Em: Consultório Etimológico

idiota e sufixo “cida”

olá tenho três curiosidades:
a origem da palavra idiota e qual é significado do sufixo “cida” que encontramos em homicida, suicida, inseticida.

também me pergunto a origem da palavra arquétipo

Resposta:

1) Ela vem do Grego IDIOS, “pessoal, privado”. IDIOTES queria dizer “indivíduo privado”, no sentido de que ele não exercia um oficio público. A partir daí a palavra passou a ter o sentido de “homem comum” – ou seja, sem especial distinção – e depois começou a indicar “sujeito ignorante, de pouca inteligência e pouca valia”, pois não era capacitado para ter cargo oficial.

2) O sufixo -cida ou –cídio vem do Latim caedere, “matar, imolar, derrubar”.

3) Olhe por esta origem em nossa Lista de Palavras.

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Em: X-8 Detetive Etimológico

Idiota

A palavra sobe as escadas sujas e desertas, segue o corredor iluminado por detestáveis lâmpadas de 25 watts. Segue até a sala do fundo, a que tem a placa de latão brilhante sobre a porta, onde se lê apenas “X-8”.

Hesita. Quase dá a volta e vai embora, mas consegue retirar um fraco jorro de coragem do fundo da sua autoestima agonizante e bate.

A porta se abre sozinha, misteriosamente.

Aliás, não tão misteriosamnente assim: dá para ver que há um barbante grosso, todo emendado, partindo da maçaneta interna e indo até à grande escrivaninha atrás da qual está X-8.

Eis o frio e cínico detetive: sentado à sua cadeira giratória de madeira, velha, guenza e arranhada, está meio de lado para a porta, com os pés em cima dum canto da escrivaninha.

Só se enxerga dele a ponta do nariz. O resto da sua pessoa some nas dobras da gabardine e nas abas do chapéu puxado para baixo.Ele rosna, em tom impaciente e com voz cortante:

– Sente-se.

A palavra se acomoda numa cadeira que já conheceu melhores dias e começa a falar, quase num sussurro:

– Seu X-8, sou idiota. Sim, sou especificamente a palavra idiota. E isso sempre me incomodou. As pessoas riem de mim. O senhor mesmo, por exemplo: aposto que, se eu visse os seus olhos, perceberia um brilho de deboche neles. Inclusive, se o senhor não quiser me atender, eu compreendo e posso ir embora… – e foi se levantando.

X-8 levantou uma das mãos e estalou os dedos.

Não deu certo, por causa das luvas de couro preto com o punho dobrado para fora que ele gostava de usar quando atendia a clientela. Num gesto rápido, ele retirou a luva e desta vez conseguiu estalar os dedos de forma imperiosa, apontando ao mesmo tempo para a cadeira.

idiota voltou a se sentar, obediente. Ouviu:

– Fale.

Ninguém poderia desobedecer àquela voz.

– Sou uma palavra infeliz que só é usada em brigas e para destratar os outros. Tenho colegas que não se importam de viver situações deste tipo, que são briguentas por natureza a até se divertem quando são usadas assim, mas esse não é o meu jeito. Sei lá, acho que sou meio mole, um tanto fraca… O fato é que acho que não valho nada. Como eu sei que o senhor já ajudou várias conhecidas minhas, quero ver se dá para fazer algo por mim. Estou economizando há tempo para esta consulta.

X-8 lhe explicou, tão laconicamente quanto possível, os gastos elevados que a palavra teria que reembolsar. Material de pesquisa, suborno para bibliotecários e vigilantes, taxas de cybercafés de periferia, de modo a evitar rastreamento, munição, o adicional de risco de vida, as taxas para o Sindicato dos Detetives Etimológicos e Assemelhados… Enfim, um bom trabalho não poderia sair barato. Para não dizer que o barato custa caro, no final das contas…

Tudo acertado, a palavra deixou uma polpuda soma como adiantamento e partiu. Um pequeno foco de esperança brilhava em seu íntimo, apesar de o detetive ter dito que não poderia garantir nada. Ele chamaria dali a algumas semanas, se tivesse algo para ela…

Uma vez fechada e bem trancada a porta, X-8 foi para os livros da estante, a única coisa arrumada na sala. Pesquisou, rabiscou. Finalmente, colocou um papel meio amassado na sua máquina de escrever antiga e começou a digitar, com dois dedos:

idiota

Em Grego, idios significava “pessoal, privado”.

Idiotes queria dizer “indivíduo privado”, no sentido de que ele não exercia um oficio público. A partir daí a palavra passou a ter o sentido de “homem comum” – ou seja, sem especial distinção – e depois começou a indicar “sujeito ignorante, de pouca inteligência e pouca valia”, pois não era capacitado para ter cargo oficial.

Do Grego esta palavra passou ao Latim como idiota, tal como é hoje usada em Português e Espanhol.

Aparentada com idiota está idiossincrasia.Esta é composta de idios com synkrasis, que significava, originalmente, “mistura”. Idiossincrasia veio a significar “mistura de características pessoais, temperamento”.

Também aqui encontramos idioma, “a maneira própria de uma nação falar”.

Há muito derivados de idios usados atualmente na área científica, como:

Idiócero – um tipo de inseto, de idios mais keras, “chifre”.

Idiociclófano – um cristal que apresenta reflexos coloridos em anel, de idios mais kyklos, “círculo” mais phaínein, “brilhar, mostrar”.

Idiomografia descrição, estudo da linguagem, de idioma com graphein, “escrever”.

Idiólatra – pessoa que adora a si mesma (coisa tão comum…), de idios mais latreúo, “adorar”.

Idionomia – é a condição de organizações que seguem leis próprias, de idios e nomos, “lei, regra”.

Idiotismo – peculiaridade de determinado idioma. Em Português do Brasil, por exemplo, dizemos “pois sim” quando queremos dizer não, e “pois não” quando queremos dizer sim. Isto é um idiotismo.

Quem tentar usar esta palavra como desaforo estará demonstrando ignorância. Não deve ser confundida com idiotice.

Após terminar a datilografia, X-8 guardou cuidadosamente as folhas num envelope pardo e o colocou numa gaveta.

Um mês depois, idiota estava à frente do detetive, ansiosa. Pediu licença para ler imediatamente os papéis, já que queria ter as más notícias de uma vez.

Durante a leitura, foi-se transformando. Sua voz se firmava, seu corpo foi-se erguendo. Murmurava comentários:

– “Grego… Latim… Puxa, Idiossincrasia eu conheço, estudamos juntas no secundário. Era muito fina, via-se logo que era da elite… E somos parentes! E Idioma, então! Ora, vejam só, palavras científicas aos montes… Puxa, seu X-8, não sei como agradecer!” – E se virou radiante para o detetive.

Este deu um passo atrás, não fosse aquela tola querer abraçá-lo, e estendeu a mão com a palma para cima, mostrando que agradecer era muito fácil. idiota pagou a escandalosa quantia devida e desceu as escadas sujas com passo saltitante.

X-8 se acomodou atrás da escrivaninha e ficou pensando. Tinha sido muito agradável melhorar a autoestima daquela palavra.

E se ele abrisse um consultório psiquiátrico para palavras com problemas desse tipo? Sabia que era sempre possível encontrar bases para fazer com que elas se sentissem melhor.

Ficou olhando para as sombras espessas do seu escritório, divagando…

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