Palavra mato

PIQUENIQUE

 

Boa noite, colegas desta reunião das Moradoras do Condomínio Tudibom! Sinto-me muito contente por ter sido convidada por este grupo tão seleto.

Não tive tempo de ler a convocação que me foi enviada, principalmente porque ela era tão mal redigida que senti uma forte dor de cabeça. Daí que solicito que uma alma caridosa me lembre qual o assunto a ser discutido hoje.

Ah, trata-se de combinar um piquenique para o grupo! Ótima ideia, palavra esta que vem do Grego idea, “aspecto, padrão”, literalmente “forma, aparência”, de idein, “ver”.

E piquenique é do Francês pique-nique, possivelmente derivado de piquer, “pegar, apanhar, golpear”, mas aqui com a conotação de “dar uma mordida, um golpe de dentes”. O segundo elemento da palavra pode ser apenas uma reduplicação para rima ou pode derivar de nique, “coisa pequena, sem importância”.

De certa feita, pela época da proclamação desta nossa república, um filólogo brasileiro resolveu criar uma palavra em nosso idioma para que não usássemos esse estrangeirismo.

Dessa ideia resultou o temo convescote, a partir de convívio mais escote, esta significando “a parte da despesa que cabe a cada um”, do Francês escot, de mesmo significado. Devemos reconhecer que a palavra era estranha e pouco convidativa de se usar, de modo que acabou virando um espécime de dicionário. E ainda por cima, apesar de ser para evitar um galicismo, continha uma palavra francesa.

Mas, enfim, parece-me ótimo um pouco de inocente diversão, palavra esta que veio do Latim divertere,”voltar-se em outra direção”, formado por des-, “ao lado”, mais vertere, “virar-se, voltar-se”. A idéia aqui foi a de “voltar a cabeça” para outro lado que não sejam as preocupações.

Nada melhor do que um tanto de recreação, esta do Latim recreare, que significava “criar novamente”, referindo-se ao alento, às forças, à disposição de uma pessoa.

Distração também justifica um proveitoso afastamento das atividades cotidianas. Sua origem é o Latim distrahere, “separar, puxar em diferentes direções”, formada por dis-, mais trahere, “puxar, arrastar”. Trata-se, pois de afastar um pouco o pensamento para coisas agradáveis.

Portanto, caras amigas, devemos colocar em ação tão agradável e proveitosa atividade.

Já que suas expressões levemente pasmadas me mostram que as noções de Etimologia que estou graciosamente concedendo as estão impressionando sobremaneira, colherei a ocasião para entrar na origem das palavras de características comuns aos piqueniques que certamente teremos ocasião de usar durante nossa jornada.

Uma delas são as formigas, que se apresentarão para amavelmente compartilhar conosco os alimentos que levarmos. O nomezinho delas vem do Latim formica, “formiga”, do Grego myrmex (sei, ficou bastante diferente), do Indo-Europeu morwi-, o nome do inseto.

Não são os únicos animaizinhos que encontraremos caminhando por entre a relva e tentando se meter por baixo das nossas roupas, não. Podemos ver também por lá aranhas, do Latim aranea, que inicialmente designava a teia dela, mas depois se aplicou ao pequeno ser em si. Vem do Grego arakne, possivelmente de uma fonte Indo-Européia arak-, “tecer”. Não é bonito?

Mas, se uma delas se parar em sua frente e erguer as perninhas dianteiras, não pensem que ela está prestando alguma homenagem a vocês, não. Deve-se tratar de uma armadeira, que veio de armado, já que elas fazem isso quando estão preparando um ataque. Elas têm um veneno neurotóxico que é de bom alvitre evitar.

Poderemos encontrar também lagartixas, de lagarto, que veio do Latim lacertus, “lagarto”, possivelmente do Indo-Europeu leq-, “torcer, dobrar”, coisa que elas muito fazem, para inveja de mulheres que há muito tempo não conseguem fletir a cintura, não que haja qualquer uma delas aqui, claro.

Estes pequenos répteis podem até subir pelas pernas de uma pessoa, mas não mordem nem têm veneno algum. Devem receber elogios pelo seu trabalho de insetívoros. No meu apartamento há algumas, com quem eu bato papo às vezes. São ótimas ouvintes.

Mas, falando em veneno, quem pode ostentá-lo num piquenique é a lacraia. Seu nome vem do Árabe al-akrab, “escorpião, lacraia”. Há algumas espécies que têm uma picada extremamente dolorida. Mas não se preocupem, seu veneno não mata seres humanos. Exceto no caso de uma imprevisível reação anafilática, claro.

Elas também atendem pelo nome de escolopendra, do Grego skolios, “oblíquo, tortuoso”. O nome vulgar delas é centopeia. O povo escolheu esse nome para dizer que elas têm cem pés, mas isso varia muito. Podem ter de menos de dez até setecentas e cinquenta perninhas, umas simpatias!

Chegam até os trinta centímetros, mas não se preocupem que em nossa região não passam de quinze ou vinte.

Agora, quem tem veneno mais assustador é o escorpião, do Latim scorpio, do Grego skorpios, de uma fonte Indo-Europeia sker-, “cortar”. Eles gostam de se esconder debaixo das pedras que a gente encontra pelo campo.

Mas também é possível encontrar outras lindas manifestações da natureza no ar. Por exemplo, as abelhas, do Latim apicula, diminutivo de apis, o nome do inseto, de origem anterior indefinida. Uma ferroada delas não mata ninguém, mas algumas centenas podem colocar uma vida em risco.

Outro inseto voador são as vespas, do Latim vespa, do Indo-Europeu wops-, “vespa” mesmo. Mas suas picadas doem mais do que matam, não se preocupem.

Ia-me esquecendo das moscas e mosquitos que geralmente se abatem sobre incautos citadinos que visitam nossa regiões rurais à busca de recreação. Mosca vem do Latim musca, “mosca”, do Indo-Europeu mu-, imitativo do zumbido das suas asas em vôo. E mosquito é um seu diminutivo.

Um tipo de mosca de picada particularmente desagradável é a mutuca, do Tupi mu’tuka. Também se chama de tavão ou tabano, do Latim tabanus, que era como eles chamavam essa praga que enlouquece de dor o gado.

Enfim, uns agradáveis momentos no mato, do Latim matta, “floresta, bosque”, repartindo petiscos e fofocas são sempre bem-vindos.

Claro que sempre há que prestar atenção aos vegetais presentes, como a urtiga, do Latim urtica, derivado do verbo urere, “queimar”. Um nome muito justo, pois elas possuem pequenas agulhas nas folhas que injetam histamina, responsável por uma intensa sensação de coceira e ardência na pele da gente.

Assim, caras companheiras, vou anotar o nome das interessadas em fazer nosso convescote.

Ué, o que foi que houve? Todas se lembraram ao mesmo tempo que precisam voltar para seus apartamentos por que eles podem estar se incendiando, recebendo um tsunami ou terremoto ou coisa parecida?

Mas e nossa diversão? Prezadas senhoras, voltem!

Caramba, dá para ver que não adianta. Quando aparece algo diferente para fazer as pessoas não querem. E depois se queixam de tédio.

 

 

Resposta:

FLORESTAS

 

X-8 está esperando as palavras-clientes desta noite. Fora de seu escritório (Ed. Éden, 3º andar, ao fundo do corredor; se a lâmpada do teto estiver queimada, vá apalpando as paredes), o bairro se apresenta escuro e sujo como sempre.

Dentro do escritório não é muito diferente, só que aqui o clima lúgubre e decadente é proposital, cuidadosamente planejado por decoradores caros.

As clientes entram e se acomodam nos bancos de madeira dura. Eles são assim de propósito, para que as consultas não demorem muito. X-8 não quer palavras se demorando para bater papo no fim de uma sessão.

Hoje ele está atendendo palavras relacionadas a grandes grupos de vegetação.

Depois que elas tomaram assento, com muito esparramar de folhas e galhos, o grande profissional fala:

– Sejam bem-vindas, palavras ligadas a mato, floresta e outros agradáveis conjuntos vegetais.

Na pesquisa sobre suas origens, começaremos aqui por floresta. Há certa discussão sobre sua etimologia. Provavelmente vem do Latim forestem silvam, “as matas externas”, querendo-se dizer com isso “os bosques do rei”, que estavam fora do alcance de quem não tivesse permissão expressa deste. E não era nada bom para o pescoço andar caçando em terras reais.

Existe também a hipótese de ter vindo do Latim forestis, “reserva de matas e caça”, de forum, “julgamento, corte de direito”, em outras palavras, “terra sujeita a penalidades”.

Falando em matas, tanto mato como mata vêm do Latim matta, “esteira de junco, bosque, floresta”.

A palavra inglesa jungle foi aportuguesada para jângal. Veio do Sânscrito jangala-s, “área com árvores esparsas”. Mais tarde passou a ser usada para designar “floresta, área com muitas árvores”.

Por seu lado, bosque deriva do Latim boscus ou buscus, “grande conjunto de árvores e vegetação”, possivelmente de uma raiz germânica.

Muito tímida, vemos ali arboreto, que sabe que é pouco usada mas nem por isso tem menor valor. Usa-se mais para designar um conjunto de árvores para fins científicos ou exibição.

Deriva de árvore, do Latim arbor, “árvore”, possivelmente do Indo-Europeu herdhos-, “ereto; qualidade do que é erguido ou aprumado”.

Vejo que vergel se encontra impaciente por saber de onde veio. Sua origem é o Provençal vergier, do Latim viridarius, de viridis, “verde”. Aplica-se a “local com plantas ornamentais, horto”.

E do seu lado se encontra selva, do Latim silva, “floresta, bosque, selva”.

Outro grupo de árvores é o capão, que indica um aglomerado de árvores de pequena extensão, com espécies diferentes da vegetação que o rodeia. Recebeu esse nome a partir do Tupi ka’a pu’ã, “mato redondo”.

Certo, arbusto, eu devia ter citado você logo depois de árvore, mas não fique emburrada por isso. Claro que você se origina dela, através do Latim arbustum, “local com árvores”.

Mas nem só de árvores se faz um mato. Ali são encontradas diversas outras formas de vegetais, como as lianas.

Este nome vem, por estranho que pareça, do Francês das Antilhas, liane, “cipó”, de lienner, “atar, ligar”, já que elas parecem unir as árvores entre si.

E cipó veio do Tupi isi’po, “cipó”, trepadeira lenhosa com caule flexível que se enrosca nas árvores.

Caule vem do Latim caulis, “tronco curto, talo de planta”, do Grego kaulós, de mesmo significado.

Com o mesmo significado atual, de “caule lenhoso de árvores e arbusto”, tronco veio do Latim truncus, “caule lenhoso de árvore, parte do corpo humano”, originalmente significando “mutilado, cortado fora”, de truncare, “truncar, interromper, cortar a extremidade de”.

E galho, que sai dos troncos, deriva do Latim galleus, “excrescência, ramo de árvore”.

Antes de ser um galho, um crescimento de árvore é um broto. Vem do antigo Germânico spreutanan, do Indo-Europeu spre-, “espalhar, dispersar”, passando pelo Grego speirein, “espalhar”.

O galho pode ser chamado também de ramo, do Latim ramus, “parte flexível da árvore que sai do tronco, galho”, do Grego rádamnos, do Indo-Europeu rad- ou vrad-, “ser flexível, poder ser dobrado”.

Temos aqui também copa, a parte superior, espalhada, de uma árvore. Deriva do Latim cupa, “taça ou vasilha grande”, pela semelhança de forma.

E na ponta e ao longo dos ramos ou galhos temos as folhas, do Latim folium, que começou sendo usado para denominar uma parte dos vegetais e depois assumiu também o significado de “pedaço de papel para escrita”.

Bem, prezadas clientes, as informações foram dadas, o pagamento foi conferido e nossa jornada se encerrou.

Favor não espalharem folhas secas ao sair e… pensando bem, nossos corredores estão tão sujos que ninguém vai reparar.

Uma boa noite.

Resposta:

Planta assassina

Palavras: mata , mato

Existe relação entre o ato de matar, e mato(planta)

Resposta:

1) Vem do Latim MACTARE, “imolar, sacrificar aos deuses”. Aparentemente o verbo significava, no início, o ato de elevar o objeto de sacrifício ao ar, em direção ao céu. Depois se estendeu ao ato de tirar a vida da oferenda.

2) Tanto mato como mata vêm do Latim MATTA, “esteira de junco, bosque, floresta”.

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