Em: X-8 Detetive Etimológico

A MORTE DE UMA PALAVRA II

 

X-8 já estava recobrando o controle e observou, num relance, o quadro patético: numa cama de cobertas seculares, uma palavra ainda mais magra que o velho Caronte agonizava, respirando com dificuldade.

Estava coberta por um lençol muito velho, tinha a pele coriácea e o rosto indiferente de quem está por sair deste mundo.

No aposento, os poucos móveis cheios de cupim tinham guardanapos rendados em mísero estado. O piso era de chão batido, as teias de aranha proliferavam no forro. Velas se espalhavam por vários pontos, emitindo uma iluminação fraca e trêmula que tornava a cena mais lúgubre ainda.

Na cama jazia uma palavra, Ogano. Ao redor dela, em pé, várias outras, as mesmas que estavam até há pouco discutindo em voz alta.

Excelente conhecedor da vida e morte das palavras, X-8 percebeu que a moribunda não tinha mais que poucos minutos de vida.

Puxou um banco de madeira amaciada pelo tempo e se sentou junto àquela triste figura. Segurou sua mão seca e fria e disse, em voz suave:

Ogano, estou aqui para assistir sua partida. Sou Etimologista Juramentado e tenho plenos poderes para tal.

A palavra elevou os olhos para ele, com um suspiro de alívio.

X-8 prosseguiu, agora com clareza oficial:

– Saibam todos os presentes que esta palavra auxiliou nosso idioma desde pelo menos o século XIII, com o significado de “este ano”, derivando da expressão latina hoc anno, de mesmo sentido. Entrou em desuso já faz tempo e agora eis chegado o seu fim. Em nome do Vernáculo lhe agradecemos,  Ogano.

O breve e solene discurso deixou todos os presentes emocionados. Até Caronte, tão acostumado a lidar com esses assuntos, parecia meio murcho, parado junto à porta, coçando alguma poeira que lhe havia entrado no olho.

A agonizante olhou docemente para seu oficiante, fez um leve movimento de agradecimento com a cabeça quase calva e serenou.

Com as palavras é assim: elas não temem a morte, o que não querem é partir sem que seja reconhecido o trabalho que um dia tiveram pelo idioma.

O detetive puxou a coberta sobre a face da finada e olhou ao redor, pronto para dar assistência às palavras presentes, que ele imaginou que deviam ser amigas e parentes – quando recomeçou a gritaria, umas xingando as outras da maneira mais vil.

X-8 apelou para uma solução heróica: puxou do bolso sua borracha de apagar, brandiu-a no ar e berrou para que todas se aquietassem.

Começou  a fazer as perguntas pertinentes e descobriu sem perda de tempo o seguinte: todas elas se declaravam parentes da falecida e queriam ficar com a herança ou pelo menos alguma coisa pertencente a ela. O que exatamente, naquela miséria de palavra não-usada e morta de fome não se sabe. Mas entre as palavras a ambição e a mesquinharia são tão horrorosas quanto entre os homens.

O detetive olhou as presentes e disse:

– Vocês duas aí, Ano e Anual, são legítimas parentes daquela que se foi, já que “ano” fazia parte dela.  Isso posso atestar em documento oficial, mediante cobrança dos devidos emolumentos – passado o momento duro, o profissionalismo dele voltava.

– Já o adjetivo Anular ali vem do Latim anulus, “anel” e nada tem a ver em termos de parentesco.

– O mesmo se dá com anuro, “o que não possui cauda, tipo de anfíbio”, que me encara com olhos esbugalhados ali e vem do Grego anoura, de an-, “sem”, mais oura, “cauda”.

– E Cano, que vejo tentando se esgueirar pela porta, vem do Latim canna, o nome de uma planta de talo cilíndrico. Ele sabe muito bem que não é parente da finada.

– Isso para não falar na mais cara-de-pau de todas, bem quietinha ali no canto, Oca, que vem do Tupi oka, “casa”. Nem sequer deriva do Indo-Europeu, como a falecida! – e, indignado:

– Querem saber o que você merecem? Isto, suas ladras sem-vergonhas e desrespeitosas!

E encheu de pontapés os magros traseiros das empulhadoras, jogando-as porta afora.

Caronte, também revoltado, fez um gesto ameaçador em direção a elas e o resultado foi que elas se espalharam velozmente campo afora, deixando apenas um rastro de poeira.

X-8 chegou até à porta do rancho e olhou para fora.

A paisagem vista dali era extraordinária. Uma escuridão como só existe longe das cidades, campos prateados e sombras profundas, estradinha de terra fazendo uma suave curva colina acima… merecia um quadro.

Ou pelo menos uma boa foto. X-8 se amaldiçoou por estar sem sua nova máquina digital.

Mas também, quem ia imaginar semelhante aventura como consequência de um simples passeio pela rua?

Um ruído o fez virar-se. Ali estava Caronte, subido sobre o skate, com a vara nodosa e lisa de tanto uso na mão, já apoiada em terra. Com um gesto, mostrou que as parentas da falecida se encarregariam de tudo.

Algo em sua atitude demonstrava que X-8 tinha sabido merecer o respeito de alguém tão acostumado a lidar com os mortos.

Refizeram, agora com mais calma, o caminho até o bairro de X-8.

Este pediu para ser deixado nos arredores. Pareceu-lhe conveniente não ser visto em tão funérea companhia.

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