Palavra óculos

TIA ODETE VAI AO OCULISTA

 

– Boa tarde, senhorita secretária. Meu nome é Odete Sinclair e tenho hora marcada com o Oftalmologista, palavra esta que vem do Grego ophthalmós, “olho”, mais logos, “estudo”.

Está um pouco atrasado? Não faz mal, vou sentar um pouco na companhia destas pessoas simpáticas que me parece estarem esperando para consultar com os demais médicos desta clínica.

Já que falei nisso, quem deste grupo sabe de onde vem a palavra clínica? Ninguém? Então vou ensinar que ela vem do Latim clinicus, “médico que visita os pacientes em seus leitos”, do Grego klinike tekhne, “prática à beira do leito”, de klinikos, “leito, cama, aquilo sobre o qual se deita”, de uma base Indo-Europeia kli-, “recostar, inclinar”, hábito a que as pessoas doentes muitas vezes se entregam.

Pois é, está na hora de avaliar como estão os meus óculos, do Latim oculus, “olho”. Muita gente chama o médico que se encarrega dos olhos de “oculista”, mas isso caiu em desuso.

Sem dúvida que todos os presentes sabem que o primeiro instrumento usado para ajudar a visão data de uns mil anos antes de nossa era. Tratava-se de uma esfera de vidro partida ao meio, que era colocada sobre as letras de um texto para ajudar a aumentar as letras de um texto.

E saibam todos que foi só em 1730 que se começou a fazer armações com haste em grande escala. Antes disso, os óculos eram presos à cabeça por meio de tiras de seda.

Mas até o começo do século XX usar óculos era evitado ao máximo, pois havia quem dissesse que isso desfigurava o rosto, especialmente o das moças.

Encontro-me aqui com tão distinta plateia porque quero ver em que nível anda a minha presbiopia e desde já conto a origem desta: é o Grego presbys, “velho”, mais ops, outra forma de dizer “olho”.

Não sei como foi que, tão jovem ainda, foi me aparecer uma doença da idade mais avançada.

Mas deixando-me de lado, vejo que a senhora ali deve sofrer de miopia, proveniente também do Grego myopia, “miopia”, de myein, “fechar”, mais ops. Certamente que a senhora, antes de usar óculos, precisava fechar um pouco os olhos para enxergar melhor.

E provavelmente vários dos presentes sofrem de certo grau de astigmatismo, palavra que foi cunhada em Inglês em 1849, a partir do Grego a-, “sem”, mais stigma, “ponto, marca pequena”.

Estranho, não? É que se tinha descoberto que quem apresenta esse problema tem visão meio borrada porque a luz não se focaliza apenas num ponto no fundo da retina, impedindo assim a obtenção de uma imagem perfeita.

Aposto que todos estão se perguntando de onde vem retina, que inicialmente se chamava tunica retina, “túnica com aspecto de rede”. Isso porque ela era vista pelos anatomistas antigos como uma túnica, um tecido que reveste um órgão, e lembrava uma rede devido aos numerosos vasos sanguíneos que se apresentam ali.

Ainda bem que escolheram este nome em Latim, pois em Grego seria amphiblestroeides khiton.

Seja como for, provavelmente vou ter que mandar fazer lentes novas para os meus óculos. Tal palavra vem do Latim lens, que era o nome dado à lentilha, devido à sua forma biconvexa. Seu diminutivo, lenticula, é que acabou nomeando a conhecida leguminosa.

Eis um belo assunto para quando todos aqui forem comer lentilha e deixarem cair os óculos dentro do prato. Ou, para maior diversão, as lentes de contato.

O senhor aí que usa uns belos Ray-Ban, vai ficar contente de saber que essa marca vem do Inglês Ray, no caso “raios solares”, mais ban, “banir, afastar”. Esses óculos foram inventados antes da Segunda Guerra Mundial para proteger os olhos dos aviadores, que sofriam muito com a radiação solar lá nas alturas.  O modelo inicial, não por acaso chamado aviator, tem lentes bastante grandes para providenciar maior proteção. E ainda está na moda.

Falando em moda, no século XIX era comum as damas usarem o lornhão. Isto vem do Francês lorgnon, de uma raiz do Frâncico lurni, ligado a um verbo que queria dizer “espiar”. Era um par de óculos sem armação que se ligava a uma haste, de modo que só se colocava sobre os olhos quando se queria enxergar melhor. Eles eram muito enfeitados e serviam principalmente para fazer gênero.

A causa de tão estranha invenção talvez fossem as armações antigas e pesadas, que deixavam marcas nos delicados rostos das parisienses. O que deve ser a razão de outra idéia, o pince-nez, literalmente “belisca-nariz” em Francês.

Eram aqueles oculinhos do tipo que o Machado de Assis usava. Não tinham hastes e ficavam apertando o nariz pela tensão de uma lâmina metálica.

Por isso, eles não eram lá muito confortáveis de usar por períodos prolongados. Essa era a razão de terem sempre um cordão unindo-os à roupa do usuário, de modo a não serem perdidos nas numerosas vezes em que eram retirados. Olhem um retrato de nosso grande escritor e verão essa cordinha.

Parece que, quando as armações normais começaram a entrar em maior uso, os oficiais prussianos consideraram aquilo coisa meio afeminada. Daí começarem a usar monóculos, do Grego mono, “um”, mais o Latim oculus.

Ah, meu doutor está demorando… Vou colher a oportunidade para iluminar mais meus companheiros de sala de espera, ou quiçá me dedique a declamar uns modestos poemas de minha autoria. Acho que vou começar por um intitulado “Olhos Voadores”, sobre as vicissitudes de uma pobre professora de Maternal com o grupo de demoninhos que vão à sua aula e que…

Senhores, senhoras, senhorinhas, o que houve? Por que essa retirada súbita, açodada, em tropel? Ah, porque todos se lembraram de repente que têm hora urgente marcada com o dentista? Bem, apressem-se então.

Gente esquisita, não é, senhorinha secretária? Deveriam se planejar melhor.

Falando nisso, a senhorinha sabe qual é a origem da palavra secretária?…

 

Resposta:

LENTES

 

Crianças, o que é que vocês estavam fazendo no canto do pátio agora há pouco no recreio, todas amontoadas num canto?

Ah, fazendo experiências científicas, que bonito! Tia Odete adoraria ter um aluninho seu recebendo o Prêmio Nobel.

Ainda mais se repartisse a grana com ela. Mas pode-se saber que tipo de experiência? Vejamos. Uma lupa aqui no bolso do Arturzinho, uma cara de culpabilidade geral… Já sei, tratava-se de experimentos de alta relevância no campo da Óptica Aplicada à Entomologia com Ênfase nos Resultados Térmicos.

Ou seja, vocês estavam se dedicando a queimar as pobres e inocentes formiguinhas que eu sei que moram junto àquele canteiro, não?

Ficaram espantados. Saibam que a Tia Odete tem cara de sonsa mas é mais esperta do que vocês acham.

Aproveitando que todos agora estão quietinhos porque se sentem culpados, vamos falar da origem de alguns termos de instrumentos ópticos.

Fale, Valzinha. Não, minha querida, se seu pai sempre diz Ótico quando se refere a lentes e física da luz, está incorreto o caro senhor. Essa palavra   quer dizer “referente ao ouvido”, do Grego otós, “ouvido”.

Óptica, com o “P” soando bem claro, deriva do Grego optikos, “relativo ao que se pode ver”, de ops, “olho”.

E instrumento deriva do Latim instrumentum, “ferramenta, vestimenta”, de instruere, “arranjar, fornecer o necessário”, de in-, “sobre”, mais struere, “empilhar uma coisa sobre a outra”.

Para nossa aulinha vamos falar em aparelhos que usem lentes para nos ajudar em alguma finalidade mais útil do que sacrificar pobres insetos.

Por exemplo, os óculos. E atenção: ela tem “S” no final; é plural, portanto nada de dizer “meu óculos”, entenderam bem? Essa palavra vem do Latim oculus, “olho”.

Antigamente as pessoas podiam usar o que se chamava de monóculo, que vem do Grego monos, “um”, mais “óculo”. Nunca entendi como era que os fulanos mantinham aquilo preso ao redor de um olho só, mas eles conseguiam. E ficavam com um bom aspecto de vilão antigo ou de nobre prussiano desdenhoso.

Hein? Muito bem, Aninha, os binóculos têm a ver, sim. Derivam do Grego bi-, “dois”, mais “óculo”. São para serem usados com os dois olhos e assim permitir uma visão estereoscópica dos objetos à distância.

Há outra coisa que foi moda antes das armações dos óculos estarem em uso regular e que se chamava lorgnon. Esse nome francês vem de lorgner, “olhar atravessado, olhar de lado”. São aqueles óculos que eram presos a uma haste e que as damas levavam aos olhos para espiar alguma pessoa numa festa e falar mal dela.

Antes das armações também se usava óculos que se prendiam por pressão sobre o nariz, o pince-nez, ou seja, “belisca-nariz” em Francês. Devia ser tudo muito incômodo.

Fale mais alto, Valzinha, que a gente não ouviu. Ah, ia contar do seu tio que foi apanhado beliscando uma colega de trabalho e só depois ficou sabendo que ela estava namorando o chefe deles. Tinha que ser você. Vamos passar para coisas mais interessantes.

Por exemplo, a origem de lente. Por incrível que pareça, ela deriva do nome de uma leguminosa, a lentilha, que os romanos chamavam de lens, com o diminutivo de lenticula.

O formato bicôncavo de uma lente usada em óptica lhes lembrou uma lentilha. Provavelmente o inventor estava com vontade de uma boa sopa em determinado momento de seu trabalho.

Não façam confusão com a outra palavra lente que temos em nosso idioma e que significa “professor”; esta vem do Latim legens, “aquele que lê”, de legere, “ler”. Por muito tempo os professores se limitavam a ler textos para seus alunos em aula. Não é o meu caso!

Esse objeto que tanto divertiu vocês ali no pátio se chama lupa. Vem do Francês loupe, o nome do instrumento, mas antes disso não se sabe mais.

Para olhar mais longe temos também a luneta, do Francês lunette, de lune, “lua”, por se tratar de algo feito com objetos redondos como a lua cheia, ou seja, as lentes.

Sim Lary, dá para notar que os franceses deram nome a bastante coisa nessa área.

Agora pare de pular porque acertou uma e fique calminha.

Acode-me à memória o microscópio, do Grego mikrós, “pequeno”, mais skopein, “olhar”.

Feita na mesma base temos o telescópio, do Grego tele, “longe”, mais skopein. O anterior serve para olhar o que é muito pequeno, este serve para olhar de longe.

Não, Patty, não serve para entregar telegramas, não.

Nos submarinos se usa o periscópio, aquele tubo vertical com lentes e prismas para espiar o que acontece na superfície. O nome vem do Grego peri-, “ao redor”, junto com skopein.

Os médicos usam, para espiar no interior de nosso corpo, aparelhos ópticos chamados genericamente de endoscópios, de endo, “dentro”.

Quando você saírem do Maternal, se não forem presos antes, vão ter muitas aulas em que os professores usam projetores de vários tipos, seja para ilustrar melhor as aulas, seja porque têm preguiça de rabiscar no quadro.

Esse nome vem do Latim  projicere, formado por pro-, “à frente”, + jacere, “lançar, atirar”. Isso porque ele lança à sua frente a imagem enquanto os alunos dormem, como é o caso do Soneca ali no fundo.

Já soou o sinal de saída. Acordem esse menino, peguem suas mochilinhas e vão saindo com calma. E deixem aquelas formigas em paz.

 

Resposta:

Origem de gafas, verres, óculos

Palavras: gafas , ocular , óculos , verre

Olá.

E a respeito da origem da palavra espanhola “gafas”, da francesa “verres”, e da portuguesa “óculos”, o que se pode dizer? Há alguma explicação para a diferença entre elas, uma vez que as 3 são línguas latinas?

Obrigado!

Resposta:

Gafa,  de origem incerta, refere-se mais exatamente à armação dos óculos. Designava também “peça de metal para fixar dois objetos”, “instrumento para armar a corda da besta”, “ganchos para içar material nas construções”.  Já se vê que o nome designa artefatos para segurar coisas.

Verre quer dizer “vidro” em Francês; ocorreu aqui exatamente o mesmo que em Inglês, onde os óculos são chamados de glasses, “vidros”. No caso, o material acabou designando o objeto inteiro.

E “óculos” vem do Latim OCULUS, “olho”. Esta palavra também gerou o nosso adjetivo “ocular”.

A explicação para essas diferenças é que, mesmo esses idiomas sendo de origem latina, não há obrigatoriedade de cada palavra se originar do mesmo termo em Latim. Aliás, nem mesmo que todos os termos venham do Latim, como quase certamente é o caso de gafas.

Sua pergunta foi boa, mostra que você está atento para o assunto.

FACE

 

 

Uma vez, quando eu estava com uns doze anos, entrei devagar no gabinete do meu avô, aquele lugar forrado em couro e livros que tanto me agradava.  

Cumprimentamo-nos e ele percebeu que eu olhava fixo para o seu rosto:

– O que há, meu rapaz? Só agora viu como eu sou bonito?

– Não exatamente, Vô, é que eu estava procurando as maçãs.

– E esta agora! Que maçãs, seu esquisito?

– As maçãs do seu rosto. Hoje eu li essa expressão e não estou vendo maçã em rosto nenhum.

– Ah, está bem, seu gracioso.  Então sente aí que eu vou explicar que “maçãs do rosto” se referem à saliência que os ossos malares fazem aqui ao lado do nariz, embaixo dos olhos, ó.

– E antigamente se achava que isso parecia com uma maçã? Nem tem casca vermelha…

– Bem, os nomes dados a partes de nossa anatomia às vezes eram meio estranhos mesmo. Ah, e antes que eu me esqueça, malar vem do Latim malum, “maçã”. Mas pelo menos pomo-de-adão faz algum sentido.

– Isso o que é?

– Trata-se desta saliência aqui no meio da garganta, que muitos chamam de gogó.  Dizem que se trata de um pedaço do fruto proibido que ficou entalado na garganta de Adão, ainda no Paraíso.

– E é verdade? E “gogó”, de onde vem?

– Parece que não. É apenas a cartilagem laríngea que, nos homens, é maior e mais notável por ação hormonal. 

“Gogó” viria de goela, que veio do Latim gula, “garganta, esôfago”.

– E os nomes de outras partes do rosto, Vô? Nariz, por exemplo?

– Esse vem do Latim nasus, “nariz”. E o olho vem do Latim oculus, “olho”…

– Essa não! Peguei o senhor! Isso só pode ser a origem da palavra “óculo”! Meu avô se enganou, ah,ah!

– Cale-se, seu espertinho. Olhe os seus erros: primeiro, achar que um intelecto superior como o meu pode se enganar. O que eu disse está certo, e “óculos” vieram também de oculus.

E depois, esta palavra é uma das chamadas pluralia tantum, as que só se usam no plural. Dizer “óculo” para esse artefato com duas lentes é erro grosseiro.

– Mas todo o mundo diz “meu óculo”!

– Pois diz errado e o meu neto não vai falar errado por causa disso. E pronto, vamos continuar lidando com palavras como…

– Já sei, aquilo que fica sobre o olho e lhe dá sombra, a sombrancelha.

– Você hoje está decidido a fazer um festival de besteira, não? Essa etimologia popular é totalmente errada. A verdadeira origem é o Latim supercilia, “sobre os cílios”. E cilium queria dizer “o que serve para esconder ou tapar os olhos”, um derivado de celare, “esconder, cobrir”.

E o olho contém a pupila, que vem do Latim pupilla, diminutivo de pupa, “boneca”.  Isso porque a imagem de uma pessoa pode ser vista refletida no centro do olho de outra em ponto muito pequeno.

– Legal esta, Vô. E a boca?

– É do Latim bucca. Mas note que, inicialmente, esta palavra se referia à bochecha, principalmente quando inflada por um esforço.  Daí, aliás, vem “buzina”…

– Agora sim errou, Vô. Vai me dizer que as bigas romanas tinham buzinas, se nem bateria elas usavam!

– Senhor, por que me deste um descendente com as idéias tão confusas? Não dá para devolver? – disse o velho, levantando dramaticamente os olhos para o céu.

Olhe aqui, seu peste, bucina era um nome dado a qualquer instrumento de sopro usado para dar sinal à distância. Podia ser de qualquer  material, inclusive de certas conchas grandes, o que deu origem à nossa palavra búzio.

– Ah, tá. E bochecha, também veio de bucca?

– Veio do Italiano boccia, “bola”, em comparação com o formato arredondado delas quando infladas.

E já que estamos perto, lábio veio do Latim labium. E, afastando-nos um pouco do centro da face, temos as orelhas, do Latim auricula, diminutivo de auris, “orelha” propriamente dita.

O queixo vem do…

– Do hábito de se queixar, que a gente faz movendo o queixo para falar, desta vez acertei?

– Mais uma dessas e atiro você pela janela fechada. Você está incontrolável hoje. Não, queixo vem de capseum, “semelhante a uma caixa”, de capsa, “caixa”. E não precisa me dizer que não lembra uma caixa, que eu acho o mesmo.

E “queixa” vem do Latim quassiare, “sacudir, chacoalhar, abanar”.

Subindo, encontramos a testa, que veio do Latim testa, “concha, carapaça, vaso de argila”, pela curvatura.

E subindo mais ainda chegamos aos cabelos, palavra que deriva do Latim capillus, “cabelo”, de caput, “cabeça”.  A qual, no caso do meu neto aqui presente, é oca.

E antes que o dito cujo neto proteste, acrescento que barba é do Latim barba, de mesmo significado.

– E as suíças?

– Parece que estas derivaram da época em que o rei Luís XIII da França contratou mercenários suíços para servir em seu exército. Eles apareceram com vistosos apêndices pilosos na região em frente às orelhas e fizeram sucesso.

E o nome do país vem de Schwyz, o nome de um dos três cantões iniciais da confederação, que provavelmente vem do Germânico suittes, talvez relacionado com suedan, “queimar”, em referência às áreas desmatadas e queimadas para a construção das cidades.

– Quer dizer que essa atividade não é só brasileira, Vô?

– Como se vê, é antiga e destacada a ponto de dar nome a um país.

Para terminar, todas estas palavras pertencem à face, que deriva do Latim facies, “aparência, forma, figura”, provavelmente de facere, “fazer”.

E antes que você incendeie a paciência do seu avô, vá brincar um pouco com o gato, que está esperando por você.

Resposta:

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