firme, apertar”.

Se a gente consegue atar com força as tentações e colocá-las num canto, elas não vão incomodar.

asceticismo – muitos descrentes dirão que só um asceta poderia conseguir se livrar das tentações. Esta palavra vem do Grego asketes, “aquele que se exercita, atleta”, de askein, “fazer, exercitar-se”.

Ser asceta quer dizer ser austero; é aquele que faz autonegação como uma forma de disciplina.

TEMPERANÇA – do Latim temperare, “ser moderado”.

Manter a moderação é o melhor jeito de voltar inteiro das férias ou dos fins de semana em geral, de modo a poder aproveitar de novo mais adiante.

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