Crianças, ouçam. Parem de tentar se esganar, fraturar, arranhar e outras atividades do estilo. Precisamos falar sobre um probleminha que vocês têm.

Ontem Tia Odete foi atacada de Bicho Carpinteiro e resolveu dar uma olhada nos seus trabalhinhos. Valham-me as Potências Divinas! Quanto relaxamento, que coisas feitas sem cuidados, sem capricho, coisa de relapsos!

Ei, esta palavra me dá um bom mote para uma aula. Depois falaremos no que eu vim dizer.

Olhem aqui: relapso vem do Latim relapsus, particípio passado de relabi, “deslizar para trás”, de re-, “de volta, para trás”, mais labi, “escorregar, deslizar”. Indica uma pessoa que repete seus erros, que pratica falhas de modo contumaz. Usa-se também para quem é displicente e relaxado com seus deveres.

Já que falamos em displicente, ela vem do Latim displicentia, “desagrado”, formado por dis, “fora, oposto”, mais placere, “agradar”. Um dever mal feito certamente desagrada a uma professora, especialmente se ela é dedicada e mal paga que nem a Tia Odete aqui.

E relaxado é do Latim relaxare, “afrouxar, desapertar”, formado por re-, intensificativo, mais laxare, “soltar, afrouxar, esticar para fora, alargar”. É feio fazer as coisas de modo descuidado e frouxo.

O que me lembra o adjetivo desleixado. Esta palavra tem a mesma origem da anterior, vindo de leixar, uma forma estranha de deixar e derivada de laxare.

descuidado vem do Latim cogitare, “pensar, cogitar”, com um prefixo de oposição. Os temas devem ser feitos com o pensamento neles, não nesses aparelhos eletrônicos infernais sem os quais vocês não passam.

Um termo popular para quem age assim é deitado. Ela deriva do Latim dectare, contração de dejectare, “derrubar”, formado por de-, “para fora”, mais jactare, “lançar, atirar”. O aluninho que não se dedica aos seus afazeres é como quem foi derrubado pelo punho gigante da Preguiça e fica no chão numa posição que para nada serve.

Esse indivíduo também pode ser descrito como folgado, de folgar. Esta vem do Latim follicare, de follere, “assoprar, respirar”. Relaciona-se com follis, “fole”, um instrumento usado para forçar o ar no fogo, de modo a avivar as chamas.

O sentido de “descanso” e depois de “distração, diversão” que se fixou em folga é porque follere também queria dizer “respirar, tomar fôlego depois de um esforço”. Mas tem gente que descansa sem ter feito esforço de tipo algum.

Pouco usada é a palavra desazado, da qual um sentido é “negligente, descuidado”. Ela vem de azo, “causa, motivação, oportunidade”, do Francês aise, “ausência de mal-estar, estar à vontade, em conforto” Claro que em desazado esta é precedida pelo prefixo des-.

Há várias palavras ainda que começam com este prefixo e que designam gente que faz mal as obrigações.

Uma é desidioso. Vem do Latim desidia, “preguiça, indolência, ociosidade”, originalmente “ato de estar sentado”, de de-, “para fora”, mais sedere, “sentar-se”. É a imagem adequada para o preguiçoso: estar comodamente sentado enquanto os outros dão duro.

Desaplicado se refere a gente assim também. Começa com o des-, ao qual se segue o aplicado, “diligente, esforçado, dedicado”, do Latim applicatus, de applicare, “juntar-se a, ligar-se, conectar-se, aderir” feito por ad, “a, para”, mais plicare, “dobrar”.

O desmazelado usa o mesmo prefixo, mas com o sentido de reforço, intensidade. O resto vem de mazela, “penúria, falha moral, desarranjo”, do Latim macella, “mancha, mácula, nódoa”.

E o distraído? Vem do Latim distrahere, “separar, puxar em diferentes direções”, formada por dis-, mais trahere, “puxar, arrastar”. Tudo o que ele faz parece ser com pouca coerência, de poucos resultados.

Temos ainda o imprevidente, que não se prepara de antemão para o que vai fazer e tem resultados  ruins.

Deriva do Latim in-, de sentido negativo, mais praevidere, “saber de antemão, ver antes”, de prae-, “antes”, mais videre, “ver”.

O indolente veio do Latim indolens, “insensível à dor”, formada pelo in– negativo mais dolens, de dolere, “sentir dor”. Adquiriu o sentido de “preguiça” através da noção de “evitar trabalho”. Para um preguiçoso, trabalhar dói.

Começando com o mesmo prefixo negativo, existe também o indiligente. E diligente vem do Latim diligere, “ter atenção, cuidado, estimar, valorizar”, originalmente “separar, escolher entre outros”, de dis-, aqui com o significado de “à parte”, mais legere, “reunir, escolher”. Mais uma vez se nota a importância da agricultura na formação de palavras romanas, pois o sentido inicial se ligava à colheita.

Bem, meus queridos aluninhos, a aulinha terminou e espero que se lembrem de tudo o que aprenderam hoje e passem a apresentar trabalhinhos em melhores condições doravante.