Palavra letra

Palavra, Etc.

Um bairro cinzento tanto de dia quanto de noite, sujeira pelas ruas, descaso municipal, descuido dos habitantes, perigo rondando – o local onde se situa o Ed. Éden, com três andares contendo apartamentos onde as pessoas se dedicam a estranhas atividades.

Um deles é o do impoluto X-8, o Detetive Etimológico, que ganha a vida atendendo palavras e descobrindo-lhes a origem. Cobra preços absurdos por isso, mas palavras são seres ingênuos. Tanto que são a arma preferida dos políticos, que as usam para fins que fariam corar um poste de concreto.

Hoje ele está esperando um grupo que marcou hora para saber de onde veio. Ele faz desconto para grupos, uma espécie de charter etimológico.

Batem à porta e ele manda abrir. Entra um grupo de palavras meio assanhadas por estarem na presença de tão famoso profissional, meio nervosas por terem ido a um bairro tão assustador, muito curiosas por conhecerem seus antepassados.

O detetive, sumido em sua enorme gabardine cor-de-palha e chapéu marrom, as recebe fazendo a voz fria que se espera de um personagem tão Anos Cinqüenta.

– Sentem-se aí no banco. Querem saber suas origens, hein? O preço é o que tínhamos combinado pelo telefone. Vou aceitar agora.

Uma das palavras lhe alcança um maço de dinheiro – o famoso detetive só aceitava pagamento em cash, como se diz em bom Português.

Ele confere o valor cuidadosamente, guarda as notas na gaveta da escrivaninha. Olha para uma das consulentes e começa a demonstrar a sabedoria cuidadosamente decorada pouco antes, o que sempre causava grande impressão:

– Muito bem, podemos começar com você aí no meio, Palavra. Você veio para nosso idioma do Latim parabola, que por sua vez veio do Grego parabola , “comparação”, literalmente “ato de atirar ao lado”, formada por para, “ao lado”, mais ballein, “atirar”.

A palavra Palavra fez uma tímida pergunta:

– E o que tem a ver isso com “comparar”?

– É que, se um objeto estiver ao lado de outro, podemos ver o que eles têm em comum ou não. Mas houve um fator sorte para você ser o que hoje; o predomínio de parábola sobre o que os romanos usavam para dizer palavra, que era verbum, veio da linguagem eclesiástica.

Mas está ali nossa outra cliente, Frase. A senhora, que pode ser definida como “um conjunto de palavras expressando um significado”, veio do Latim phrasis, “dicção”, do Grego phrasis, “modo de falar, locução”, de phrazein, “expressar, contar”.

Frase e Palavra ficaram se cutucando e dando risadinhas.

O detetive se voltou para outra cliente:

– Parece que você, Sílaba, não está mais se agüentando de tanta curiosidade. Acalme-se que já vou lhe contar que você vem do Latim syllaba e do Grego syllabe, “um conjunto de letras ou sons”. Literalmente, isso queria dizer “o ato de pegar em conjunto”, de syn-, “junto”, mais lambanein, “tomar, pegar, agarrar”.

A palavrinha pareceu ficar encabulada por ter gregos e romanos em seu passado.

O intrépido profissional prosseguiu, provocando outra consulente:

– E você, Letra? As frases, palavra, sílabas, são formadas por letras, não é? Quer saber de onde você veio?

A palavra assentiu com a cabeça, envergonhada mas com os olhos brilhando de ansiedade.

– Sabemos que você deriva do Latim littera, “letra”, possivelmente do Grego diphtera, “tablete de escrita”, mas isto não é certo.

O plural latino litterae queria dizer também “carta, documento, literatura”, de onde literato, literatura, etc.

Agora temos ali Parágrafo, do Latim paragraphus e do Grego paragraphos, “marca à margem de um texto para marcar uma mudança de sentido”, de para-, “ao lado”, mais graphein, “escrever”. Essas marcas eram importantes numa época em que o modo de falar era importante para destacar o grau de cultura de uma pessoa. Hoje sabemos que uma pessoa, mesmo em elevados cargos públicos, não se importa com isso.

Mas em vez de continuar a me queixar do nível atual da cultura, vou apenas dizer que essa marca acabou sendo transformada num simples recuo de linha.

E Fonema ali, tão em silêncio? Sua origem é o Grego phonema, “som”, de phonein, “soar, falar”, de phone, “som, voz”. Sua origem foi traçada até mesmo o Indo-Europeu bha-, “falar”.

E finalmente temos ali meu muito conhecido Étimo, que vem do Grego etymon, “sentido verdadeiro”, de eteos, “verdade”.

Bem, era isso por hoje. Sempre que desejarem conversar, combinem por telefone que estarei à disposição mediante módica taxa.

E as palavras saíram, apressadas para colocar uma boa distância entre elas e aquele bairro tão assustador.

Resposta:

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