Em: X-8 Detetive Etimológico

GRAFIA

A noite se espalha pelas ruas do bairro. O mesmo faz o lixo nas suas calçadas. Também o perfume de bacon do Bar do Garcia e os perfumes das moças que trabalham nos pequenos apartamentos do Ed. Éden, que tem três andares e fica bem ali na esquina.

Enfim, uma noite normal de trabalho, inclusive para o bravo detetive que se dedica à Etimologia e atende às palavras ansiosas por descobrirem suas origens, de onde vêm e para onde vão, essas bobagens que as palavras valorizam muito.

Hoje nosso herói, em sua gabardine de sempre, atende a palavra Grafia. Ela está sentada à frente dele, impressionada com a sua frieza e coragem. Tudo o que ele diz de si mesmo o iguala aos maiores detetives de ficção e ainda sobra.

Infelizmente suas ações foram tão perigosas que não sobrou ninguém vivo para testemunhar, de modo que vamos ter que acreditar nele mesmo.

- Hum, Grafia, hein? – diz ele, em sua voz fria e metálica, que ele passa dias ensaiando ao espelho – você deu muito o que falar ao mundo. Ou o que escrever.

- Veja, você vem do Grego graphein, “escrever”, originalmente “arranhar, sulcar”.  As primeiras letras foram raspadas, sulcadas na pedra ou na argila, e a humanidade nunca esqueceu esse fato, por mais que tenha sofisticado mais tarde os modos de registrar seus pensamentos.

Seus parentes se espalham pelo mundo e são usados a toda hora. Por exemplo, veja gráfico, de graphikós, “referente à escrita”, de graphé, “escrita”.

Na Grécia se usava o grapheion, um instrumento para escrever, que deixou como descendente em nosso idioma o gráfion, hoje em desuso porque foi substituído pelo Latim stylus, que inclusive acabou sendo usado para designar a maneira de uma pessoa escrever.

Entre a tietagem de nosso mundo se usa muito pedir autógrafos, palavra que vem de graphé mais auto-, “próprio, de si mesmo” – ou seja, uma escrita pela própria pessoa.

Modernamente a tendência das pessoas famosas parece ser rabiscar um “X”, dada a ignorância geral da escrita que toma conta dos seres humanos.

Mas vamos deixar de pessimismo e lembrar que um primo seu é o parágrafo.  Hoje este se representa através de uma mudança de linha, indicando que o assunto seguinte varia de foco.

Exceto nos escritos de filósofos, que acham que quanto mais tijoludas forem suas páginas, mais profundas serão.

Mas originalmente o parágrafo era um sinal usado para marcar as diferentes partes de um coro da tragédia grega.

Em Grego, a palavra gramma, derivada de graphé, queria dizer “letra do alfabeto”. Depois, sendo as letras pequenas, passou a designar um “peso pequeno”.

Daí que hoje uma unidade de massa seja o grama. É por isso que devemos pedir duzentos gramas de alguma coisa, não “duzentas”. Esta palavra é masculina; não confundir com a grama de nossos jardins, que veio do Latim gramen, “relva, grama” e é do gênero feminino.

Mas isso que eu falei foi apenas um circunlóquio, quero dizer é que dessa gramma, “letra”, saiu a expressão grammatiké tékhne, “arte ou ciência da escrita”, ou seja, a nossa Gramática.

Esta contém o conjunto de regras para que possamos garantir que nosso idioma seja reconhecido e compreendido através da distância e do tempo.

Infelizmente, muitas pessoas acham que não é necessário saber nada disso, que elas se fazem compreender de qualquer jeito.

Muitos gostam de fazer palavras cruzadas e anagramas. Esta palavra vem de anagrammatizein, “trocar letras”, formada por ana-, “para trás, contra”, mais gramma.

Existe também o diagrama, de diagramma, “figura geométrica, figura representada por linhas”, de diagraphein, “delinear, marcar com linhas”, de dia-, “através”, mais gramma.

E não nos esqueçamos do programa, de programma, “informação pública escrita”, de prographein, “escrever para uso público”, de pro-, à frente”, mais graphein.

Lá pelo século XIX esta palavra passou a ostentar o significado de “plano ou esquema definido”.

Há uma palavra sua parenta de muito pouco uso fora dos círculos eruditos: é o grimório, do Francês grimoire, que designava “gramática latina, incompreensível para os não-estudantes”, e que hoje quer dizer “livro de fórmulas mágicas usado por bruxas e gente de seu tipo”.

Escrever certo é importante, não é? Todos devemos primar por isso, todos devemos seguir a ortografia, que vem de ortós, “reto, correto, direito” quando vamos fazer um texto ou mesmo um bilhetinho.

Muitas pessoas dizem: “Foi ele que escreveu isso, sim, reconheci a caligrafia dele”. Isso nem sempre é verdade, pois essa palavra quer dizer “escrita bonita”, de kaligraphia, de kallos, “belo, bonito”.

Nesse caso, deve-se dizer apenas “Reconheci a letra dele”, ou a sua “grafia”.

E quando a gente vai ao médico, muitas vezes ele nos manda fazer um eletrocardiograma, que é o registro em sinais da atividade elétrica do coração, como se deduz ao ler.

E por hoje ficamos por aqui. Se ficou com fome depois de aprender, recomendo o Bar do Garcia, ali na frente. Tenho um convênio  com ele; se você levar este papel com meu autógrafo, pode ser que ele lhe dê dez por cento de desconto, embora eu não possa garantir.

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Em: X-8 Detetive Etimológico

Palavra, Etc.

Um bairro cinzento tanto de dia quanto de noite, sujeira pelas ruas, descaso municipal, descuido dos habitantes, perigo rondando – o local onde se situa o Ed. Éden, com três andares contendo apartamentos onde as pessoas se dedicam a estranhas atividades.

Um deles é o do impoluto X-8, o Detetive Etimológico, que ganha a vida atendendo palavras e descobrindo-lhes a origem. Cobra preços absurdos por isso, mas palavras são seres ingênuos. Tanto que são a arma preferida dos políticos, que as usam para fins que fariam corar um poste de concreto.

Hoje ele está esperando um grupo que marcou hora para saber de onde veio. Ele faz desconto para grupos, uma espécie de charter etimológico.

Batem à porta e ele manda abrir. Entra um grupo de palavras meio assanhadas por estarem na presença de tão famoso profissional, meio nervosas por terem ido a um bairro tão assustador, muito curiosas por conhecerem seus antepassados.

O detetive, sumido em sua enorme gabardine cor-de-palha e chapéu marrom, as recebe fazendo a voz fria que se espera de um personagem tão Anos Cinqüenta.

- Sentem-se aí no banco. Querem saber suas origens, hein? O preço é o que tínhamos combinado pelo telefone. Vou aceitar agora.

Uma das palavras lhe alcança um maço de dinheiro – o famoso detetive só aceitava pagamento em cash, como se diz em bom Português.

Ele confere o valor cuidadosamente, guarda as notas na gaveta da escrivaninha. Olha para uma das consulentes e começa a demonstrar a sabedoria cuidadosamente decorada pouco antes, o que sempre causava grande impressão:

- Muito bem, podemos começar com você aí no meio, Palavra. Você veio para nosso idioma do Latim parabola, que por sua vez veio do Grego parabola , “comparação”, literalmente “ato de atirar ao lado”, formada por para, “ao lado”, mais ballein, “atirar”.

A palavra Palavra fez uma tímida pergunta:

- E o que tem a ver isso com “comparar”?

- É que, se um objeto estiver ao lado de outro, podemos ver o que eles têm em comum ou não. Mas houve um fator sorte para você ser o que hoje; o predomínio de parábola sobre o que os romanos usavam para dizer palavra, que era verbum, veio da linguagem eclesiástica.

Mas está ali nossa outra cliente, Frase. A senhora, que pode ser definida como “um conjunto de palavras expressando um significado”, veio do Latim phrasis, “dicção”, do Grego phrasis, “modo de falar, locução”, de phrazein, “expressar, contar”.

Frase e Palavra ficaram se cutucando e dando risadinhas.

O detetive se voltou para outra cliente:

- Parece que você, Sílaba, não está mais se agüentando de tanta curiosidade. Acalme-se que já vou lhe contar que você vem do Latim syllaba e do Grego syllabe, “um conjunto de letras ou sons”. Literalmente, isso queria dizer “o ato de pegar em conjunto”, de syn-, “junto”, mais lambanein, “tomar, pegar, agarrar”.

A palavrinha pareceu ficar encabulada por ter gregos e romanos em seu passado.

O intrépido profissional prosseguiu, provocando outra consulente:

- E você, Letra? As frases, palavra, sílabas, são formadas por letras, não é? Quer saber de onde você veio?

A palavra assentiu com a cabeça, envergonhada mas com os olhos brilhando de ansiedade.

- Sabemos que você deriva do Latim littera, “letra”, possivelmente do Grego diphtera, “tablete de escrita”, mas isto não é certo.

O plural latino litterae queria dizer também “carta, documento, literatura”, de onde literato, literatura, etc.

Agora temos ali parágrafo, do Latim paragraphus e do Grego paragraphos, “marca à margem de um texto para marcar uma mudança de sentido”, de para-, “ao lado”, mais graphein, “escrever”. Essas marcas eram importantes numa época em que o modo de falar era importante para destacar o grau de cultura de uma pessoa. Hoje sabemos que uma pessoa, mesmo em elevados cargos públicos, não se importa com isso.

Mas em vez de continuar a me queixar do nível atual da cultura, vou apenas dizer que essa marca acabou sendo transformada num simples recuo de linha.

E Fonema ali, tão em silêncio? Sua origem é o Grego phonema, “som”, de phonein, “soar, falar”, de phone, “som, voz”. Sua origem foi traçada até mesmo o Indo-Europeu bha-, “falar”.

E finalmente temos ali meu muito conhecido Étimo, que vem do Grego etymon, “sentido verdadeiro”, de eteos, “verdade”.

Bem, era isso por hoje. Sempre que desejarem conversar, combinem por telefone que estarei à disposição mediante módica taxa.

E as palavras saíram, apressadas para colocar uma boa distância entre elas e aquele bairro tão assustador.

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Em: Etimologia no Maternal

UM TEXTO

- Passe para cá estes papéis, me-ni-no! Coisa inacreditável, este Zorzinho tem tamanha vontade de escrever que vive enchendo resmas de papel com rabiscos, mesmo sem saber o que faz. Que ele sirva de exemplo para os outros: com essa vontade de ser escritor, ele há de conseguir um bom emprego algum dia.

Parem de chorar de inveja uns, de debochar outros e de não entender o que está acontecendo outros ainda.

E parem de pular e gritar, todos! Vamos nos reunir aqui no meio da salinha de aula para aprender alguma coisa sobre palavras que usamos para descrever as características de um texto.

Certo, Lilice, já digo de onde vem resma. Ela vem do Árabe rizma, “pacote, conjunto de coisas embrulhadas”, do verbo razam, “enrolar, embrulhar, envolver”. Atualmente designa um conjunto de quinhentas folhas de papel.

Olhem só como brilharam os olhos do Zorzinho. Imaginem ele com tanto papel à disposição! Quanto rabisquinho, quanta besteirinha!

- Sim, Lúcia? Ah, você já ouviu falar em parágrafo, muito bem. Essa palavra indica um recuo na linha ou o conjunto de linhas entre dois recuos. Vem do Latim paragraphus, “sinal para começar nova parte de um discurso”, que era uma marquinha que parecia a letra “P” maiúscula virada.

Passou para o Latim a partir do Grego paragraphos, “sinal na margem do papel para indicar uma mudança de sentido do texto”. O sentido literal era “escrito ao lado”, já que se formava de para-, “ao lado”, mais graphein, “escrever”.

- Está certo, Ledinha, você esteve na semana passada na margem de um rio e não viu nenhum papel ali. Acalme-se, não precisava haver mesmo.

É que essa palavra vem do Latim margo, “beira, limite”, e não se aplica somente ao papel. Aliás, foi inventada muito antes de existir o papel, pois vem do Indo-Europeu mereg-, “beira, limite”.

- Como é, Valzinha? Sua mãe chama de “marginais” uns vizinhos de vocês? Bem, decerto eles são escritores e precisam cuidar muito das margens… Ahn, eles vivem sendo presos e fugindo da cadeia?

Bem, deixe seus vizinhos para lá, que não estamos aqui para furungar na vida alheia. Só posso garantir que o uso da palavra marginal é do século 16 e primeiro queria dizer “escrito à margem de um papel”, de onde passou a significar “sem importância, de pouco valor”.

Mais tarde passou ao sentido de “pessoa na periferia, à margem da sociedade”.

- Sim , Joãozinho? Ai, que gracinha, quer declamar uns versinhos para as meninas? Pois não vai fazer isso coisa nenhuma, que eu já conheço o teor das suas artes.

Fique aí sem dar um pio e aprenda que verso vem do Latim versus, “linha de escrita”, particípio passado do verbo vertere, “dobrar, virar”, de uma fonte Indo-Européia wer-, “virar”.

Aqui se faz uma bonita metáfora sobre o caminho que o arado faz até o limite de um campo e o ponto onde ele vira para começar uma linha paralela à anterior.

É mais um indicativo da sociedade agricultora que era a romana quando se estabeleceu.

Pare de protestar, menino. Essa palavra acabou se aplicando ao sentido de “composição de poesia com métrica” – isto é, ritmo – lá pelo ano de 1300. Isso porque esses poemas apresentavam as linhas bem delimitadas para que o leitor pudesse acompanhar o ritmo ao declamar.

Ainda com relação a versus, esta palavra se usa hoje tal como era no Latim para indicar “oposição”, como em “time A versus time B”, pela noção de “virar-se contra, enfrentar”.

E linha vem do Latim linea, “fio, cordel”, pela semelhança com um objeto comprido. A palavra se fez a partir de lineus, “feito de linho”, um tecido muito usado à época.

Tudo isso faz parte de um texto, que nos traz mais uma bonita metáfora.

Textus, que queria dizer “narrativa escrita”, originalmente tinha o significado de “material tecido”, do verbo texere, “tecer”.

Não é bonita essa comparação do que escrevemos com uma trama tecida, com cada fio urdido em seu lugar, para formar algo que transcende o material inicial?

Aninha, eu sabia que você ia gostar, mas isso não é pretexto para pular, gritar e fazer bagunça.

Notaram a semelhança entre as palavras? Isso mesmo, pretexto vem de praetextus, “disfarce, cobertura”, formado por prae-, “à frente”, mais textus. A imagem é a de se atirar um pano sobre algo para poder agir debaixo dele, às escondidas, coisa que certos aluninhos vivem querendo fazer.

- Hein? Não, Ledinha, o seu caderno novo não é de “aspiral”, não. Essa palavra não existe em nosso idioma, é uma deformação de “espiral“, que veio do Grego speira, “guirlanda, algo torcido, volteado”.

Mesmo dizendo espiral não estaremos dizendo a palavra certa no caso do caderno. A espiral é uma figura geométrica plana; as voltas em três dimensões que esse aramezinho que parece uma mola dá formam o que se chama corretamente de helicoidal.

Olhem só quem acordou ali. Não, Soneca, não estamos falando em helicópteros, embora a raiz seja a mesma.

Estas palavras vêm do Grego helix, do verbo heilein, “virar, torcer, enrolar”, que acabou nomeando também as hélices dos aviões.

Certo, Deli, esta molinhas seguram as folhas e também as capas dos cadernos. Esta palavra vem do Latim cappa, originalmente uma peça de roupa que cobria também a cabeça, caput.

Enfim, quando você aprenderem a escrever vão poder fazer melhor os seus textos.

Por enquanto, fiquem nos rabiscos. Está na hora de sair, amanhã tem mais.

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