Em: Conversas com meu Avô

GENTE NEFASTA

 

No começo da adolescência visitei meu avô para lhe perguntar sobre uma palavra.

– Vô, esses dias meu pai estava resmungando contra um colega e disse que ele era uma pessoa nefasta. O que é isso, alguém que não se afasta?

– Antes fosse! Essa palavra designa um sujeito prejudicial, nocivo, que acarreta danos. Vem do Latim nefastus ou nefarius, “vil, mau”, de nefas, “contrário à lei moral ou divina”, relacionado a nefari, “não falar”, formado por ne, “não”, mais fari, “falar”. Ou seja, algo que não deve ser falado, narrado ou citado.

Os romanos tinham em seu calendário uma lista de dies nefasti, “dias nefastos”, nos quais não se podia fazer nenhum contrato comercial, tomar resoluções pessoais, declarar guerra e outras decisões importantes, por serem azarados e impedirem um bom resultado.

– Puxa, e quais são esses dias? Vou me cuidar!

– Não seja bobo, rapaz. Eles saíram do calendário há muito tempo. Os romanos eram sábios, mas não em tudo. E antes que você comece a pensar besteiras, vou lembrar a palavra aziago.

– Nunca ouvi, é alguma coisa azeda?

– Azedo vou ficar eu se suas gracinhas continuarem! Ela vem do Latim aegyptiacus dies, “dia egípcio”, querendo dizer um dia ruim, azarado, negro, possivelmente relacionado às sete pragas bíblicas que teriam se abatido sobre o Egito, conforme a Bíblia.

– E essas outras palavras que aparecem tanto nos anúncios de filmes de terror, como macabro, por exemplo?

– Ah, essa vem do Francês danse macabrée, “dança da Morte” provavelmente uma alteração do Latim chorea maccabeorum, “dança dos Macabeus”. A associação com os sofrimentos deles acabou trazendo o significado de “assustador, horrendo”.

– E  esses senhores, quem eram?

– Eles viviam em Israel; o nome deles vem do Latim Maccabaeus, um dos filhos de Matatias, líder de uma revolta no século II AC. Usualmente esse nome é dado como derivado do Hebraico maqqabh, “martelo”, mas pelo menos uma autoridade pensa que se trate de uma tradução inexata de matzbi, “general, comandante de um exército”.

– O senhor sabe coisas, hein?

– Sei muito mais, quer ver? Continuando com esses adjetivos, podemos falar em assustador, que vem de susto, do Latim surctus, alteração de surrectus, “surgido, levantado subitamente”, de surgere, “levantar-se, erguer-se”.

– E sinistro?

– É do Latim sinister, “esquerdo, canhoto”. Dado que maioria dos seres humanos usa de preferência a mão direita para agir, as coisas feitas com a esquerda em geral não saem bem; dessa conotação de “desajeitado, fraco,   desfavorável” se fez o sentido atual da palavra, já puxando para “ameaçador, mau, assustador”.

– “Canhoto”, hein, quem diria…

– Por incrível que pareça, os canhotos foram perseguidos por muito tempo; chegavam a ser castigados para fazerem as coisas com a mão direita. Para eles o mundo era ameaçador; esta palavra vem de ameaça, do Latim mincia, “ameaça, intenção de causar dano”, de minare, “ameaçar”.

Falando em outros termos assustadores, lembro-me de lúgubre, do  Latim lugubris, “triste, doloroso, aflito”, derivado de luctus, “sinto dor, lamento”.

E soturno…

– Já sei, Vô! Vem de Saturno, o deus aquele que tem anéis girando ao redor da cabeça!

– Sua descrição está mais para carro alegórico, mas desta vez você acertou. É coisa do pessoal que vai atrás de horóscopos; acreditava-se que as pessoas que nascessem sob a influência desse planeta tendiam a ser sombrias, melancólicas, taciturnas. Como é que você sabia?

– Devo confessar que chutei, Vô, porque era muito parecido…

– Volto a confiar na ignorância juvenil com essas suas palavras. Continue sendo sincero.

– Eu não mentiria para uma pessoa tãão idosa, Vô – disse eu, muito sério.

O velho me olhou torto, divertido:

– Já que você falou em minha avançada experiência, veio-me à mente funesto, que vem do Latim funestus, “o que destrói, o que causa a morte”, de funus, “ritos de enterro, funeral, cadáver”.

E também tenebroso, do Latim tenebrae, “trevas, escuridão”.

E patibular, pouco usado agora e que descreve um sujeito com cara de criminoso; deriva de patibulus, “lugar de execuções, forca”.

E agora chega de falar em coisa assustadoras, vamos regar as plantas que a gente aproveita mais.

 

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