Em: Conversas com meu Avô

ÍMÃS

 

Eu andava pelos meus doze anos e mais uma vez fui visitar meu avô no seu aconchegante gabinete nos fundos do pátio de sua casa. Encontrei-o remexendo numa caixa de madeira que tinha uns pequenos objetos dentro.

Abraçamo-nos, como sempre. E, como sempre, ele perguntou se eu estava estudando direito ou se ia virar um mendigo rolando pelas sarjetas. Garanti que estava me encaminhando corretamente.

Ele fez uma cara exagerada de alívio:

– Bem, se é assim, vou-lhe mostrar umas coisas interessantes que tenho aqui na caixa.

Retirou duas peças de metal escuro e colocou uma em cada mão minha.

– Legal Vô, são ímãs! – e comecei a fazer com que eles se atraíssem e se repelissem. A sensação era muito divertida.

– E, Vô…

– Já sei, você vai querer saber de onde veio essa palavra, certo?

– E todas as outras relacionadas – sentei-me aos seus pés enquanto lidava com os ímãs.

– Pois ímã vem do Francês aimant, ‘ímã”, do Latim adimas ou diamas, do Grego adamas, “o metal mais duro”, que mais tarde gerou também a palavra diamante. Por sua vez, adamas se forma de a-, negativo, mais damao, “domar”. Ou seja, expressava a noção de que um material era muito difícil de trabalhar.

As propriedades magnéticas desse metal o tornam especial para brincadeiras, mas também são indispensáveis para gerar eletricidade, por exemplo, bem como para fazer diagnósticos médicos por imagem. Eles se encontram também nos televisores, computadores, celulares… enfim, o mundo moderno não existiria sem eles.

– De onde vem magnético? É tirado do Leite de Magnésia que seus pais lhe davam quando era criança?

– A palavra vem mesmo daí. E eu me recusava a tomar aquela coisa. No século XVIII foram descobertos dois minerais diferentes em Magnésia, um distrito da Tessália, na Grécia. Um recebeu o nome latino de magnesia alba, “magnésia branca”, e acabou sendo conhecida como magnésio e agora faz parte da fórmula desse medicamento.

O outro foi chamado de magnesia nigra, “magnésia negra”, e agora responde pelo nome de manganês.

Essa região contribuiu também para a palavra magnético, do Grego he Magnes lithos, “a pedra de Magnésia”, um óxido de ferro com as propriedades de um ímã que era abundante por lá.

– Muito bem, e de onde o nome do lugar?

– Do nome de uma tribo local, os Magnetes. E o nome deles vem de Magnes, filho de uma humana e de Zeus. Mas vamos voltar às palavras, que se a gente se embrenha na Mitologia não para mais. Agora olhe aqui  –  e tirou da caixa dois tijolinhos medindo uns sete centímetros por dois por um. Eram prateados e se via que bem densos também.

– Outros ímãs? Deixe-me pegar!

– Primeiro solte esses. Agora pegue um destes, só um.

– Deixe eu pegar os dois, Vô!

– De jeito nenhum. Uma pessoa só segurando os dois é acidente na certa. Estes aqui são de Neodímio-Ferro-Boro, uma liga criada na década de 1980, e são o material magnético mais forte que existe em nosso planeta. Um destes pode levantar até milhares de vezes seu próprio peso. Eles podem facilmente quebrar um osso da mão de algum incauto que tente lidar com eles, já que a atração que eles exercem entre si é tão intensa e súbita que não há como controlá-la.

– Mas que coisa! Pelo que o senhor diz, dá para ver que há outros materiais para fazer ímãs também?

– Sim. Um deles é a ferrite, um tipo de óxido de ferro e que evidentemente vem do Latim ferrum, “ferro”. Estes são também chamados cerâmicos, do Grego keramikón, “feito de argila”, de kéramos, “argila”.

– Hã? São feitos de barro?

– O método de fabricação é que é parecido. E também temos os de alnico, feitos em alumínio, níquel e cobre, como até você pode deduzir só em olhar esse nome.

E já que falei em atração, vou contar que esta palavra vem do Latim attrahere, “puxar para si, atrair, arrastar”,  de ad, “a”, mais trahere, “puxar, arrastar, trazer”. E repulsão vem do Latim repulsio, de repellere, “repudiar, empurrar para trás”, de re-, “para trás”, mais pellere, “bater, empurrar”.

Quando dois ímãs se apresentam com as faces de polaridade oposta uma para a outra, exercem uma força de atração. Se elas têm a mesma polaridade, eles se repelem.

– Parece mágica.

– Mas é Física. Cada ímã é feito por incontáveis dipolos magnéticos, que correspondem ao alinhamento das regiões elétricas dos seus átomos, o que gera um campo de linhas de força magnética.

– E dipolo vem de onde?

– Do Grego di, “dois”, mais polos, “eixo, poste, mastro”. Como a Terra apresenta um eixo em torno do qual gira, e como a agulha da bússola, que é imantada, se alinha de forma paralela a eles, o nome foi aplicado para descrever as regiões onde penetram as linhas de força. Mas não esforce demais essa sua cabecinha oca, prezado neto, que mais adiante você aprenderá sobre isso.

– E agora posso pegar os dois ímãs superpotentes aqueles?

– Nada feito. Preciso de você inteirinho para poder escravizá-lo quando for maior. Vamos fazer uns sanduíches ali na cozinha que a gente ganha mais.

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Em: Consultório Etimológico

origem de 02 palavras em portugues

(1) trair; traição
(2) atrair; atração

Resposta:

1) Veja “traição” na Lista de Palavras.

2) Do L. ATTRAHERE, “puxar para si, atrair, arrastar”,  de AD, “a”, mais TRAHERE, “puxar, arrastar, trazer”.

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