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Atividades Culinárias

Quando uma pessoa que sabe cozinhar se dedica a esses trabalhos, executa diversas manobras essenciais para a produção de um prato.

Cada uma delas tem lá seu nome, que muitas vezes começou numa caverna enfumaçada, enquanto nossos antepassados esperavam que ficasse pronta a perna de mamute para uma bela refeição regada a água cristalina do regato ali do lado.

Vamos ver um pouco do que ficou dessas épocas em nossas cozinhas modernas.

FERVER – há gente que não sabe nem ferver água. Esses podem ir aprendendo que esta palavra vem do Latim fervere, “ferver, brilhar”, de uma fonte Indo-Européia BHREU-, “ferver”.

A partir de 1400, mais ou menos, passou-se a usar fervente como sinônimo de “ardoroso, dedicado”.

O frevo, a dança do nosso Nordeste, recebeu seu nome a partir daí, dado o calor e o bulício da coreogafia.

assar – esta palavra não tem uma história das mais notáveis. Simplesmente vem do Latim assare, “assar, fritar”. Quando as legiões romanas se punham em marcha, o gado e as aves que estavam pelo caminho encontravam a rota para as fogueiras dos soldados.

FRITAR – vem do mesmo Indo-Europeu bhreu-, passando pelo Grego phrygein e pelo Latim frigere. Apesar da semelhança, nada tem a ver com frio e seus derivados, que vêm do Latim frigus, “frio”.

Nossa expressão estou frito tem origem muito clara, se a gente se põe a imaginar o que sente um ovo ou um bife na frigideira.

COZER – do Latim coquere, “submeter à ação do fogo, cozinhar, amadurecer”. Também era usado para dizer “maquinar, planejar” e para “atormentar”. Originou a palavra cozinhar.

Ainda há quem faça confusão com coser, que vem do Latim consuere, “unir, juntar coisas com um fio”, palavra formada por com, “junto”, mais suere, “costurar” propriamente.

Quem estiver na dúvida, associe cozer à palavra cozinha, que todos sabem que é com “Z”.

Isto já basta para eliminar a confusão, mas se o leitor é fã de dicas mnemônicas, pode associar coser com costura, ambos com “S”.

E se não souber como se escreve cozinha e costura, melhor voltar ao Primário.

BANHO-MARIA – esta poucos sabem, aposto! Ocorre que, no século II AC, viveu no Egito uma alquimista conhecida por Maria, a Judia, à qual se atribui a invenção de equipamentos e métodos que seriam incorporados à Alquimia, da qual derivou nossa Química.

Um deles é o banho-maria (escrito assim, com hífen), que consiste em aquecer uma substância num recipiente dentro de outro com água.

Como esta ferve a 100 graus Celsius e não passa daí, esse método garante que a temperatura da substância a aquecer não ultrapassará esse nível, pelo menos enquanto houver água no recipiente externo.

REFOGAR – este método de dar uma passada rápida no fogão de temperos ou outros alimentos para preparo inicial vem de fogo, derivado do Latim focus, que inicialmente queria dizer “lareira, local de acender o fogo”, e que depois passou a significar “fogo” mesmo.

QUEIMAR – quem não cuida da panela acaba passando pelo vexame de ver isso ocorrer com sua comida. Essa palavra vem do Latim cremare, “consumir pelo fogo, abrasar”.

Sim, cremar uma pessoa, de preferência depois que ela faleceu, vem daí.

Não, creme não vem daí. Vem do Francês crème, do Latim vulgar crama, “nata do leite”, com origem gaulesa.

TORRAR – uma pelezinha de porco à mineira bem torradinha ou tostadinha, hum…

Ambas essas palavras vêm do Latim torrere, “queimar, secar ao fogo”.

Nada disso, torre não vem daí, vem do Latim turris, “lugar de observação, construção alta”.

CRESTAR – vem do Latim crestare, “revestir, recobrir com uma camada de algo”, de crusta, “crosta”.

Sim, crustáceo vem daí, são seres revestidos por carapaça ou crosta.

GRELHAR – o ato de preparar alimentos sobre uma grelha para evitar contato muito próximo com o calor vem do Latim cratis, “treliça, objeto com elementos trançados”, que gerou a nossa grelha.

AMassar – agora que exploramos as palavras relacionadas ao uso do fogo na cozinha, chegou a hora de outros processos. Amassar vem de massa, do Latim massa, “montão, aglomerado, a totalidade de alguma coisa”.

Dar uns amassos nada tem a ver com o ato de cozinhar.

POLVILHAR – este ato, bastante usado ao fazer massas e doces, vem de , que deriva do Latim pulvis, “poeira, pó”.

Polvilho, a farinha fina de mandioca, se origina daí também; vem do Espanhol polvillo, diminutivo de polvo, “pó”.

E, sim, pólvora também é um derivado de pulvis, devido à sua apresentação em pequenos grânulos.

RALAR – muitas vezes ralamos o queijo, a cenoura, a noz-moscada. Ao fazer isso, estamos usando sons que vieram do Latim rallum, o raspador usado para tirar terra do arado, cujo nome veio do verbo radere, “arranhar, raspar”.

“Ter trabalho, dar duro” é um significado relativamente recente para o verbo ralar. A imagem é muito expressiva.

TEMPERAR – sem fazer isto direito, a comida não presta. A palavra vem do Latim temperare, “misturar corretamente, moderar, regular”.

O temperamento que numas pessoas é amável e noutras é terrível é outro derivado: refere-se à mistura de características próprias que resultam num todo identificado àquela pessoa.

E, por ora, vamos encerrando esta nossa salada.

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