Liga [Edição 45]

Eu estava conversando com meu avô sobre uma bobagem que um colega meu, apelidado “Bactéria” devido à sua inteligência, tinha feito, e disse que ele era um imbecil. O velho me olhou com o ar de quem sabia que ia me surpreender e disse:

– Sabia que essas duas palavras com que você mimoseia seu colega têm a mesmíssima origem?

– Essa não, Vô! A única coisa que elas têm em comum são umas poucas letras. O senhor já mostrou que as palavras podem ficar muito diferentes com o tempo, mas essa é demais – falei só para o encorajar, pois tinha certeza de que ele estava com a razão.

– Pois veja só: bactéria passou a ser a palavra usada a partir de 1838 para designar um tipo de microrganismo, cunhada do Grego bakterion, “pequena vara, bastãozinho”, diminutivo de baktron, “vara, cajado”. Isso porque elas têm um formato alongado, de bastão.

Em Latim, essa palavra é baculum, também “cajado”. Veio, tal como o Grego, do Indo-Europeu bak-, “vara usada para apoio”.

Logo se descobriu que as bactérias não eram todas em forma de bastão; as que eram assim acabaram recebendo o nome de bacilos, do citado baculum.

– E cadê o imbecil nisso aí?

– Calma, apressadinho. Antes, deixe-me dizer que dessa palavra veio o nosso báculo, “cajado de pastor”, que é um bastão usado pelos bispos como insígnia do seu cargo.

Quanto ao imbecil, essa palavra veio do Latim imbecillus, “fraco, sem forças, frágil” – logo aplicada à fragilidade do cérebro – formada por in-, “sem, não”, mais baculum.

Veja que maneira interessante de dizer que uma pessoa que não conta com as faculdades mentais em boas condições é como alguém com um corpo fraco e sem apoio.

– Que coisa, Vô, uma palavrinha virou essas duas que parecem tão distantes! – entusiasmei-me.

– Não, não virou apenas essas duas. Quando você come um sanduíche de baguete, está homenageando a mesma origem.

– Chii…

– Incréu, aprenda: essa palavra é do Francês baguette, o nome de um pão com determinada forma alongada, que veio do Italiano bacchetta, diminutivo de bacchio, “bastão”, que veio, que veio de…

Baculum!

– Impressionante como este meu neto aprende até Latim. Também, com um professor destes…

E não se esqueça que a baqueta com que seus ídolos fazem aquela zoeira infernal que eles dizem que é música também teve essa origem.

– Aposto que a batuta dos seus grandes regentes também.

– Errou. Esta palavra vem do Italiano battuta, “batida”.

– Sei, é que eles ameaçam bater nos músicos com aquela varinha para que eles não errem, né?

– Isso eles não fazem, mas às vezes dá vontade de bater em certos engraçadinhos com uma boa vara de marmelo. Ou com uma batuta antiga. Esta evoluiu nos últimos séculos. Inicialmente, ela era uma vara grande e pesada; dizem que chegava a ter mais de dois metros de comprimento, e servia mais para marcar o compasso, o tempo, por meio de batidas no chão. Chegava a atrapalhar a música com seu ruído.

Conta-se que Lully, o Mestre-Capela de Luís XV, morreu por causa de uma ferida gangrenada no pé que ele fez a si mesmo com a tal batuta.

– Isso é que é ser desastrado, hein Vô? Ele é pior que ainda que o senhor…

– Feche esta matraca, que você já falou demais hoje, seu miolo de bactéria. Outro dia continuarei contando mais coisas espantosas como esta.

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