Em: Conversas com meu Avô

Gregário

Eu estava quase no fim do primário. Em visita à confortável casa dos meus avós paternos, dirigi-me ao gabinete cheio de livros do meu avô, do qual os meus primos fugiam mas com quem eu gostava tanto de conversar.

Olhei pela porta: ele estava sentado à sua cadeira de balanço, lendo – para variar.

Pedi licença, conversamos umas banalidades e logo entrei no assunto que me coçava:

– Vô, ouvi uma coisa que não entendi: uma das tias estava comentando, ali na sala, que é uma pena que o senhor seja muito pouco gregário. Não gostei muito. Isso é algum desaforo? Ou ela quer que o senhor se chame Gregório e se enganou ao dizer o nome?

O velhote atirou a cabeça para trás e riu com gosto:

– E o meu bom cavaleiro veio saber se era preciso me defender, não é? Dê-me um abraço, meu campeão! Com você por perto não preciso temer nada. Mas deixe-me explicar direito, que você fez uma salada. É o seguinte:

– Sua tia, como todo o mundo, gostaria que eu apreciasse festas, que eu gostasse de jogar conversa fora num grupo grande, de viajar em bandos, etcétera. Está certo, é saudável, a maior parte das pessoas é assim. Talvez por isso é que a Humanidade tenha tido tanto sucesso como espécie. Mas as pessoas não são todas iguais. Desde menino (não faça cara de espanto! Já fui até menor do que você. E não era no tempo dos dinossauros!), nunca gostei de estar com muita gente.

Quando a sua tia diz que não sou gregário, ela quer dizer que não me agrada estar em companhia de muita gente. Essa palavra veio do Latim grex – sonora, não? – que significa “rebanho, manada, bando de aves, reunião”. Gregário é aquele que gosta de andar com os outros, de reunir-se com os seus.

Há uma palavra em Português que veio direto daí. É pouco usada hoje em dia, mas perfeitamente válida. É a grei, ou seja, os seus semelhantes, o seu grupo, a sua laia.

Se você quiser xingar alguém de modo pedante e talvez pouco compreensível, em vez de dizer “Não sou da sua laia”, diga “Não compartilho da vossa grei”. A outra pessoa vai ficar atrapalhada…

– Certo, Vô, mas o seu Gregório lá do bar do colégio está sempre batendo papo com todo o mundo. Como é que os pais dele adivinharam na hora de escolher o nome? Gregório Gregário?

– Pare, menino, que você me lembra a sua avó quando ela começa a deduzir errado e inventar histórias. Gregório é um nome que veio do Grego gregoréo, “cuidar, vigiar”. Queria dizer “vigilante, sentinela”.

– O senhor seguido diz que uma palavra veio do Grego. E Grego, veio de grex?

– Não, seu espertinho, não veio daí. O que aconteceu foi que, quando os romanos fizeram os contatos iniciais com o país que veio a ser conhecido como Grécia, o primeiro povo que eles encontraram no caminho foi o dos grekkoi. Não consta que estes tenham trazido grande acréscimo à História, mas o nome deles foi imortalizado, sendo aplicado ao país todo. O conjunto de estados daquela região era conhecido por Hélade, e eles se intitulavam Helenos.

Na linguagem erudita se fala em helenização quando se quer falar da influência grega em alguma cultura ou idioma. Pode-se usar também grecização com o mesmo significado, embora essa palavra soe meio esquisita.

Continuando com os derivados de grex: há um deles que se usa para fazer alto elogio. É egrégio, que vem de ex (ou e, antes de consoante), “fora” e grex, ou seja, aquele cujas qualidades positivas o colocam fora do grupo, alguém excepcional, acima dos outros.

– Se o senhor não é gregário, então o senhor é egrégio, Vô?

Ele riu de novo.

– Bem… as opiniões divergem, de modo que vamos deixar isso para lá. Vou acrescentar mais uma palavrinha à nossa lista: segregar. Esta vem de se-, Latim, com o significado de “afastar, retirar do meio, separar” e o tal grex. Logo, segregar é retirar alguém de entre os seus. Houve época, não muito remota, em que as leis de alguns países permitiam fazer isso. Ou até exigiam. Pelo menos em alguma coisa a sociedade melhorou!

E, com sentido oposto ao de segregar mas com as mesmas origens, temos agregar, de ad, “junto” e grex. Significa “colocar junto com os outros, somar, acrescentar”. Ao lermos as histórias que tratam da nossa sociedade no século 19 vemos como era comum a figura do agregado.

– Era um sujeito que gostava de estar com os outros?

– Mais ou menos. Era algo que é difícil encontrar hoje em dia, pelo menos nas cidades maiores. Tratava-se de alguém, às vezes com laços de parentesco distante, que simplesmente passava a fazer parte de uma família e vivia na casa junto com os outros, muitas vezes sem trabalhar nem ajudar com o sustento. Beleza, a época em que um sujeito sozinho podia sustentar uma família numerosa e ainda arcar com os agregados…

Suspirou.

– A última palavra relacionada a rebanho que me ocorre no momento é congregar. Esta vem do Latim con-, que aqui também tem o sentido de “juntar” e grex. Uma congregação é um grupo de pessoas com pontos comuns em ideologia ou em religião ou filosofia de vida, por exemplo.

– Acho que sei mais uma palavra dessas aí: segredo. Acertei?

– Chii, mais salada! Não, não! Segredo vem do Latim secretus, que significa “à parte, isolado, oculto”. Nada a ver, menino, mas sempre é bom perguntar.

– Mas grupo está nessa, né?

– Você está tentando às cegas, para ver se acerta. Não faz mal, assim você treina o seu vocabulário. Só que se deu mal de novo. Grupo vem de uma fonte pré-Germânica kruppaz, “inchaço, relevo”. Essa palavra passou ao Italiano como gruppo e ao Francês como groupe. Originalmente era usada nos meios artísticos, pois se referia à disposição das figuras num quadro ou numa escultura.

– Como é que eu nunca ouvi falar numa “grex de vacas” ou numa “grex de ovelhas”?

– Grande pergunta, meu rapaz. Não se sabe com certeza de onde é que veio rebanho. Como essa palavra só existe em Espanhol e em Português, presume-se que tenha vindo do Árabe.Os derivados de grex foram assimilados a outras palavras, como vimos.

Uma palavra correlata com o assunto mas bem diferente veio do Latim sequi, “seguir” – no sentido de “acompanhar por concordância de idéias”, não no de “perseguir, caçar”. Daí se formou socius, “companheiro”. Também sequaz, séquito e outras.

associar vem de ad, “junto”, e socius; é algo como “juntar companheiros”. Com o sentido oposto temos dissociar, “separar, afastar, desligar”, que deriva de dis, “afastar” e socius.

Enfim, sei que há quem diga que eu sou um solitário, o que vem do Latim solus, “sozinho, único”. Pena que as pessoas costumem confundir solitário com ranzinza.

Esta palavra parece que vem de ranza, a madeira sobre a qual gira o eixo do moinho, e que faz muito barulho, que range muito, como alguém que está constantemente resmungando. E não digam que é o meu caso, senão eu me ponho a resmungar.

Bom. Fiquei com sede após falar tanto para tentar colocar algo nessa cabeça de esponja que você felizmente tem.

Agora faça um favor para este egrégio: vá até os gregários que estão lá na cozinha falando mal da vida alheia e peça um pouco de suco e alguma coisinha para a gente comer.

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