Em: X-8 Detetive Etimológico

Voar

Um escritório empoeirado em preto-e-branco. Móveis desleixados, estilo Anos Cinqüenta. Um detetive atrás de uma escrivaninha, rigorosamente uniformizado de film noir: chapéu desabado, gabardine enorme.

E, à frente dele, consultando-o, uma palavra pequena mas que sabe da sua importância: Voar.

– Muito bem, a senhora deseja saber sua origem e quer conhecer parentes seus que estejam em uso em nosso idioma.

Então vamos lá: a senhora deriva do Latim volare, “voar”. Sua origem é bastante fácil de entender, tratemos de saber de seus primos. Entre eles posso citar volátil, que a rigor significa “aquele que tem a capacidade de voar”. Mas, metaforicamente, também se usa para descrever alguém cuja opinião muda facilmente, como se fosse uma folha ao vento. E também para adjetivar uma substância química que se vaporiza em condições normais de temperatura e pressão, como o álcool e a gasolina.

– Quer dizer que um pardal é volátil, mas um avestruz não é? – disse a vozinha fina da cliente.

– Exatamente. Um pode voar, o outro não.

– E vôlei, tem algo a ver?

– Muito bem, essa palavra, apesar de tão diferente, tem a mesma origem que a senhora. Ela deriva do Francês volée, “vôo”, e se refere ao vôo da bola. O esporte foi inventado em 1895, no Massachussets, e se chamava inicialmente mintonette. Mas, no ano seguinte, o aspecto da bola sendo mantida no ar fez com que surgisse o nome volleyball.

Em Inglês, volley tem também o significado de “descarga simultânea de armas de fogo”, “saraivada”. Mas a origem é a mesma: refere-se a vários elementos sendo disparados pelo ar ao mesmo tempo.

Existe também a palavra convolar, de uso hoje restrito quase só ao Direito, significando “transformar uma ato judicial em outro”, “mudar de estado civil”.  Ela se forma de com-, “junto, “com”, mais volare.

Em anúncios antigos se lia que “convolaram em nossa catedral justas núpcias a gentil senhorinha X e o dinâmico empresário de nossa cidade Y”.

E já que falamos em palavras estrangeiras há pouco, ocorre-me o tipo de empada conhecido por vol-au-vent, literalmente “voa-ao-vento”, pela leveza da massa.

No Francês existe a palavra voleur para dizer “ladrão”. Ela se aplicou primeiro à falcoaria, descrevendo como a ave de presa se abatia voando sobre a caça e a apanhava.

Como a atenção de uma pessoa também pode andar pelos ares, temos avoado, com o significado de “distraído, confuso, atrapalhado”.

– E o outro nome para “guidom”, volante?

– Excelente, a senhora andou investigando. Parabéns. Volante inicialmente se aplicava ao que voa, depois “àquilo que se desloca rapidamente, facilmente”, sendo então usado para as asas de um moinho de vento. Depois assumiu o sentido de “órgão de comando de um mecanismo”.

Daí se poder  falar hoje, nas transmissões esportivas, que “aí vem nosso bravo volante fulaninho, com o volante na mão, depois de o seu carro ter estragado mais uma vez”.

Outra aplicação de uma parente sua é descrever que tal dinheiro público se evolou antes de chegar ao destino: ela vem de ex-, “fora”,  mais volare. Algo assim como “voou para fora”. Muitas vezes, bem para fora mesmo, até o Caribe ou a Suíça.

Um avião, fazendo círculos sobre um determinado ponto, estará circunvoando-o. Esta parente vem de circun-, “ao redor”, mais volare.

E, quando estamos nos sentindo poéticos, podemos dizer que as lembranças esvoaçam ao nosso redor. Ou os mosquitos, depende de onde estivermos.

Bem, sendo o que se apresentava para esta consulta, mantenho-me às ordens para quaisquer dúvidas, contanto que sejam pagas adiantadamente.

Tudo em ordem, então? Até logo, obrigado por nos honrar assim. Cuidado com o lixo no corredor e nas escadas. Procure não pisar nos bêbados que estão no chão, por favor, para eles não ficarem gritando e incomodando.

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