Em: Assunto da Edição

PRÉDIOS PÚBLICOS

 

Os aglomerados urbanos apresentam, conforme o seu tamanho, diversas construções que servem a atividades que se fazem necessárias para o desenrolar da vida em conjunto. Elas podem ser aquelas indispensáveis à alimentação das pessoas, à administração da cidade, aos esportes, cultura, vida religiosa e muitas mais. Hoje aprenderemos algo sobre os nomes de suas sedes.

 

PRÉDIO –  vem do Latim praedium, “habitação rústica”.

 

PÚBLICO –  do Latim publicus, “relativo ao povo”, de populus, “povo”, possivelmente derivado do Etrusco. Também adquiriu o significado de “aberto a toda a comunidade”, em oposição a “privado”.

 

PREFEITURA –  este prédio administrativo recebeu seu nome do Latim praefectus, o cargo designado em Roma para certas funções. E este vem de prae, “antes, à frente” e facere, “fazer”. Assim se formou o verbo praeficere, “colocar à frente de”. A pessoa que recebia este cargo era “colocada à frente” do comando de certas instituições ou grupos.

O praefectus era “administrador, comandante, agente de mando, de governo”. Em nossos dias, é a autoridade maior de um município, mas existem também prefeitos universitários e eclesiásticos.

 

MUSEU –  do Latim museum, “biblioteca, lugar de estudo”, do Grego mouseion, “altar para as Musas”. Mais tarde seu sentido mudou para abranger um local onde são guardados exemplos de Artes e História.

E Musa vem de mousa, literalmente “música, canção”, nome que foi dado a divindades protetoras e personificadoras das Artes, de uma raiz Indo-Europeia men-, “pensar, lembrar-se”, relacionada à palavra  mente.

 

TEMPLO –  do Latim templum, “território delimitado e consagrado para a avaliação de auspícios”, mais tarde “prédio para adoração religiosa”.

 

MESQUITA –  Do Árabe masjid, “lugar de se ajoelhar, de fazer adoração”.

 

SINAGOGA –  Do Grego synagoge, “reunião, assembleia”, de syn-, “junto”, mais um derivado de agein, “trazer, levar, liderar”.

 

IGREJA –  vem do Grego ekklesia, “assembleia, reunião”, derivado do verbo ekkalein, formado por ek-, “para fora”, mais kalein, “chamar, clamar”. Entrou em uso muito antes do início do cristianismo.

 

catedral –  vem da expressão em Latim Eclesiástico ecclesia cathedralis, “a igreja onde um bispo tem assento”. E catedral em si vem do Grego katá-, “para baixo”, mais hedra, “assento, face, base”, por sua vez derivado do Indo-Europeu sed-, “sentar”. A noção é a de “sentar sobre algo”.

 

PALÁCIO –  do Latim palatium, “morada oficial de um soberano”, que era o nome da residência de César Augusto, por ter sido erguida no Mons Palatinus, “Monte Palatino”, uma das sete colinas de Roma antiga. Por sua vez, a colina recebeu este nome da palavra palus, “estaca”, dando a noção inicial de um lugar cercado.

 

FORUM –  do Latim forum, “mercado, local aberto, área pública”, aparentemente relacionada a foris, “fora”, porque muitas vezes se situava no exterior do recinto amuralhado de uma cidade. Mais tarde adquiriu o significado de “local de reunião” e também o de “lugar onde se dispensa a Justiça”.

 

CASTELO –  vem do Latim castellum, “vila fortificada”, de castrum, “acampamento militar romano”. Em ocasião posterior, algum senhor local podia erguer uma fortaleza-morada no lugar onde tinha havido um acampamento desses e assim surgia o que hoje conhecemos como castelo.

 

TEATRO –  do Latim theatrum, do Grego theatron, literalmente “lugar para olhar”, de theasthai, “olhar”, mais  –tron, sufixo que denota “lugar”.

O sentido inicial de “prédio onde são realizados espetáculos” passou depois a ter maior alcance, designando peças, produção, a preparação de uma peça teatral em geral.

 

ESCOLA –  do Latim schola, do Grego skholé, “discussão, conferência, escola”, também “folga, tempo ocioso”.

O sentido original era “folga, descanso”, a partir da noção de que nesses momentos se pode começar uma conversa útil em termos de aprendizado.

 

ESTÁDIO –  deriva do Grego stadion, uma medida fixa de comprimento que equivalia a cerca de 185 metros; também designava, por extensão, uma corrida a pé e a trilha por onde esta se realizava.

 

HIPÓDROMO –  vem do Grego hippos, “cavalo”, mais dromos, “corrida”. Mais claro não pode ser.

 

MERCADO –  do Latim merx, “mercadoria, algo posto à venda”.

 

FÁBRICA –  veio do Latim fabrica, “oficina, lugar onde se fazem coisas”, de faber, “aquele que faz, artesão”, de facere, “fazer”.

 

PARLAMENTO –  do Francês parlement, antigo tribunal de Justiça na França, de parler, “falar”, a atividade mais levada a efeito nesse local.

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Em: X-8 Detetive Etimológico

E o Assessor

 

Noite de verão. O único e mais famoso detetive etimológico do pior bairro da cidade está amaldiçoando o calor.

Suas roupas em nada melhoram sua situação: uma capa de gabardine com chapéu de feltro enterrado na cabeça. Mas se não for assim, ele teme chamar muita atenção quando está trabalhando.

Ele está, como todas as noites, sentado em seu escritório cheio de sujeira, poeira e teias de aranha, à espera de que apareçam palavras para consultar sobre as suas origens.

É verão e muitas delas foram à praia, para poderem se dedicar a um merecido descanso.

“Mas um detetive etimológico não pode tirar férias, não pode descansar nunca. Jamais se sabe quando ele vai ser necessário para aliviar a angústia de uma palavra quanto às suas origens. Não se pode baixar a guarda, pois uma urgência etimológica pode aparecer a qualquer momento. E se não houver ninguém para atender? Quem é que vai recolher o dinheiro pelo serviço?” – são os pensamentos daquele que nunca repousa.

Um tanto melhorados por uma cuidadosa interpretação positiva. Em todo caso…

É então que ele ouve uma voz vibrante que se aproxima pelo corredor, lançando cumprimentos a torto e a direito. Como ninguém tem a imprudência de ficar pelos corredores desleixados e escuros do Edifício Éden, X-8 deduz que a voz está cumprimentando os ratos e baratas que encontra pelo caminho.

Em seguida batem à sua porta. Antes que ele possa mandar entrar com a voz fria que treinou tantas vezes em frente ao espelho, a porta é aberta.

Surge uma palavra grandalhona muito expansiva, com um traje apertado e brilhante de microfibra, camisa azulão e gravata florida, cabelos curtos pingando gel, falando alto como se fosse para ser ouvida por muitas pessoas.

É Assessor que entra, com uma presença que enche o escritório inteiro.

– Senhor detetive X-8, muito prazer! É para mim causa de elevada honra simplesmente vê-lo, que dirá poder falar com o senhor. Encontrá-lo sempre foi um grande sonho, que vejo realizado neste precioso instante. Imaginar que eu estou no seu sancta sanctorum, neste seu escritório tão notavelmente arrumado e equipado, de um bom gosto extraordinário, no edifício mais luxuoso de um bairro exclusivíssimo… Ah, se houvesse fotógrafos por aqui para eu poder enviar um instantâneo meu para meus idosos pais, na nossa pequenina cidade do interior! Mas por certo bastará que eu lhes conte para que eles possam morrer em paz, sabendo que o seu filho alcançou algo que nunca ocorreria a uma família de palavras pobres porém honestas e trabalhadoras, que…

X-8, meio tonto com tanto palavrório, se ergueu com seu melhor jeito ameaçador e apontou para uma cadeira, sem dizer nada. O falador se sentou e ia retomar a sua interminável conversa, quando X-8 lhe empurrou por sobre a mesa um dos seus folhetos em que estavam descritos os seus serviços e citados os seus salgados preços.

Por conhecer tanto as palavras, X-8 lhes tinha profundo respeito. E não gostava de vê-las espalhadas como gotas de chuva.

Assessor ficou um pouco atrapalhado porque percebeu que sua verborragia não estava levando a nada. Ele não estava acostumado a isso. Resolveu ir direto ao ponto:

– Seu X-8, glória detetivesca nacional, vim aqui para tentar descobrir onde mais eu tenho parentes neste nosso idioma e, se for possível, de onde veio a minha família.

O detetive apontou para o folheto na mão gorda, anelada e próspera da palavra, sem dizer nada.

– Ah sim, são estas as condições… Hum, uma semana para vir receber por escrito as informações, seladas e certificadas… O preço é este… Puxa!… Manter segredo… Ética… Ética é comigo! Sei tudo sobre isso. Muito bem. Mas quero saber se o senhor pode fazer também um serviço botânico para mim.

Um olhar interrogativo brilhou sob a aba do chapéu. A palavra continuou:

– Arrumando as minhas coisas em casa, encontrei algo que era de um bisavô meu – e puxou do bolso de dentro do casaco um frasco de vidro com algo esquisito dentro.

– É uma raiz de palavra, e sobre ela só sei que está passando de um para outro na família há muito tempo. O senhor pode tentar descobrir alguma coisa a partir dela?

O detetive estendeu a mão para o frasco, puxou uma grande lupa do bolso. Era a primeira vez que ele precisava fazer isso em muitos anos, apesar de estar sempre com ela. Afinal, ela era parte do equipamento obrigatório de um detetive.

Olhou atentamente o conteúdo do vidro. Fez que sim com a cabeça. Esticou-se, pegou o folheto que Assessor estava segurando e apontou para a parte da tabela que falava em “serviços extras”.

– Tudo bem, seu detetive, tudo bem. Arranjei uma boquinha boa neste governo também – aliás, em todos os destes últimos vinte anos – e posso pagar por um serviço bem feito destes.

Falando nisso, sempre achei uma barbaridade, uma injustiça de marca maior, que não exista ainda o cargo de assessor etimológico obrigatório no mais alto escalão do governo. Se eu fizer uns contatos e obtiver uma alteração da Constituição nesse sentido, o que o senhor acharia de ser convidado para ser Assessor Etimológico-Chefe?

O detetive ficou estarrecido. Numa fração de segundo, passaram pela sua cabeça as visões dele num gabinete com ar condicionado, secretárias escolhidas a dedo, uma biblioteca inteira ao seu dispor, garçons vestidos de pingüim com copos dágua gelada, auxiliares para fazer as pesquisas, carro oficial, viagens…

Assessor sabia o que fazia. Disse para X-8 pensar com carinho na idéia, despediu-se efusivamente e saiu do edifício desalinhado, certo de que tinha conseguido alguém que se dedicaria a ele para sempre enquanto dissesse que o cobiçado cargo estava quase para sair.

Ainda zonzo com aquele falatório todo, X-8 trancou a porta atrás do cliente e começou o seu trabalho. Livros, caneta-tinteiro, papel especial… Essa era a parte que lhe agradava.

Dali a umas duas horas seu rascunho estava pronto. Sentou-se atrás da sua máquina de escrever antiga e barulhenta. Colocou nela papel de jornal e começou a datilografar:

A raiz contida no frasco apresentado pelo distinto cliente é nada menos que a raiz Indo-Européia sed-, “estar sentado”, geradora de enorme descendência nas línguas ocidentais.

Como exemplo, citaremos algumas das palavras dela derivadas, sem pensar em tentar esgotar o assunto:

Em Grego, esta raiz gerou a palavra hedra, “assento, lugar que se ocupa, superfície”.

Por sua vez, ela é usada em palavras como poliedro, de poli-, “muitos, vários” mais hedra. Descreve um sólido geométrico com várias faces (cubo, pirâmide, etc.).

Também aparece em catedral, de cathedra, “assento, cadeira”. A igreja catedral é aquela em que se situa a cátedra, a sede do bispo.

O que no colégio se chama “Matéria” (Matemática, História, Geografia..) é chamado de “Cadeira” nas faculdades, o que se refere às Cátedras dos mestres. Estas eram cadeiras enfeitadas, com apoio para os braços, em contraste com os assentos simples dos alunos.

E aliás, quando os rapazes olham as cadeiras das moças que passam estão olhando mais um derivado de sed-; tal parte do corpo recebeu esse nome por ser a que se acomoda nesse móvel ao sentar.

A assembléia dos judeus recebeu um nome grego na época em que esta cultura era muito difundida na comunidade israelita: sinédrio, de syn-, “junto”, mais hedra. As pessoas “se sentavam junto” para resolver as questões importantes do momento.

Em Latim se formou, a partir de sed-la, a sella, “cadeira de pernas curtas, sela para cavalos”.

Nesse idioma também surgiu a palavra sedes, “fundação, residência, assento”, que resultou em sede em Português.

O Latim muito usou a palavra sedere, “sentar”, óbvio derivado de sed-, para fazer outras palavras.

Do particípio passado desse verbo, sessus, “estar sentado”, portanto “inativo”, se fez sedimentum, sedimento. Um material só pode sedimentar-se se estiver “parado, sentado, inativo” por um certo tempo.

Sedentário, que é um verdadeiro palavrão para a turma que malha, tem a mesma origem. Originalmente, sedentarius era “o que trabalha sentado”.

Sessão vem de sessio, “o fato de se sentar”. As sessões políticas costumam ser nessa posição, facilitando inclusive o sono dos menos interessados.

Um dissidente é uma pessoa que se sentou com o partido oposto: dis-, “contra, em discordância”, mais sedere.

Quem se senta sempre junto a outro é assíduo, de ad-, “junto”, mais sedere.

A história do adjetivo insidioso é muito interessante: vem de insidia, “emboscada, traição”. E esta palavra se forma por in-, “em, dentro”, mais sedere. Mostra que aquele que está “sentado, estabelecido dentro” de uma situação pode acarretar muito dano.

De ob-, “à frente”, mais sedere se fez obsidere, “cerco a uma praça forte”. Seu significado militar passou à palavra obsessão. Só quem teve uma obsessão sabe da sensação de estar cercado, com o inimigo estabelecido às suas portas, louco para entrar e destruir tudo.

Mesmo a palavra sedar, “acalmar, tranqüilizar” vem da raiz citada: quando se consegue fazer sentar uma pessoa que está muito nervosa, via de regra é porque ela já está melhorando.

Existe uma planta cujo chá se diz ser calmante. Como ela, em princípio, faz a pessoa “ficar sentada”, recebeu o nome de resedá, de re-, intensificativo, mais sedere.

Para completar, e para surpresa do distinto cliente, outro derivado de ad- mais sedere é… assessor. Exatamente, aquele que “se senta junto” a outra pessoa para a auxiliar no trabalho é um assessor.

De tal modo, prezado cliente, a raiz pelo senhor achada é sua antepassada remota, de quando ainda não havia roupas elegantes como a sua, de quando não se obtinha o sustento sentando ao lado de um poderoso e sim saindo para caçar e colher frutas.

Na semana seguinte, Assessor foi levar o pagamento. Recebeu o papel, leu-o uma vez, rapidamente e ficou fascinado por ter em seu poder a antepassada que, agora seca, havia gerado tantas palavras.

Renovou o convite para que X-8, por seu notório saber, fosse assessor ou quiçá Ministro da Etimologia, assim que as leis fossem alteradas para incluir matéria de tanta importância na estrutura de Estado.

X-8 respondeu que iria falar com as suas bases e que lhe telefonaria quando tivesse resolvido.

Ficou vendo-o afastar-se pelas ruas cheias de sujeira, cumprimentando os postes e as portas dos prédios, com sua vibração tão peculiar.

Não, decididamente aquele tipo de vida não lhe servia. Mesmo que fosse Ministro, ele iria ter que bajular alguém. Melhor ficar naquele bairro obscuro fazendo o seu serviço!

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Em: X-8 Detetive Etimológico

Catedral

 

Noite escura como todas as do bairro, mesmo as que têm lua cheia.

Edifício Éden. Cinco andares, elevador estragado, escadas cheias de lixo, vizinhança de meter medo.

Um vulto coloca a cabeça para fora da porta do edifício. Olha para um lado, olha para outro. Nada enxergando de mais suspeito que o normal, ele se afasta com passos rápidos para a esquerda.

Vamos segui-lo. Ele usa uma gabardine enorme e um chapéu enterrado na cabeça. Seu rosto fica nas trevas, suas mãos nos bolsos. Seu olhar percorre de um lado para o outro a calçada e a rua com pouco movimento.

No bairro todos sabem quem ele é: X-8, o detetive etimológico, um paladino da causa da origem das palavras e da sua própria conta corrente. Ele sempre anda de modo disfarçado por hábito profissional, para não chamar a atenção.

Esta noite ele se dirige para a Pizzaria do Porco. Ah, ele deve estar com vontade de fazer uma reconfortante janta de pizza com um queijo bem torradinho, regada com um bom refrigerante.

Mas não, ele passou direto pela frente da Pizzaria. Sua garçonete preferida, Odila, o vê passar como uma ratazana apressada e nem tem tempo para chegar até à porta e assobiar um fiu-fiu.

A intrigante figura segue por mais umas duas quadras. Pára, olha ao redor de maneira escandalosamente disfarçada. Abaixa-se para amarrar o sapato direito.

Levanta-se, olha ao redor e se abaixa para amarrar o outro sapato. Anota mentalmente que esta manobra é sempre mais convincente quando os sapatos são de amarrar.

Ergue-se, puxa um lenço do bolso, seca o suor do chapéu, deixa-o cair e o recolhe enquanto olha ao redor. Encosta-se à parede de um prédio, põe as mãos nos bolsos, suspira com ar de tédio, sempre perscrutando as imediações.

Quando finalmente ele se convence de que não está sendo seguido, entra rapidamente pela porta do prédio, que é ainda mais mal encarado do que o Edifício Éden.

Vai até o fundo do corredor, onde se situa o elevador. Ele é pequeno, tem lugar para apenas duas pessoas e ostenta por fora uma placa com os dizeres “NÃO FUNSIONA. NÃO INCISTA”.

Inesperadamente, ele entra no elevador. A porta de madeira se fecha atrás dele.

Ele olha ao redor para ver se está realmente sozinho naquele espaço restrito e começa um ritual muito estranho: assobia bem alto o começo do terceiro movimento da Sétima Sinfonia de Beethoven, acompanhando-se ao sapateado.

Depois de fazer isso por trinta segundos, ele repete a música, só que de trás para diante, enquanto sapateia de trás para diante também.

Com um estalido, o painel do elevador fronteiro à porta se abre: era uma porta disfarçada, de cuja existência poucas centenas de pessoas sabiam. Ele passa para o outro lado.

Ali atrás é a Kasa da Kópia, o estabelecimento de cópias do bairro. Eles fazem tudo que é tipo de cópia, em preto e branco, colorido, “banners”, placas de acrílico, impressão em camisetas, até bordados.

São extremamente hábeis, mestres em copiar direitinho qualquer tipo de etiqueta. Daí o nome da loja, sugerido pela Numerologia. Isso lhes garante uma clientela certa entre os industriais do bairro.

São eles os responsáveis pelas marcas de aparelhos eletrônicos, roupas, bolsas, tênis e muitos outros artigos que passam silenciosamente pelo bairro e ativam a sua economia.

É por esta razão que eles tomam especiais cuidados em relação à entrada da loja. A Polícia há muitos anos desistiu de entrar no bairro, mas nunca se sabe. Os donos do próspero estabelecimento preferem prevenir a remediar.

Os donos são um casal de destaque na vida social local, Pescoço e Mortadela. Ele é conhecido assim por que é magro que nem pescoço de galinha fugida.

E ela tem esse apelido (embora não saiba) por apresentar notável semelhança com o dito embutido. Principalmente quando faz calor e ela coloca uma daquelas blusas amarradinhas nas costas. Algumas línguas mordazes dizem que é também porque a inteligência dela em nada fica a dever à de uma mortadela, mas ninguém fez ainda um estudo comparativo de QI para comprovar o fato.

Eles se dão muito bem; trabalham juntos, comparecem a todas as festas do Clube do bairro, adoram ouvir pagode, tomar cerveja e comer até arrebentar. Evidentemente, um casal feliz.

Com eles trabalham diversas pessoas da família. Hoje há uns três ou quatro rapazes, todos de bermudão, camiseta e chinelos, cabelo raspado e toucas de lã, que cumprem as suas tarefas entre olhares cheios de suspeita para o recém-chegado.

O casal, lidando com números não-contabilizados à mesa, cumprimenta cordialmente o detetive.

Ele é um cliente especial; embora seja um grande pão-duro e gaste pouco ali, a sua presença dá uma aura séria, intelectual, à Kasa das Kópias.

Hoje ele está precisando de cópias de um pequeno dicionário, que passa às mãos brancas e rechonchas de Mortadela.

– Uma de cada? Preto e branco ou colorido? – pergunta ela.

Ele chega a pensar numa resposta mordaz, mas se controla e diz, muito sério, que hoje prefere em preto e branco.

Enquanto ela faz as cópias, Pescoço vigia os seus movimentos. Ela tem uma curiosa capacidade de esquecer a ordem dos gestos simples de apertar botões na copiadora.

Mas desta vez tudo dá certo, depois que eles conseguem retirar os papéis que ficaram trancados nos cilindros da máquina. Pescoço entrega as cópias, caprichosamente acondicionadas numa sacola de supermercado pouco amassada, daquelas reservadas para os clientes importantes. Recebe o pagamento em moedas e se despede do detetive.

Este sai e se vê dentro do elevador. Espia pela janelinha deste, não vê ninguém e sai do prédio, andando apressado.

Ele acha bárbaro todo este ritual para fazer umas simples fotocópias; ele toca a sua alma de amante do mistério e antigo leitor de histórias policiais.

A sua imaginação é fértil. Enquanto ele caminha, vai imaginando acontecimentos perigosos envolvendo um bravo homem da lei, uma bela, rica e assanhada cliente, um grupo de bandidos que não resistem à inteligência aguda que ele tem e aos socos rombudos que ele distribui.

Está no ponto em que já derrotou dezessete criminosos, descobriu onde é que eles escondiam o pônei de estimação dela e está recebendo o pagamento de seus honorários. O pacote em euros (dólares são coisa ultrapassada!) já está no bolso, agora é a hora de um extra por “serviços prestados além do cumprimento do dever”, segundo ela.

O négligé preto de renda voa para cima de um sofá; ele dá um passo entusiasmado para a voluptuosa cliente e o seu pé afunda numa poça de água até o tornozelo.

Praguejando, ele olha para baixo e vê a poça, o lixo pelo chão, papéis espalhados…

Diacho, mais uma vez ele se deixou levar pela imaginação! Se continuasse mais um pouco, ia dar de cara com o muro que fecha este beco. Volta-se para sair, com o pé fazendo sons líquidos, e vê a entrada do beco tomada por vultos iluminados por trás, quietamente ameaçadores, sem possibilidade de fuga.

Puxa, isso já tinha acontecido aquela vez em que tinha ido à Pizzaria do Porco. Felizmente os vultos pertenciam a palavras pobres e sem má intenção, das quais ele se livrou graças ao seu papo. Devem ser elas de novo.

Avança para elas, confiante, e elas se dispõem de modo a fechar a saída. Todas estão enroladas em capas longas, à moda antiga. Não parecem os mesmos seres que da outra vez. A figura da esquerda aponta para ele com um gesto vigoroso.

Ele sente que desta vez não houve acaso. Ele fora seguido. E para boa coisa não era, pois ninguém é encurralado num beco para dar autógrafos.

Quem estava apontando para ele afrouxa a capa e ele vê que era um palavra mesmo, Acólito. Ela fala, voz grave:

– Precisamos de você. Temos uma consulta para fazer. Secreta, secretíssima.

Com as pernas trêmulas, entre temeroso e aliviado, X-8 não consegue responder.

A palavra da direita, que abrira a capa também, para mostrar que era Sacristão, diz:

– Aqui há uma palavra que não pode ser vista andando por um lugar de vícios e pecados como este seu bairro. Você vai nos dizer a etimologia dela e jurar manter segredo.

Ainda sob o efeito do susto, mal podendo respirar, o detetive fica imóvel, o que é tomado pelas palavras como uma calma concordância vinda de um sujeito impassível.

É então que a palavra do meio abre a capa e se mostra em seu esplendor de arcos, gárgulas, vitrais, pompa e incenso: catedral! Ela fecha o tecido de seda púrpura farfalhante, vira as costas e se afasta imediatamente, em passo majestoso.

Acólito diz:

– Aguardamo-lo amanhã neste mesmo beco e nesta hora. Seu documento e seu silêncio serão regiamente recompensados – olha para os lados rapidamente e acrescenta:

– Não sai aí uma origenzinha dos nomes dos auxiliares também? Dá prá dar essa forcinha, gente boa? – e dá uma cotovelada no braço de X-8. Este reúne as suas forças, dissipadas pelo susto, e mal consegue levantar um trêmulo polegar.

Os assistentes de catedral se afastam também. X-8 esqueceu o sapato sujo e tudo o mais; após recobrar a respiração, volta para casa muito apressado.

Chegado lá, começa a mexer freneticamente nos seus livros.

Na noite seguinte, bem mais seguro, X-8 está à espera no beco. Seu orgulho está em alta: então o pessoal do Alto Clero das palavras já o conhece e toma providências para o procurar! Bom, muito bom.

Na hora aprazada, apresentam-se as três figuras, imponentes, à entrada da ruela. Aproximam-se em silêncio. A de capa púrpura e farfalhante faz um gesto e uma das outras estende a mão. X-8 lhe alcança um papel enrolado, atado com uma fita vermelha. A palavra embuçada lhe alcança uma pequena sacola de veludo. Seria mais interessante se ela contivesse moedas de ouro, mas o dinheiro em papel que ali está não é desagradável.

As três palavras se voltam e saem, dignas, solenes. Andam com esse porte até a esquina e, logo que a dobram, abrem depressa o papel enrolado, entre pulinhos de adolescentes assanhadas.

Desta vez X-8 caprichou: escolheu o seu melhor papel creme e cuidou bem a escolha da fonte do computador.

– “Nada é bom demais num caso destes” – pensava ele, enquanto trabalhava no seu escritório noir.

O documento pago a bom preço rezava:

catedral – esta palavra vem da expressão em Latim Eclesiástico ecclesia cathedralis, “a igreja onde um bispo tem assento”.

A palavra ecclesia se originou no Grego ekklesia, “assembléia, reunião do povo” e se transferiu mais tarde para o prédio dedicado às reuniões religiosas, resultando na nossa igreja.

Como todos sabem, bispo vem do Latim episcopus, do Grego episkopos, formado por epi-, “sobre”, mais skopéo, “eu vejo, eu olho”. Ou seja, literalmente um supervisor.

catedral em si vem do Grego katá-, “para baixo”, mais hedra, “assento, face, base”, por sua vez derivado do Indo-Europeu sed-, “sentar”. A noção é a de “sentar sobre algo”.

Este final hedra- tem muito uso em Geometria. Como exemplo, citamos tetraedro, um corpo com quatro faces iguais, dodecaedro, idem com doze faces iguais, diedro, local onde dois planos se tocam e fazem ângulo.

Como inhapa, contaremos que a origem de Acólito é o Latim Eclesiástico acolythus, do Grego akólouthos, “aquele que serve, companheiro de viagem”.

E que Sacristão vem do Latim sacristianus, “o que auxilia em tarefas sagradas”, que veio de sacer, “sagrado”.

Como todas as palavras, seja de que nível forem, estas três tinham intensa curiosidade em saber das suas origens. Leram o documento aos empurrões e gritinhos, sem respeitar a importância de catedral. Terminada a leitura, voltaram aos pulos pelas ruas desertas até chegarem a uma região mais respeitável, quando reassumiram o porte digno e imponente que lhes cabia.

O detetive, voltando para casa, aproveitou para deixar algum dinheiro em troca de uma boa pizza, servida com os costumeiros oferecimentos extra-refeição de Odila, a garçonete.

Enquanto bebia seu refrigerante gelado, ele pensava:

catedral… uma catedral tem gárgulas. Mais um sinal de que eu preciso falar com Gárgula, minha antiga cliente. Parece que o destino a está apontando para mim. Decididamente, vou ter que fazer alguma coisa sobre isso.

Esse pensamento não lhe saía da cabeça enquanto ele voltava para casa pelas ruas desertas.

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