Palavra estalactite

CAVERNAS

 

Eu era adolescente e estava rondando meu avô em seu gabinete cheio de objetos estranhos e livros quando vi uma bonita pedra pontuda, clara e bem lisa. Claro que a peguei e perguntei de que se tratava.

– Isso pode ser a sua condenação à morte, meu rapaz. Se a deixar cair e ele quebrar, pego minha espada ali da parede e acabo com você.

Eu sabia que ele não faria isso. Várias vezes ele me tinha feito ameaças terríveis, que acabava não cumprindo “porque não queria sujar o tapete”.

– Sei que você não vai se acalmar enquanto eu não lhe contar alguma coisa, então sente aí no seu banquinho que eu vou falar, apenas para me livrar de você.

Mas eu estava perfeitamente a par que ali começava mais um momento daqueles que nós dois adorávamos. Acomodei-me.

– Isso é a ponta de uma daquelas colunas de pedra que pingam do teto de uma caverna e se chamam estalactites, do Grego stalaktos, “o que pinga, o que cai em gotas”, de stalassein, “pingar, passar fracionadamente”, do Indo-Europeu stag-, “pingar, gotejar”.

– O senhor entrou numa caverna para pegar isso?

– Bem, isso foi em épocas muito antigas, antes de Pedro Álvares Cabral chegar às nossas terras.

Meu avô tinha certa fama familiar de ser misterioso, de ter feito coisas estranhas na vida.

– Mas fique quieto ou não vou poder explicar que a parte de baixo dessas formações se chama estalagmite, nome feito a partir da mesma origem que o seu correspondente.

E que caverna veio do Latim cavus, “vazio, com material retirado”, o que é uma descrição bastante adequada.

– Já sei, Vô, era assim: na Idade da Pedra nossos antepassados montavam seus bares em cavernas, onde se reuniam para beber e conversar, de onde veio a palavra taverna. Pode aplaudir, não se acanhe do orgulho de ter um neto tão inteligente!

– Vou é chamar a Polícia porque você está gastando a pouca paciência que me resta. Taverna, seu tolo, vem do Latim taberna, “loja, local de repouso com comida, taverna”, originalmente “abrigo grosseiro, barraca”. Agora fique quieto e pare de inventar!

Para mim estava claro o quanto ele gostava de minhas invenções, mas nenhum de nós jamais confessaria aquilo.

– Prosseguindo, há diversos sinônimos para essa palavra. Um deles é lapa, possivelmente do Celta lappa, “pedra, rochedo”.

Outra é gruta, que vem do Grego krypta, “lugar subterrâneo, lugar coberto”, do verbo kryptein, “tapar, encobrir, esconder”.

Na Idade Média, quando se começou a explorar os prédios da época em que Roma estava no auge, descobriram-se pinturas decorativas nas suas paredes, que chamaram, em Italiano, pitture grotesche, ou seja, “pinturas de grutas”.

A partir do significado inicial de “fantástico, diferente, irregular”, pois os temas originais pagãos eram muito diferentes dos usos posteriores, se desenvolveu o de “ridículo, extravagante, bizarro”.

Ocorre-me agora a cova, que tem a mesma origem de caverna.

– Uma vez o Pai me disse que tinha visitado umas furnas com o senhor.

– É verdade. A origem dessa palavra parece ser o Latim furnus, “forno”, por se tratar de um espaço restrito e de pouca circulação.

– Deu para notar que todas essas palavras vieram do Grego ou do Latim. Eram só eles que se enfiavam em buracos debaixo da terra?

– Nem todas. Por exemplo, itaoca se usa para “lapa, caverna”, e vem do Tupi i’ta, “pedra”, mais oka, “casa”. Bem expressivo, não?

Também temos uma palavra muito pouco usada que é algar, do Árabe al-gar, “cova, caverna, gruta”. Outra que comparece muito pouco nos textos atuais é aljube, do Árabe al-jubb, “poço, cisterna”, que agora adquiriu o sentido de “cárcere, prisão, caverna”. Se você incomodar muito, eu o coloco num aljube que existe escondido aqui no nosso pátio.

– Nada disso, Vô, eu sou um anjo!

– Hum. Enfim, passando adiante nesta infrutífera tentativa de colocar algo em seus neurônios, posso falar em espelunca.

– Ei, é assim que nós chamamos o bar lá do colégio!

– Pois saiba que vem do Grego spelynx, “caverna, cova de animal”. Como estas não costumam ser lugares lá muito ordenados e bem-cheirosos, este nome foi dado a estabelecimentos de pouca qualidade em serviços e higiene. Mas daí deriva também toda uma ciência, a espeleologia. Ela ajunta o sufixo logia, de logon, “tratado, estudo”, à palavra grega inicial. Sua área de estudo é a formação e constituição das grutas e cavernas.

– Vejam só…

– Estou vendo pela sua expressão que você imaginava que tinha algo a ver com espelhos, não é?

– Vamos pular essa parte, Vô, conte mais –  disse eu, meio encabulado.

– Também se pode usar para falar em cavernas o socavão, “gruta, lapa, cavidade numa encosta”, que vem de socava, do Latim sub, “abaixo”, mais cavus, o mesmo que originou caverna.

Mas cavidades debaixo do solo não são apenas naturais. Uma mina, por exemplo, é uma espécie de caverna feita pelo homem para retirar recursos subterrâneos. Como as civilizações da Grécia e de Roma não se situavam em províncias minerais especialmente ricas, elas não originaram essa palavra, que veio do Céltico meine-, “veio mineral, túnel”.

Outro exemplo de escavação artificial é o túnel, do Inglês  tunnel que deriva do Francês tonel, “barril”, que acabou desenvolvendo o sentido de “cano, tubo” e mais tarde o de “passagem subterrânea”.

E já é hora de parar, antes que eu lhe coloque uma pá nas mãos e o faça cavar uma mina para ver se não há ouro aqui debaixo do terreno.

Resposta:

Inimigo No Clube

 

Noite. Parece ser sempre noite no bairro que a Prefeitura mandou apagar do mapa da cidade. A sensação é de que, se é que o dia chega ali, durante ele nada acontece.Os habitantes devem estar em suas casas e apartamentos mal-cuidados dormindo, como se fossem morcegos.

Só quando o sol se põe e o manto escuro se estende por aquela região é que eles saem de suas tocas para retomar as suas atividades.

Hoje é sábado e há muitas pessoas e palavras pela rua. Há um movimento grande afluindo para um dos prédios, onde fica o que alguns chamam orgulhosamente de Clube Cultoral, apenas “Cultoral” para a maioria.

Este é um prédio que, em melhores dias, lá pela época dos dinossauros, abrigou um bom restaurante. Daí ser espaçoso e ter uma grande escadaria que leva ao salão de festas aparquetado na parte superior.

A maioria das festas de casamento e aniversário das famílias dos comerciantes endinheirados é feita ali. Note-se que o termo “endinheirado” é relativo, como tudo neste mundo.

Mas um Clube deste tipo por ali? Sim; ele fora doado à comunidade por um benfeitor, Arkady Polikarpov, um estrangeiro possuidor de grande número de prédios na região.

Ele era considerado um benfeitor devido aos baixos preços que cobrava pelo aluguel do que, com certo exagero, ele chamava de “apartamentos”. Como compensação, ele não mexia um dedo para qualquer tipo de conserto nos ditos cujos. E, como a Prefeitura havia desistido há muito de cobrar impostos no bairro, os lucros dele não eram dos piores.

A idéia de doar o prédio para um clube lhe fora delicadamente sugerida de certa feita, por um grupo de habitantes escolhidos a dedo entre os que apresentassem maiores músculos e menores escrúpulos.

Foi comovente a cena que trouxe à luz o Clube: o grupo de homens fortes, que deviam ser todos mancos, já que portavam pesados bastões de madeira; Seu Arkady, sendo amigavelmente levado no meio de um círculo protetor deles numa noite em que havia saído sem guarda-costas, para os fundos de um terreno baldio; o vento espalhando papéis ao redor enquanto a conversa séria se desenvolvia.

Para satisfazer a curiosidade geral sobre a reunião, um representante do grupo falou mais tarde ao Boletim do Bairro, a gazeta local:

– “Sssguinte: a gente tava precisando assim de um lugar prá gente se reunir e até prá tirar a gurizada da rua, que ali dá muita coisa que não presta e a gente também é gente, quer dizer, a gente temos o direito de se reunir num lugar assim legal, com pouca barata, coisa fina, prá fazer aquele churrasquinho de fim de semana, as festa de casório, um lugar prá curtir cultura em geral, quer dizer, com uma boa TV prá se ver a novela e o futiba, uma pista prá se dançar funk e pagode. E ali onde era o estacionamento, já que ninguém tem carro por aqui, a idéia é fazer depois uma quadrinha prô futebol de salão e fazer os campeonatinhos e tal e coisa… Enfim, legal, muito legal, e a gente mal explicou isso e o velhinho aquele olhou prá gente e afrouxou na hora e disse que nos dava tudo se a gente deixasse ele ir embora logo e claro que a gente topou e digo mais: nem precisamos tocar um dedo nele, juro pela minha falecida véia”.

Passando da linguagem coloquial para uma mais jornalística, a entrevista saiu desta maneira no Boletim:

“Nosso entrevistado, que solicita não ser identificado, informou a este prestigioso órgão da imprensa local que um grupo de lídimos representantes da comunidade se dirigiu, à meia-noite de terça-feira próxima passada, ao conhecido proprietário de imóveis, Sr. Arkady Polikarpov, levando-o para um local de reuniões com o fito de expor alguns legítimos anseios dos habitantes de nosso bairro.

Tiveram com ele uma entrevista privada de alto nível, onde foram expostas as necessidades culturais da sociedade, a luta para evitar más companhias para os jovens, o prazer que um local para atividades intelectuais traria a todos. Os argumentos foram solidamente apoiados em fatos palpáveis.

O Sr. Arkady os recebeu cordialmente e, com pouco tempo de produtiva reunião, informou que, mesmo que parecesse mentira, sempre tivera o plano de fazer uma doação ao bairro que contemplasse justamente os pedidos que lhe eram feitos agora.

Assim, em clima de mútuo respeito e geral alegria, para não dizer até de frenesi cívico, definiu-se que a comunidade poderá tomar conta do prédio do antigo e falido Restaurante Esplanada e instalar ali, com recursos próprios, um Clube que certamente será um orgulho para os pacíficos cidadãos deste progressivo bairro. O Sr. Arkady não pôde receber nossa reportagem mas mandou dizer que “é isso aí.”

Esta é a história inicial do Clube Ultrapassador de Toda a Ralé, ou Cultoral. A simples existência dele demostrou que as forças vivas do bairro existiam e estavam operantes, para alegria de todos.

Há muitos outros fatos de interesse a narrar sobre essa época, como a controvérsia para escolha do nome e o inexplicável incremento dos furtos e assaltos a lojas de ferragens, móveis e material de construção dos bairros próximos, mas isso não vem ao caso agora.

O que conta é que o pessoal estava contente com seu local de reuniões.

Nesta noite de sábado a situação é normal por ali. Palavras e gente se misturam democraticamente. Não há nenhuma festa hoje; sendo amplo o lugar, há grupos que se formam conforme os diversos interesses intelectuais.

Uns fazem uma nervosa roda em torno de um radinho de pilha (“Futebol é Cultura”, não se esqueçam!).

Os mais jovens estão no salão de baile, dançando os mais elevados lançamentos musicais.

Só pagodeiro famoso, que eles não gostam de baixaria. Como as lâmpadas do salão de baile apresentam uma estranha tendência a desaparecer nos sábados, eles têm que dançar no escuro, mas os casais se esforçam, o que se pode perceber pelos gemidos que vêm de lá.

As meninas do bairro, entre uma dança e outra, se reúnem na escadaria para contar segredos de beleza e para comentar as coisas que vão fazer quando forem famosas modelos internacionais. O fato de serem todas gordinhas – ou até mais que isso – e de terem as peles marcadas pela acne não vem ao caso.

Ali adiante, um grupo de egressos de certos estabelecimentos troca impressões sobre condições de conforto, advogados, carceragem e outros assuntos envolventes.

Em pequenas mesas a um canto, junto a uma pilha de caixas vazias de papelão, os mais refinados se dedicam à Matemática. Mais especificamente, ao Cálculo de Probabilidades, jogando cartas ou dominó.

Todos os grupos são movidos a cerveja, naturalmente, o que faz a alegria do Garcia do Bar. Quando ele participou da licitação para o economato do Cultoral, bateu todos os concorrentes. Literalmente.

Instalou ali o Fininho, seu preposto, extraordinariamente parecido com uma ratazana magra, para gerenciar o local.

Este é o panorama geral e normal para a ocasião.

Quando o movimento estava no auge, entrou um sujeito com roupa de quem não quer chamar a atenção: gabardine cor de areia, chapéu combinando bem afundado na cabeça, mãos nos bolsos.

Todos sabem quem é ele: o maior (ou melhor, o único) intelectual do bairro, o célebre detetive X-8, o grande pesquisador de Etimologia, uma das poucas pessoas a ganhar dinheiro com essa matéria no mundo. Alguns o cumprimentam.

Em poucos minutos, estão todos de novo concentrados em suas atividades e deixam de reparar nele, o que é importante para os seus planos.

Uma providencial briga na entrada do salão lhe dá a oportunidade desejada. Enquanto todos olham para lá por alguns minutos, ele se desloca para trás das caixas de papelão próximas aos jogadores e consegue se ajeitar dentro de uma ampla caixa de geladeira.

Acomoda-se ali, pega seu inseparável canivete suíço feito na China, com lâmina de 3 centímetros, e faz
discretamente orifícios que lhe permitem ver diversos pontos do local sem ser visto.

O tempo corre, todos se divertem, nada acontece que não se possa esperar por ali. Quando X-8 está sentindo fome, sede, dor muscular e um certa sensação de ridículo que o levam a pensar em ir embora, seu coração se acelera.

Acabara de entrar um indivíduo normal pela porta. Bem composto, roupa discreta, óculos redondos, limpo, sem ar suspeito. Ora, isso não era de esperar no Clube. Seria quem o detetive aguardava?

Dali não dava para ter certeza, mas quando ele se aproximou das mesas de jogo foi possível ver melhor: realmente se tratava de Croquezz.

Ele, o Perturbador de Palavras, aquele que, por uma raiva inexplicável de X-8 (a menos que fosse inveja), renegara a Faculdade de Etimologia e seus sólidos princípios, começando uma carreira dedicada ao Mal.

A emoção da caçada tomou conta de X-8 dentro da caixa; esquecido das dores, ele estava alerta, pronto para defender o Bem.

Ele tinha muito em comum com os felinos: era um caçador paciente. Esperaria até que o criminoso fornecesse provas incontestáveis antes de agir.

Enquanto isso, o bandido trabalhava. Chegou-se mansamente, com ar de sonso, cumprimentou pessoas e palavras com um aceno de cabeça, puxou uma cadeira e ficou olhando o jogo. Mansamente foi se enturmando com o grupo e, daí a meia hora, estava torcendo como todos.

X-8 estava fascinado. A técnica do malfeitor era notável. Agora ele estava pagando rodadas de cerveja e começando a entoar boleros. De repente, nem deu para ver como, ele dirigiu a conversa para a origem de algumas palavras do grupo:

– Você aí, Chicória, sabia que o seu nome vem do Espanhol chico, “pequeno”? A história é interessante: durante o reinado de D. Mendaz II da Espanha, cognominado El Chancho por seus hábitos higiênicos, foi introduzido no país um novo vegetal comestível vindo da Pérsia.

Sendo as terras da Espanha especialmente adequadas ao crescimento da nova planta, logo houve superprodução. Não havia o que fazer com ela, pois nenhum país se interessava em comprar aquilo; El-Rei, que detestava a planta, determinou que ela fizesse parte da mesa de todos diariamente, a única exceção sendo a dele.

Pensava em acabar com ela usando os dentes dos súditos, o que lhe pareceu uma grande idéia. E realmente conseguiu levá-la quase à extinção através desse método.

Ele teve um reinado longo, que seria mais longo ainda se o povo, revoltado, não tivesse irrompido nos seus aposentos e feito o soberano comer da tal planta até seus intestinos explodirem.

Os nobres não puderam ajudá-lo na ocasião porque estavam muito ocupados fazendo churrasco na cobertura do castelo. Aliás, nem ouviram nada e ficaram muito surpresos depois com o que havia ocorrido.

Mas a revolta chegou tarde; durante 25 anos, o povo se havia alimentado preponderantemente da tal herbácea, em detrimento de uma dieta equilibrada.

Como resultado, uma geração inteira resultou abaixo do peso e altura esperados. Eles foram chamados Los Chicos – “os pequenos”. Daí o nome Chicória dado à planta.

Um silêncio de espanto saudou a cultura do orador. Aproveitando, ele se voltou para Mimetismo e continuou falando:

– E você, sabia que sua origem é muito próxima do próprio Português? Você vem de “mim” e “metismo”.

Foi assim: um sábio naturalista francês do século do século 16, M. Le Menteur, ao visitar o Brasil e descobrir numerosos exemplos de disfarce entre animais e plantas, cunhou a nova palavra, querendo dizer, mais ou menos, que “mim” se “mete” num aspecto diferente para defesa própria. Ele não dominava muito bem nosso difícil idioma, como se vê.

– E você, Stalactite, sabia que originalmente era usada para designar “salame” e outros embutidos? Seu nome vem de quando as estalagens guardavam pendentes do forro os salames, para que os clientes escolhessem com quais seriam feitos os sanduíches.

Já que pendiam do “teto” das “estalagens”, se fez a palavra Estalactite. Com o fim desse costume, os espeleologistas acabaram aplicando-a às protuberâncias de pedra que pendem das cavernas.

As palavras estavam fascinadas ao redor da mesa. X-8 estava horrorizado dentro da caixa.

Chegou à conclusão de que já havia provas suficientes do crime e que era hora de colocar um fim naquilo tudo.

Seus músculos de aço se retesaram e ele irrompeu de dentro da caixa, rompendo as paredes de papelão em sua sagrada ira. Pulando para o lado de um Croquezz atônito, deu-lhe tamanho soco no queixo que o criminoso ficou desacordado.

Algemou-o e fez um longo discurso de vitória antes de se dirigir à Delegacia de Palavras do bairro próximo arrastando o canalha atrás de si pelos pés, deixando a sua cabeça pervertida bater nas pedras da rua enquanto dava declarações ao repórter do Boletim do Bairro pelo caminho.

Pelo menos era essa a sua intenção, mas não deu muito certo.

O fato é que os músculos dele não eram de aço, estavam encolhidos há tempo e o papelão da caixa era muito resistente. Como resultado, o pessoal das mesas de jogo de repente viu uma das caixas se mexer e tombar de lado, com as de cima caindo sobre ela, enquanto aparecia uma cabeça com chapéu por um rasgão, soltando imprecações cultas tais como “Croquezz Vilão! Cloaco! Agente do furdúncio! Usurpador da Verdade!” e muitas outras.

O criminoso, lesto em sua salvaguarda, fugiu incontinenti para a rua escura. Até que os circunstantes retirassem o amarfanhado detetive daquele labirinto de papelão e alargassem a abertura da face que estava ao redor do seu pescoço para ele poder tirar a cabeça, o meliante se pusera a salvo, voltando para o seu lugar nas trevas do Mal.

Uma saída perfunctória até à calçada mostrou a X-8 que não havia remédio: a oportunidade fora perdida. Ele estava corado de vergonha, desejoso de ir embora e não mais voltar, mas a ética o impediu. Ele tinha que voltar e cuidar da saúde mental das palavras atacadas pelo canalha.

Entrou, pediu silêncio a todos. Explicou a situação, alertou para os desmandos e a malvadeza de Croquezz, pediu para o avisarem se ele fosse visto pelas redondezas.

Depois pediu para se reunir com as três palavras enganadas à mesa de jogos e lhes explicou:

– Pessoal, não posso deixar vocês com a noção errada quanto às suas origens. Chicória, por exemplo, vem do Latim cichoreum, do Grego kikhorion, “chicória” mesmo. Toda a história do rei D. Mendaz é falsa, inclusive ele mesmo.

Quanto a Mimetismo, vem do verbo grego mimesthai, “imitar”, relacionado com mimos, “imitador, palhaço, ator”. Não é palavra nova, não.

E Stalactite nada tem a ver com estalagens e salames. Vem é do Grego stalazein, “filtrar gota a gota”, pois elas são o resultado do lento pingar de água que deposita sais ao longo dos séculos e assim forma esses pendentes.

Pronto. Estava atendido o sagrado dever que ele tinha jurado cumprir na sua formatura. Com a consciência agora tranqüila, cobrou das palavras os seus honorários, mais o deslocamento a pé até o Clube, mais o PANAC (Pagamento por Atendimento Noturno em Acidentes), deu o recibo e saiu para a noite.

Voltou para casa pensando em mil métodos de vingança. Croquezz ainda ia pagar por aquilo!

Resposta:

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!