Em: Conversas com meu Avô

VELHO

 

 

Naquele dia eu estava com uma vontade irresistível de mexer com meu avô, só para o ver resmungar daquele seu jeito carinhoso.

Perguntei qual era a origem da palavra velho, fazendo uma fingida cara de pena.

– E o que é que há por trás dessa pergunta, seu novo? Alguma referência aos meus anos acumulados?

– Imagina se eu ia fazer algo assim, Vô!

– Claro que imagino, por isso perguntei.

Mas, concedendo que você esteja realmente querendo saber essa origem e com a esperança de que algum dia se instale nesse crânio oco o desejo pelo conhecimento, vou ensinar que tal palavra vem do Latim vetus, “velho, idoso”, literalmente “do ano anterior”, de uma fonte Indo-Europeia wetos-, “anoso” isto é, “com anos, entrado em idade”.

Os espanhóis usam añejo (atenção, esse “Ñ” soa  como o nosso “NH”) para designar suas bebidas guardadas há tempo.

O Grego nos deu, a partir desse wetos-, o nome de um vento específico do Mediterrâneo, o etésio, que quer dizer “anual, o que se repete a cada ano”.

– E o senhor se repete a cada ano, né, Vô?…

– Para sorte sua e do resto da família. Ainda hei de incomodar, digo, cuidar de todos por muito tempo, de modo que pare de pensar certas coisas.

Sou um veterano, de veteranus, o termo militar para soldados… hum… especialmente experientes.

Desta fonte também saiu inveterado, “arraigado, estabelecido há muito tempo”. Sou um arraigado defensor da cultura, como você bem sabe.

– E o senhor é um inveterado apreciador de Etimologia, desconfio.

– Parabéns. Você é mais esperto do que parece. E vou tentar que fique mais ainda contando-lhe que a  vitela, aquela carne muito macia que de vez em quando a gente come, é um derivado de vitulus, que quer dizer “animal do último ano, muito jovem”.

– Tudo isso derivou só de uma palavra?

– Pois é, e há muito mais dentro da área com outras origens.  Por exemplo, ancião – e não me olhe desse jeito, rapaz! – vem do Latim anteanus, de ante, “à frente”. Em vez de debochar de mim, respeite o fato de eu ter aberto o caminho para as gerações seguintes.

– Matando dinossauros, Vô?

– Viu só? Não restou um vivo para comer vocês. Às vezes me pergunto se isso não foi uma besteira.

Mas vá, já está feito e vou aproveitar para dizer que de ante também vieram antigo, antiquado, antiguidade.

E que arcaico vem do Grego arkhé, “antes, o que vem no começo” e, por extensão, “quem comanda, o que vem à frente dos outros na hierarquia”.

E que, por estranho que pareça, arquivo vem daí também; em Atenas, havia o arkheion, “escritório público”, um prédio onde viviam os principais magistrados e onde eram guardados os registros, as anotações legais, enfim, os arquivos da história da cidade.

– Guardavam os arqueólogos  também?

– Não, mas essa palavra vem de arkhe mais logos, “tratado, estudo”. E não me venha dizer que eu preciso me tratar com um arqueólogo em vez de um médico!

– Eu não disse nada, Vô.

– Mas pensou. Comporte-se ou não lhe ensino que caduco, coisa que eu não sou, vem do Latim cadere, “cair”. As árvores cujas folhas caem anualmente são chamadas caducas ou caducifólias.

O máximo que podem dizer de mim é que sou encanecido  ou canoso, “de cãs ou cabelos brancos”. Veio do Latim canus, “claro, branco”, em referência principalmente a cabelos.  E creio que a maioria das minhas cãs veio por causa de um certo neto.

– E os caninos, Vô, algo a ver com o senhor?

– Não, gracioso, o nome deles vem do Latim canis, “cão”; é outra coisa.

– Hum. E decrépito?

– É do Latim decrepitus, “muito velho, doente, sem saúde”, formado por de-, aqui com o sentido de “para baixo”, mais crepitus, particípio passado de crepare, “romper, quebrar”.

– Ahá! Daí então os crepes que a gente come ali na esquina e que se rompem dentro da boca… Eu sou um gênio!

– Você é apenas um bobo, se acredita que Etimologia é simples assim. Essa palavra vem do Francês crêpe, “ondulado, crespo”, do Latim crispus, de crispare, “encrespar, ondular”.

– Tá bom, Vô, não vou mais confundir crepare com  crispare, prometo.

– E não se esqueça de que sou um macróbio, do Grego makrobios,  “pessoa de vida longa”. Portanto, faça tudo o que eu mando ou eu virei puxar os seus pés no sono depois que eu morrer.

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Em: Assunto da Edição

Continentes

Não, não estaremos falando sobre os cinco continentes, placas tectônicas e assuntos da Terra em geral, não.Aqui se trata de lidar com a origem das palavras usadas para denominar as numerosas invenções feitas pela humanidade para poder guardar e transportar produtos, sejam eles sólidos, líquidos ou gasosos.

CONTINENTE – para começar, obviamente. Vem do Latim continere, “manter unido, abarcar, conservar”, verbo formado por com-, “junto”, mais tenere, “segurar”. “Continente” é o que guarda, que retém, que contém alguma coisa. Daí o nome dado às grandes extensões de terra em que se divide nosso planeta. A palavra “contêiner” é um aportuguesamento do Inglês container, usada para as grandes caixas metálicas de transporte de carga, principalmente por via aquática.

RECIPIENTE – do Latim recipiens, “o que recebe de novo, o que recupera”, do verbo formado por re-, “de novo”, mais capere, “tomar, pegar”.

CAIXA – do Latim capsa, nome dos protetores cilíndricos usados para guardar os rolos de papiro de então, época em que os livros não eram feitos com lombada como agora. Passou a designar um tipo de estabelecimento bancário por analogia com a “caixa” onde era guardado o dinheiro. O mesmo se dá com a parte dos estabelecimentos comerciais onde são feitos pagamentos e recebimentos.

GARRAFA – não há completa certeza, mas parece vir do Árabe garaba, “recipiente para transporte de líquidos”. Desnecessário dizer de onde vem “garrafão”, né?

FRASCO – dizem uns que vem do Latim vasculum, “vaso”. Já outros insistem em que vem do Latim tardio flasco, “pequena garrafa”, de origem germânica. Seja como for, parece que essa palavra gerou “fiasco” em nosso idioma. Esta palavra italiana se referia às tentativas falhadas de fazer garrafas nas indústrias da época, que acabavam destinadas a frascos, não sendo usadas para fins mais nobres.

FRASQUEIRA – é uma espécie de valise usada para levar frascos, geralmente de cosméticos.

TONEL – agora passamos para continentes de maior volume. Este recipiente vem do Latim tunna, “couro”, por extensão “recipiente de couro, odre”.

ODRE – pouco se usa atualmente esta palavra que significa “bolsa de couro para líquidos”. Ela pode também ser usada para designar um bêbado, tanto pelo conteúdo alcoólico como pela dificuldade de se manter em pé sem apoio. Deriva do Francês outre, “odre”, do Latim uter, “bolsa, interior de cavidade, útero”.

BARRIL – incerta origem; sugere-se o Latim barra, de origem gaulesa, já que o recipiente é feito por barras de madeira.

BOTIJA – do Espanhol botella, “garrafa”, do Latim butticula, diminutivo de buttis, “odre, tonel”. Ser apanhado “com a boca na botija” significa ser encontrado em pleno ato proibido, seja bebendo o líquido alheio, seja metendo a mão no que não lhe pertence.

arquivo – é um recipiente para papéis. Ou era, antes da era da Infomática. Seu nome deriva do Latim archivum, que veio do Grego ta arkheia, “registros públicos”, de arkheion, “prefeitura, governo municipal”, de arkhé, “governo”, literalmente “começo, origem”.

ESTOJO – deriva do Latim studiare, “guardar, tomar cuidados”, de studium, , “zelo, cuidado, esforço”.

COFRE – uma caixa-forte, por estranho que pareça, tem seu nome derivado de um cesto. Em Latim, cophinus, era “cesto de vime”, sentido que passou a “caixa reforçada para guarda de bens”. Daí veio também a palavra inglesa coffin, “caixão de defunto”.

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