Em: Conversas com meu Avô

A TOCA DO GATO

 

Cheguei ao gabinete do meu avô, no fundo do pátio, para cumprimentá-lo e o encontrei olhando com atenção para uma parte de suas estantes.

Ele me viu e disse:

–  Olhe só aqui!

Foi então que vi Ernesto, o gatão cinza, tentando se enfiar numa caixa de papelão muito menor do que ele.

Dei uma risada e ele miou, saiu daquela situação ridícula e veio me cumprimentar, esfregando o rosto em minha mão.

O velho disse:

– Gatos adoram se enfiar em lugares pequenos. Provavelmente isso vem da época em que eram selvagens e precisavam se esconder de inimigos na selva. Mas este aqui evidentemente sabe que está entre amigos. Veja, ele está querendo colo.

Sentei-me no banco de couro, o Gato se acomodou sobre minhas pernas, ronronando,  e o gentil velho seguiu falando:

– Agora que ele está em seu lugar predileto, vou aproveitar para tentar ensinar alguma coisa a este representante das novas gerações que é meu neto. Por exemplo, vou-lhe contar da origem da palavra esconderijo.

Ela vem do Latim abscondere, “tirar de vista”, formada por abs, “fora”, mais condere, “colocar dentro de algo, guardar”. Ernesto é especialista nisso.

Muitas vezes o lugar para se esconder é um covil, que veio do Latim cubiculus, “pequeno quarto, lugar que serve como refúgio”, de cubare, “estar no leito”.

Outro nome é tugúrio, do Latim tugurium, de tegere, “cobrir, tapar”, de onde saiu também nossa telha. Foi para o Latim do Grego stegein, “cobrir”.

Para se esconder, uma pessoa ou animal procura um refúgio, que veio do Latim refugium, de refugere, “dar a volta e correr, escapar”, de re-, “para trás”, mais fugere, “fugir”. Originalmente ligada a um ato físico, a palavra tomou também o sentido metafórico de “abrigo para sofrimentos da alma”.

Abrigo é outra palavra que apresenta esses dois sentidos. Deriva do Latim  apricare, “proteger-se do frio aquecendo-se ao sol”, de apricus, “exposto ao sol”. Tem ligação com aperire, “abrir”, pela noção de um lugar aberto ao sol e portanto aconchegante. Isso lá para Roma antiga, que não era exposta aos calorões de nosso Brasil.

Falando em coisas daqui, há uma palavra que significa “esconderijo, casebre”, e que é cafua. Há quem diga que vem de uma palavra Banta desconhecida e há quem diga que veio de um prefixo Indo-Europeu  ca-, de ignoto significado, mais o Latim fornus, “forno”, por similaridade em tamanho e forma. No fim das contas, é melhor reconhecer que não sabemos essa origem.

Como falamos em antro

– Já sei, Vô! Vem do Grego anthropos, “homem”.

Ele me olhou espantado e eu me entusiasmei:

– É que, nas épocas das cavernas, o homem precisava muito se esconder dos tigres de dente-de-sabre, dos dinossauros e das esposas quando estavam mal-humoradas e se enfiavam em buracos, mas os perseguidores logo desconfiavam quando viam dois pés saindo do buraco e gritavam uns para os outros “Anthropos! Anthropos!” e aí pegavam o coitado e davam um fim nele, e assim a palavra antro foi criada.

Ele me olhou muito sério, pegou sua grande lupa e fingiu examinar a minha cabeça com atenção. Depois a largou:

– Não pode ser meu descendente. Certamente foi adotado.

– Como assim, Vô?  –  eu adorava dizer besteira para provocá-lo, pois suas reações eram sempre originais.

– Olhe aqui, vamos fazer de conta que você não falou nada e que eu não ouvi nenhuma besteira. Vamos prosseguir de onde eu tinha parado.

Dizia eu, antes de ser interrompido por uma torrente titânica de baboseira sólida, que antro vem do Latim antrum, “caverna, gruta”. Mais tarde passou a designar “cavidade corporal”, havendo diversas regiões de nosso corpo que portam esse nome.

Ela foi para o Latim do Grego antron, de mesmo significado, do Sânscrito antara, “fenda, caverna”, propriamente com o sentido de “intervalo, espaço que separa duas partes”, e que gerou nossa palavra entre.

– Que bonito, Vô!

– Não me canso de dizer que esta matéria muitas vezes nos traz noções das mais interessantes.

E já que citamos caverna, ela veio do Latim cavus, “vazio, com material retirado”.

– E por que o Pai se refere a um conhecido dele como cavernoso?

– Entrar numa caverna é uma atividade associada a uma situação assustadora, que pode trazer algo de ruim. Essa pessoa certamente fez algo para incorrer no desagrado de seu pai.

Prosseguindo, penso em escaninho, que é um pequeno compartimento em móveis feito para guardar documentos, pequenos objetos de valor e coisas assim. É um diminutivo de escano, “banco, estrado”, do Latim scamnum, “estrado”.

– E de onde a história de guardar coisas num estrado?

– Decerto porque, em épocas antigas, se aproveitava bem os espaços em todos os móveis, que eram muito caros e custavam a ser feitos. Havia partes da Europa onde as famílias ricas, quando iam passar uma temporada em outro castelo, levavam os móveis junto.

– Que trabalheira, Vô!

– Imagine só.  Mas, enfim, para eles não faltava mão-de-obra humana.

Em matéria de refúgios, existe também o valhacouto.

– Parente do meu colega Couto?

– Não é impossível. Ela vem de valha, do verbo “valer”, mais couto, “terra onde a entrada é proibida”, do Latim cautus, particípio passado de cavere, “proteger, guardar contra”.

Pelo que sei, muitos sobrenomes Couto, portugueses, se formaram levando em conta que a pessoa morava perto de um couto, tomava conta dele ou roubava animais que ali eram protegidos.

Falando em animais protegidos, ocorre-me, para encerrar esta lista, a madrigueira. Esta vem do Espanhol madriguera, “toca, covil”, do Latim matricaria, “cova onde uma fêma se abriga com seus filhotres”, de matrix, “mãe”.

E agora vamos andar um pouco pelo jardim. Isso se  Ernesto aceitar descer do seu colo, onde está dormindo feito um anjo peludo.

 

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