Em: Conversas com meu Avô

Cumprimentos

Eu estava entrando no acolhedor escritório de meu avô, na sua casa, enquanto ele se despedia de um amigo ao telefone e enviava saudações à esposa deste.

Depois de dar um abraço no velho perguntei:

– Vô, por que a gente sempre manda comprimentos e não áreas ou volumes?

Ele me olhou demoradamente e respondeu:

– Vou poupar a sua vida desta vez, rapaz, para não ter que mandar o tapete para a lavanderia depois. Mas o castigo vai ser ouvir-me falar sobre a origem de palavras relacionadas com o assunto.

– Ah, nããão… – eu disse, com cara infeliz, e rapidamente me aninhei aos pés do velho, como eu fazia desde criança.

– Provocou, agora agüente as consequências. Cumprimento – não comprimento – vem do Latim complere, “completar, satisfazer”, e é um voto de que os desejos da outra pessoa se cumpram, se tornem realidade.

Saudação também vem do Latim salutare, “saudar”, literalmente “desejar saúde a”, de salus, “boa saúde, cumprimento”, relacionado a salvus, “salvo, em segurança”. E veja você que a base dessa palavra no Indo-Europeu é sol-, “inteiro”.

Note a relação entre boa saúde e bons desejos e o fato de uma pessoa estar “inteira”, o que supõe não apenas estar com todos os pedaços do corpo solidamente implantados em seus lugares como estarem em boa ordem as relações de afeto e até as financeiras.

– E as pessoas que inventavam as palavras se reuniam para fazer essas criações, Vô? Era nas cavernas, era?

– Devia ser nas cavernas mesmo, mas não faziam intermináveis reuniões nem propostas de trabalho nem constituíam comissões para isso e para aquilo, não. O fabuloso é que pegavam uma palavra com um significado e a alteravam um pouco, de modo que ela estivesse ainda relacionada com a idéia inicial mas já quisesse dizer algo diferente. Nenhum deles tinha maiores estudos de filologia, posso garantir.

– Espertos, esses antigos. E por que a gente diz saúde quando outra pessoa espirra?

– Isso é porque existia a superstição de que a alma podia sair pelo nariz numa ocasião dessas. Uma palavra assim tinha o poder de garantir que a alminha, tão etérea que podia ser levada por um sopro, ficasse onde devia.

Os povos de língua inglesa, por exemplo, dizem God bless you, “Deus o abençoe!” quando uma pessoa espirra. Com essa proteção não há alma que se ejete.

– Vô, eu não gostava dessa história de dar a mão quando era criança. De onde veio isso?

– É porque nós humanos não temos rabo.

– Hein? Vô, você pirou? Vou chamar a Vó e ver o que ela…

– Calma, rapaz, eu explico. Veja só: todas as saudações têm a finalidade de mostrar que os outros podem se aproximar de nós sem perigo, que estamos com boa vontade em relação a eles. Claro que podemos estar fingindo, mas aí é um assunto que foge ao princípio da saudação.

Você já notou que um gato, quando se aproxima de um amigo, humano ou felino, levanta o rabo bem reto para cima?

– É verdade. Seu gato Ernesto sempre levanta o rabão quando eu chego e vem me cumprimentar.

– Pois é. Trata-se de uma maneira de demonstrar que ele não tem más intenções nem medo de você. Isso neles é incontrolável, é um reflexo e uma garantia de boa vontade. Os cães abanam a cauda quando estão contentes, e isso eles tampouco podem deixar de fazer.

Já que não temos uma maneira incorporada desse jeito, demonstramos aos outros que viemos em paz apertando-lhes a mão direita, pra mostrar que não portamos arma nela.

– Sempre foi assim, Vô?

– Faz bastante tempo. Mas antes e em outra civilizações havia modos mais radicais de mostrar que quem cumprimentava não só era inofensivo como até inferior e totalmente dominado.

As pessoas, por exemplo, se prosternavam diante de uma que lhes fosse muito superior. Essa palavra vem do Latim prosternere, “derrubar, estirar no chão, abaixar-se em cumprimento”, formado por pro-, “à frente”, mais sternere, “abater, derrubar, deitar abaixo”. Outra palavra que derivou daí e que tem o mesmo significado é prostrar-se.

Desta forma elas demonstravam que colocavam sua vida nas mãos do superior, pois se colocavam indefesas diante dele. É mais ou menos o que cães e gatos (estes com menor freqüência) fazem quando se deitam e expõem a barriga a um amigo ou superior.

– No outro dia eu vi um filme duns fulanos de capa e espadinha daquelas só de furar, que tiravam os chapelões com espanadores em cima e quase varriam o chão com eles ao cumprimentar. É verdade que eles faziam isso?

– Arre, que maneira de nomear uma espada que se chama florete e um chapéu enfeitado com plumas como se usava no século 18 na Europa.

Mas era verdade, sim; isso era o rapapé, pois a aba do chapéu tocava o sapato de quem cumprimentava. Há quem diga que esse nome vem do fato de se arrastar um pé ao se inclinar, mas eu fico com a primeira explicação.

– Gostei. Vou começar a usar chapéu e cumprimentar assim de agora em diante.

– Você vai acabar cumprimentando seus colegas no hospício, isso sim. Mas, se está decidido mesmo, aprenda outros nomes. Por exemplo, zumbaia.

– Qué é isso? Cumprimento de vespa? Bzzzz?

– Não, graciosinho. Usa-se em sentido meio pejorativo, para designar um cumprimento exagerado, muito formal. Vem do Malaio sembahyang, “oração, homenagem”, de sembah, “cumprimento”, mais yang, “divindade”. Está em nosso idioma desde a época das descobertas.

Falando em saudações com origens para além da Europa, temos também o salamaleque. Este vem do Árabe salaam aleikam, “que a paz esteja contigo”, um bonito desejo.

Você também pode fazer uma vênia, que vem do Latim venia, “graça, perdão, complacência”.

O que você não pode fazer nunca, quando for apresentado à Rainha da Inglaterra, é uma curtsy.

– Por que não? Não sei o que é isso, mas se tiver vontade, eu faço…

– Teimoso e republicano, hein? Trata-se de uma saudação exclusivamente feminina nos últimos séculos. As mulheres dobram ligeiramente os joelhos e abaixam um pouco o corpo, ao passo que os homens só flexionam o pescoço, com o corpo ereto.

– Ah, tá bom. Vou só dobrar o pescoço, então.

– Eu soube que, alguns anos atrás, um americano ia ser apresentado ao Príncipe de Gales e se atrapalhou tanto na hora que acabou fazendo uma curtsy para Sua Alteza Real.

– Ele deve ter rido muito do outro.

– Nada disso. Com muita presença de espírito e seriedade, o Príncipe também fez uma. Nobreza é isso… A palavra curtsy vemde courtesy, “cortesia, gentileza”, por sua vez derivada de court, “corte”.

Uma inclinação respeitosa pode ser chamada de reverência, que vem do Latim reverentia, do verbo vereri, “sentir medo de, respeitar”, com o prefixo intensificativo re-.

Uma multidão pode fazer um cumprimento também, que a gente chama hoje em dia de ovação.

– Pensei que isso fosse um tipo de vaia em que se atiravam ovos podres na pessoa…

– Vou fingir que não ouvi e continuar falando como se fosse para um ser humano normal, meu rapaz. Essa palavra vem do Latim ovatio, o nome dado a um triunfo menor que um general tivesse merecido.

– Triunfo menor era o quê? Dar uma surra numa pessoa amarrada? E essa palavra, de onde vem?

– Veio do Grego THRIAMBOS, “tipo de hino a Dióniso”. Um triunfo propriamente dito era uma comemoração muito solene. Nela, o general vitorioso ia de carro à frente de um cortejo com seus soldados e os inimigos e objetos valiosos capturados. O vencedor ia coroado, com toga bordada a ouro, cetro na mão, e era muito aplaudido.

Um triunfo assim só podia ser recebida por um general se ele tivesse eliminado pelo menos cinco mil inimigos.

– É mesmo? Chi, já estou vendo o general logo depois de tomar uma cidade: “- Capitão, quantos inimigos matamos? – Quatro mil e novecentos, Senhor! – Então passa o gládio em mais cem para eu poder ter o meu triunfo lá em Roma!”

– Não é de duvidar, rapaz, não é de duvidar… Mas deixe-me contar o que era uma ovação.

Ela era concedida quando a vitória tinha um número menor de mortos ou quando era sobre escravos rebelados ou piratas, inimigos de segunda classe. Nesse caso, o general entrava a cavalo ou a pé mesmo na cidade.

– Era menos chique, então?

– Exato. De qualquer forma, ovação vem de ovare, “ter um triunfo por ovação”, palavra relacionada com o Grego evoé, “grito de alegria em honra a Diónisos”. Portanto, nada a ver com ovo nem com ovelha, viu?

– Legal, Vô. Mas agora tenho que ir, que me lembrei que tenho temas a fazer.

– Siga, meu caro. Estudar sempre é bom. Não se esqueça de cumprimentar os livros antes de começar.

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