Em: Consultório Etimológico

Origem

Olá, gostaria de saber a origem das seguintes palavras (identificar a língua) e se possível a data aproximada que estas foram adotadas:
soprano, tulipa, chá, sauna, caviar, laranja, jerimun, masmorra, mausoléu, alcoólatra, iate, alfândega.

Obrigada!

Resposta:

Quando se fala em data nesta matéria, ela só pode se referir ao documento mais antigo onde foi encontrada a palavra naquela forma. A entrada de palavras num idioma, na maioria das vezes, não pode ser tida por “adoção”, exceto em linguajar técnico, como é o caso de vocábulos ligados à Informática.  

1) Italiano, SOPRANO, “a voz mais aguda”, de SOPRA, “acima, sobre”, do Latim SUPER, “acima”. 1839.

2) Do Persa DULBANT, “turbante”, através do Turco TÜLBENT e do Francês TULIPE, o nome da flor. Ao redor de 1570.

3) Do Mandarim CH’A, o nome da bebida. Cerca de 1590.

4) Do Finlandês SAUNA. 1881.

5) Do Persa KHAVIYAR, de KHAYA, “ovo”, mais DAR, “o que porta, que leva”.  1550.

6) Do Persa NARANG, através do Italiano ARANCIO. 1300.

7) Do Tupi YURU’MU, o nome do fruto. 1899.

8) Do Árabe MATMURA, “prisão”. 1400.

9) Do Grego MAUSOLEION, o túmulo do rei MAUSOLO, em Halicarnasso. Com o sentido de “túmulo notável pela sua arquitetura” é de 1546.

10) De “álcool”, que vem do Árabe AL-KOHL, “pó de antimônio”, muito fino e volátil, qualidade que levou à comparação do álcool com ele. 1913.

11) Do Inglês YACHT, “navio veloz”, do Holandês JACHTSCHIP, navio veloz de ataque”. 1557.

12) Do Árabe AL-FUNDAQ, “estalagem, alojamento de mercadores e seu material”. 1392.

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Em: Assunto da Edição

Cores

Essas diferentes freqüências de energia eletromagnética que são registradas pelos receptores de nossas retinas se chamam cores. Embora nem todos as distingam igualmente, fazem parte do equipamento básico de um grande número de seres vivos.

E, como tudo, tiveram que receber nomes para distingui-las. Pois vejamos de onde eles vieram em nosso idioma.

AMARELO – do Baixo-Latim hispânico amarellus, diminutivo do Latim amarus, “amargo”. E o que é que uma cor tem a ver com um sabor, além da rima? É que o amarelo-dourado é a cor da bile antes de se oxidar e ficar esverdeada. E o seu gosto é muito amargo.

Que foi uma idéia estranha para escolher o nome, foi.

COR-DE-laranja – não é preciso explicar muito, né? Há quem a chame também de salmão, devido à cor desse peixe em determinado estágio de sua evolução.

O fato é que muitas cores acabam sendo nomeadas por comparação com as que predominam em certos objetos naturais. O nome laranja vem do Sânscrito narang, o nome da fruta.

VERMELHO – do Latim vermis, “verme, pequeno animal”. Parece outra relação estranha, mas tem uma explicação boa: houve época em que se fazia a extração de pigmento dessa cor de moluscos ou de cochonilhas. Agora, com os avanços da Química, esses pobres bichos foram deixados em paz.

ROXO – também chamado de violeta, obviamente por comparação com as pétalas dessa linda flor. O nome dela em Latim era viola, daí a palavra atual. E roxo é do Latim russeus, “vermelho-escuro”.

Frederico Barba-Roxa era assim chamado porque tinha uma barba avermelhada, não roxa.

AZUL – vem do Persa lazward, “azul, lápis-lázuli (a pedra)”.

VERDE – do Latim viridis, “verde”, possivelmente derivado de uma palavra significando “planta que cresce”, já que elas têm esses hábitos.

Até aqui, lidamos com as cores que são vistas facilmente num arco-íris completo. Mas há muitas outras, das quais citaremos algumas:

MARROM – do Francês marron, “castanha”, de um radical pré-romano marr-, “pedra, rocha”, por certo devido ao aspecto duro do fruto.

CINZA – do Latim cinis, “material sobrado de um processo de combustão, cinza”.  Hoje é raro o uso do sinônimo gris, derivado do Francês gris, que veio do Frâncico gris, “cinzento”.

BRANCO – do Frâncico blank, “claro, branco, brilhante”.  Substituiu o Latim albus, de mesmo significado, que nos deixou palavras como alvo e alvacento.

PRETO – do Latim pressus, “apertado, denso, comprimido”, de premere, “apertar, espremer”. A noção é a de que se trata de uma cor (?) onde existe muito pigmento.

Pode-se também dizer negro, do Latim niger, “negro”.  E não se esqueça: o superlativo desta palavra é nigérrimo, não negríssimo.

MAGENTA – este vermelho profundo recebeu o nome de uma cidade italiana. Em Magenta, em 1859, os austríacos foram batidos pela França e Sardenha; o pigmento anilínico dessa cor foi descoberto no ano seguinte. Talvez tenha havido alguma alusão ao sangue derramado no combate.

Esta cor também pode ser dita carmim, do Árabe kermes, um pequeno inseto que também teve o azar de produzir corante.

PÚRPURA – do Latim purpura, molusco do qual se extraía esse corante vermelho puxando para o roxo, chamado em Grego porphyros. Esse pigmento era tão caro que se reservava inicialmente apenas às vestes imperiais e depois a algumas eclesiásticas.

OCRE – este amarelo com tons de marrom vem do Grego okhros, “amarelo-pálido”.

FÚCSIA – é um cor-de-rosa intenso, meio purpúreo, que existe nas flores da planta do mesmo nome. Foi dado em homenagem a Leonard Fuchs, botânico sueco do século XVI.

COR-DE-ROSA – já que acabamos de citar… Deriva do Latim rosa, do Grego  rhodon, “rosa”.

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Em: Etimologia no Maternal

Cores I

Ai, que barbaridade! Mal eu me viro para desenhar no quadro e este grupo de vândalos desata numa batalha corpo-a-corpo que faria inveja aos piratas do Caribe tomando de assalto um navio de Sua Majestade Britânica.

Cri-an-ças! Parem já, senão vou chamar o Michael Jackson para tomar conta de vocês!

Hum, nada como um pouco de suave e sutil psicologia moderna para amansar as feras.

Vamos ver o que houve para causar esta carnificina. Ah, a Aninha pegou o lápis de cor verde da Angélica, que pegou então o da Vera, que apanhou o roxo da Valzinha – não, não queremos saber por que a sua outra vizinha vive de olho roxo, Val, fique quieta – que deu um tapa no Tiago para pegar um outro…

Acalmem-se, sentem aqui ao redor e ouçam, que vou contar a história dos nomes das cores dos lápis que usamos para fazer bonitos desenhinhos – nós exceto o Joãozinho, dê já aqui esse papel, menino, que eu vou rasgar.

Já que tudo começou com um lapisinho verde, saibam que esta cor se chama assim a partir do Latim viridis, “verde”. Esta palavra também era e ainda pode ser usada para dizer “vigoroso, novo, com plena força”, lembrando o que se observa nas plantas. Mais um exemplo da influência da agricultura na língua latina.

roxo vem do Latim russeus, usado para designar o vermelho-escuro, palavra relacionada com ruber, “vermelho”. Por sua vez, esta vem do Indo-Europeu reudh-, “vermelho”. Daí vieram o red inglês, o roth alemão, etc.

É muito interessante saber que esse é o único nome de cor que se traça a um antepassado comum tão antigo; todos os outros apresentam histórias bem diferentes.

Não, Ledinha, naquela época eles não se atrapalhavam com os lápis de cor nas aulinhas da caverna por que não havia aulinhas naquela época. As crianças eram postas a fazer alguma coisa de útil assim que tinham alguma coordenação motora. Ah, os bons tempos…

Não, Mariazinha, sei apenas de estudar e ouvir falar, eu nasci um pouco depois disso.

Antes de passar adiante, lembro que o roxo pode ser chamado de violeta, do nome da flor, que era viola em Latim.

Um roxo devagar, um roxo-claro, pode ser chamado de ciclame, do Grego kyklamen, o nome da flor que se apresenta assim decorada.

Um tom um pouco mais avermelhado desta cor se chama lilás, do Árabe lilak.

O vermelho tem uma história interessante. Deriva do Latim vermiculus, diminutivo de vermis, “verme, inseto”. É que, em Roma, se extraía um corante vermelho de um inseto, a cochonilha.

Certo, pessoal, eu sei que verme nem sequer tem patas e os insetos têm seis delas, mas naquelas épocas ainda não havia sido feita a sistematização do reino animal, era tudo muito confuso. Eles não tinham tempo para essas coisas porque estavam sempre procurando um motivo para matar uns aos outros.

Outra origem esquisita é a do amarelo, que vem de amarellus, diminutivo de amarus, “amargo”.

Há uma relação aí com a bile, que é amarga e é produzida pelo fígado, já seja porque esta, logo antes de se oxidar no ambiente, é de um amarelo-dourado, já seja porque a pele dos que sofrem de certos distúrbios hepáticos fica amarelada.

Sim, o laranja pode ser chamado de um amarelo indignado, essa está boa, Zorzinho. O nome evidentemente vem do da fruta cítrica, que vem do Persa narang.

O azul? Ora este nome vem do Persa lazward, que era como eles chamavam o lápis-lázuli, uma pedra semipreciosa que tem uma linda cor azul-claro.

Certo, ainda há mais cores, mas agora terminou a aulinha e desde deixamos combinado que amanhã vamos continuar com as cores.

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Em: Etimologia no Maternal

Frutas

- Quem foi que deixou um resto de maçã roída na minha cadeira? E esta casca de banana no chão? E estas cascas de amendoim sobre a minha mesa? E estas sementes de laranja sobre as classes? Crianças, assim não dá! Feio, feio! Como é que uma pobre mestra pode sobreviver num meio destes?

Sentem-se todos em roda e vamos falar um pouco sobre a origem das palavras enquanto eu tento limpar um pouco a sala. Ah, eu sabia que podia contar com o Humbertinho para trazer o cesto de lixo atrás de mim. Continue assim que você vai agradar muito no futuro, menino.

Estão vendo esta casca de banana? Quem a jogou aqui provavelmente vai ter uma vasta dor de barriga, que é para aprender a não ser mal-educado. Mas por enquanto vamos ficar sabendo que o nome dessa fruta vem do Árabe banana, “dedo”, devido à sua forma.

Também chamamos de banana a pessoa muito mole, numa alusão à consistência macia do fruto. Falando nisso, levantem o Soneca dali um pouco, para que eu possa tirar essas cascas debaixo dele. Cuidado para não o acordar, que pelo menos é um que não está incomodando.

Olhem esta maçã esborrachada aqui. Saibam que o nome dela vem de mala mattiana, “maçã da cidade de Mattium, onde havia grande produção.

Esta palavra mala ou malum se aplicava também a frutos de polpa carnosa em geral.

Não, Joãozinho, não é dessa carne que estamos falando. Continue distraído fazendo os seus desenhos. Só não os mostre para ninguém, por favor.

Falando em malum, o pêssego, tão apreciado, se chamava em Roma malum persicum, “o fruto da Pérsia”. Com o tempo, caiu a primeira palavra e ficou a segunda. É por isso que o seu nome se escreve com “S” e não “C”, como alguns faziam. O “S” vem do nome do país.

- Como, Ledinha? Não, querida, essa fruta não foi inventada na Pérsia, ela apenas passou por lá a partir da Ásia, em seu caminho para o Ocidente.

Falando nisso, os romanos gostavam de uma fruta que continha muitos pequenos grãos cor de rubi com uma incômoda sementinha dentro, que nós hoje chamamos de romã. Ela era chamada mala granata, “fruto de grãos”, ou mala romana, “fruto romano”. O interessante é que, na Espanha, o que resultou hoje é a granada, de granata, e em Portugal, a romã, de romana.

Os romanos, aliás, chamavam as frutas tanto de fructus como de pomum. Daí que uma plantação de árvores frutíferas hoje se chama pomar.

Temos aqui uma casca de maracujá, que vem do Tupi moroku’ia, o nome da fruta.

Eles chamavam o abacaxi de iwa’kati, “a fruta que tem cheiro forte”, uma palavra que diz muito sobre ele.

Não, Sidneizinho, não quero ouvir nenhuma piada sobre frutas, não. Aliás, saia de perto da Maria Tereza que ela é inocente demais para você estar junto. Vá para o fundo da sala, vá.

Pulando para bem longe, sabiam que o abacate tem o seu nome oriundo de um idioma do México chamado Náhuatl? Lá ele era chamado awácatl. Eles também deram nome ao tomate, que era tomatl para eles. E também ao chocolate, chocolatl.

Lembrei-me do chocolate porque vi todo esse chocolate derretido na sua mão e ao redor de sua boca, Artur. Vá se lavar, menino! E não se esqueça de voltar.

O Náhuatl cacahuatl deu também o nome ao que os espanhóis chamam de cacahuete, e que nós por aqui chamamos de amendoim. Esta palavra vem do Tupi manu-ui, com influência de amêndoa. O pessoal de fala espanhola na parte mais ao sul do nosso continente usa maní, também baseado no Tupi.

Não senhor, Sidneizinho, essas histórias sobre o amendoim são bobagens e eu não quero falar nisso. Sim, sei que estou aqui para ensinar, mas isso vocês só podem aprender mais tarde. E vamos mudar de assunto.

Vejam esse rastro de pingos de laranja. O nome dela veio do Sânscrito naranga, através do Persa narang e do Árabe em duas formas, narang e larang. É por isso que dizemos laranja em português e naranja em Espanhol.

Falando em Árabe e em cítricas, temos o limão, de limun. Parente dele em idioma de origem e família é a lima, de limâ.

O que me lembra a tangerina, que recebeu esse nome do porto de Tânger, cidade do Marrocos perto do Estreito de Gibraltar, que era um local de exportação da fruta para a Europa.

Essa mesma fruta é chamada no sul do Brasil de bergamota. Esse nome vem do Turco mustafa beg armudi, “a pera do Príncipe”. Não se sabe que confusão os italianos fizeram entre as frutas, que passaram o nome para bergamotta e assim ficou.

Em outras partes do país, esta fruta é chamada de laranja mexeriqueira ou mexerica. Esta palavrinha vem de mexericar, no sentido de “denunciar”, já que o seu cheiro denuncia imediatamente quem foi que comeu a fruta e espalhou as cascas por aí. Sabia, Oscarzinho, que está com essa cara de santo aí no cantinho? Para completar: mexericar vem de mexer.

É bom que todos aprendam a não mexer com quem está quieto, pois um belo dia podem se surpreender provocando um ataque do coração em alguma pessoa esgotada com suas malcriações e aí não haverá mais professora para dar aulinhas para vocês e vocês vão ter que ir pedir esmolas nas ruas e dormir nas calçadas e…

Não, não! Não chorem! Era tudo uma brincadeirinha! Vocês não podem me levar a sério quando eu estou assim cansada de traquinagens. Calma, que a Tia Odete vai contar mais coisas interessantes. Olha aqui que artístico, esse pedaço de melancia atirado contra o teto! Muita criatividade mesmo. Miró não faria melhor.

Sabiam que o nome dessa fruta também vem do Árabe? Pois consta que se chamava bátikha balanci, “melão de Valência”. Como todos vocês ainda não sabem, os Árabes passaram longo tempo dominando a Espanha, tanto que a ajuda de arabistas, especialistas em idioma Árabe, é indispensável para se fazer um dicionário de Espanhol.

E o melão veio do Grego melopepon, passando pelo Latim melo e pelo Italiano mello. Aqui tem um pedaço de casca no peitoril da janela, vejam só que lindo!

Em Espanhol, o nome da melancia é sandía. Ele vem do Árabe sinddyya, “natural da região do Sind, no Paquistão”.

Muitos de vocês talvez não conheçam ainda as palavras sandice, sandeu, que querem dizer “loucura, louco”. Pois elas vêm do nome dessa fruta em Espanhol.

Em determinado momento se associou o tamanho da cabeça de crianças com macrocefalia, uma doença em que os líquidos do cérebro não drenam direito e que comprime o cérebro e aumenta o crânio, com a forma e tamanho da melancia.

Como não havia tratamento ainda para isso, as crianças tinham retardamento mental e a ligação com a loucura veio logo.

E está cientificamente provado que crianças que se portam mal com sua professora querida correm sério risco de acordar sandias. Portanto, agora vão para casa e prometam que vão se comportar.

E façam um favorzinho: digam para as mamães que a nossa experiência da Merenda de Frutas está cancelada e que é para não mandarem mais frutas com vocês, está certo?

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