Lugar-comum [Edição 29]

 

Velho Bar do Garcia! X-8 se acomodou na cadeira, suspirou e olhou ao redor.

Uma ode aos tempos antigos. Os móveis, o piso, as paredes e a sujeira tinham mudado muito pouco nas últimas décadas.

O Bar já estava lá antes de X-8 se mudar para este bairro esquecido das autoridades. Vai continuar até muito depois de o detetive ter deixado este vale de lágrimas – ou até a estrutura do prédio desabar. O que vier primeiro.

O grande detetive está um pouco melancólico e com tendências à grandiloqüência hoje, coisa que sempre acontece quando ele está com fome.

Com o estômago borboleteando, ele resolveu distribuir um pouco de de renda indo fazer a sua janta ali no Bar.

De modo que o vulto de gabardine cor de palha e chapéu marrom se acomoda numa mesa junto à vitrine e olha o Cardápio, do qual colocamos uma cópia aqui sem os preços, para apreciação dos distintos leitores.

BAR DO GARCIA

MENÚ

CEVA DA MARCA QUE TIVER …………………………………………………………………………………

GELADA (MAIS CARA UM POUCO)………………………………………………………………………….

REFRI IDEM IDEM…………………………………………………………………………………………………….

AMBURGUE –

SEM OVO……………………………………………………………………………………………………………………

COM OVO…………………………………………………………………………………………………………………..

COM OVO FRESCO……………………………………………………………………………………………………

TORRADA –

COM PÃO…………………………………………………………………………………………………………………….

SEM PÃO…………………………………………………………………………………………………………………….

OTRAS COISA –

NÃO TEM.

Parece tudo muito simples, mas cada cardápio apresenta uma babel de linhas feitas com o lápis rombudo do Garcia, com flechas apontando para cá e para lá, frases do tipo “hoje não tem”, “agora já tem”, “isso era no outro dia que não tinha”, “tem mas não presta”, “por sua conta e risco”, tudo sem data.

Desta forma, é difícil saber o que existe à disposição do cliente. Mesmo porque lá pelas tantas pode surgir um prato novo, que não seria incluído no cardápio porque o próprio Garcia reconhece não ser um homem de letras. É um sujeito de ação, sem frescuras.

Em certa época, fez sucesso no seu Bar o “prato de bolachinhas finas”. Constava de um pires com três ou quatro tipos de bolachas recheadas com morango, baunilha, chocolate, etc., que as famílias iam comer com o minguinho levantado.

As bolachinhas finas eram originárias de uma carga que o Garcia tinha comprado de uns seus conhecidos sortudos que o visitaram em certa madrugada.

Imaginem só, eles tinham encontrado um caminhão abandonado na estrada, cheio de coisa boa! Botar fora é que eles não iam, né, e então se lembraram ali do velho amigo…

Foi nessa ocasião que o bom comerciante comprou o seu DVD. Também adquiriu umas placas-mãe de computador usadas; seus amigos o convenceram de que elas seriam indispensáveis para quando ele resolvesse informatizar o negócio.

Para acompanhar o DVD, comprou dos amigos uma TV quase nova e uma caixinha de TV a cabo que nunca serviu de nada, já que as empresas instaladoras nunca pisariam num bairro como aquele.

Mas, como os seus amigos nunca mais voltaram, ele não teve a quem reclamar. Instalou a caixa em cima da geladeira barulhenta.

Dizem que às vezes ele olha para a porta logo abaixo para ver se aparece uma imagem, mas isso talvez não seja verdade.

Inspirado nesse fino prato de bolachinhas, Garcia, no surto de criatividade que sempre o acometia quando ele tomava banho, inventou meses depois o “prato de salgadinhos finos”, um prato fundo abarrotado de vários tipos daqueles salgadinhos que têm aspecto, cheiro e gosto de Isopor amarelo.

Por um bom tempo, convidar a namorada para comer os dois pratos era um programa romântico sério no bairro.

Denotava as melhores intenções e era comemorado pelas mães, que logo começavam a fazer planos para o casamento. Se este não saísse logo, elas faziam as moças suspender o anticoncepcional, a melhor simpatia de Santo Antônio para esse fim.

Garcia anda menos inventivo, ultimamente. E mais sujo.

Lá está ele atrás do balcão, passando um trapo imundo nos copos. Olha para X-8, que acabou de se acomodar. Levanta a cabeça para o detetive num gesto interrogativo, que quer dizer: – “O que vai ser?”

X-8 faz um gesto com as mãos na horizontal, uma sobre a outra, significando  “- Um hamburger sem ovo”. Se ele quisesse com ovo, colocaria a língua entre as palmas. Se quisesse com ovo fresco, faria a língua se agitar entre as mãos.

Mas hoje ele vai pelo seguro. E se dá bem, pois dali a meia hora (Garcia sempre custa a achar o material em sua confusa cozinha) é servido de um enorme hamburger derramando bacon e queijo torrado ao redor. O sabor é muito bom.

Para não interferir com esse sabor, X-8 faz questão de não saber nada sobre os temperos e muito menos sobre o modo de se fazer aquela delícia.

Além do mais, dá para ver muito bem o cartaz na porta da cozinha: SE QUIZER VIZITAR NOSSA COSINHA LEVA PAULADA.

X-8 termina o seu farto lanche e paga no balcão. Garcia, como sempre, olha para ele e o dinheiro com seus olhinhos desconfiados de suíno, recolhe as notas para dentro de uma gaveta funda onde há também uma garrucha carregada, alcança o troco e não diz nada.

O grande detetive se dirige devagar, pesado, ao seu escritório. Sobe as escadas mal-iluminadas, passa pelas paredes de cor indefinida do corredor, abre a porta da sua sala e se acomoda atrás da escrivaninha.

Por alguma estranha razão, começa a ter pensamentos repetitivos sobre uma gibóia com um boi na barriga.

Está assim modorrento quando ouve a batida dupla à porta.

Manda entrar e vê chegar uma dupla de palavras de braço dado que se dirige à escrivaninha, senta no banco de madeira em frente e começa a matraquear:

– Senhor detetive, lenda viva de nossos sherloques, é uma agradável surpresa receber tão pronto e fidalgo atendimento de um monstro sagrado dentre os profissionais mais proficientes do pedaço, o czar, o todo-poderoso cérebro por trás dos acontecimentos etimológicos do momento, pessoa incansável ao envidar todos os esforços numa diuturna parceria em prol dos menos favorecidos pelo destino, mas não se poderia esperar menos de alguém como o senhor.

Nós somos uma dupla de palavras que faz um trabalho conjunto de longa data, seus humildes criados, ao seu dispor para o que der e vier.

É chover no molhado dizer que estamos aqui para dirimir uma dúvida: queremos dar o tiro de misericórdia em nossa ignorância, não a nível de má-fé, mas pura e sincera, sobre nossas origens. De fato, queremos que esse assunto se torne uma página virada em nosso passado, queremos dar o último e definitivo adeus a essa situação penosa que tanto nos aflige.

Assim sendo, aqui estamos hoje reunidos para atender ao nosso sonho dourado: saber de onde viemos e para onde vamos. Solicitamos encarecidamente que o senhor teça comentários sobre nossa origem, o que cairá como uma luva sobre nossas carências e nos permitirá dormir o sono dos justos, mitigadas as nossas dores.

Sabemos que nesta sociedade capitalista, voltada para o lucro, nada se dá de mão beijada, de forma que estamos prevenidas e prontas a dar nossa colaboração ao girar das engrenagens da economia honrando os seus estipêndios e…

O detetive, sentindo a ameaça de uma indigestão – não sabia se por causa do hamburger do Garcia ou da da conversa das palavras – alcançou às clientes um dos seus folhetos de preços e serviços, sem dizer nada.

A dupla consultou o papel. Dava para ver que elas eram prósperas, pois nem piscaram perante aqueles valores astronômicos. Responderam:

– Topamos. Nossas conhecidas nos contaram que a gente faz a encomenda e volta dali a uns dias para saber das suas pesquisas, é isso?

O detetive, com o mau humor se espraiando do seu abdome para a sua cabeça, respondeu:

– Excepcionalmente, mediante um acréscimo de 20% dos meus honorários, vou responder agora. Favor pagarem primeiro.

Deois que o dinheiro trocou de mãos, o detetive, incômodo em sua cadeira giratória torta, começou a falar:

– Vocês são a expressão Lugar-Comum. Andam de braços dados por aí, representando o mesmo que as palavras Clichê e Estereótipo.

Para iniciar, Lugar vem do Latim locus, “lugar”, derivado do Latim Arcaico stlocus, mais tarde locus, que vem do Indo-Europeu sthel-, “colocar, fazer ficar”.

Comum vem também do Latim, de communis, “público, compartilhado por vários”, do Indo-Europeu ko-moin-, “tido em comum”.

Um dos sinônimos de vocês, Clichê, vem do Francês cliché, do verbo clicher, que era um duplicado de cliquer. E esta palavra era onomatopaica, imitando o som de uma coisa batendo na outra, como no processo de se imprimir a partir de uma placa de metal ou de guilhotinar um pescoço: “clic!”

O outro sinônimo se forma do Grego stereos, “sólido”, mais o Francês type, “tipo”. Em Francês, stéreotype era “o processo de impressão com uma placa sólida”. A metáfora se refere à repetição automática de algo preparado de antemão.

Cumprido o juramento que havia prestado na sua formatura como Etimologista (“Responder sempre o étimo verdadeiro tal como o grau de adiantamento da ciência o permitir no momento”), X-8 se ergueu e, em seu mau-humor crescente, se soltou:

– Todos vocês, Lugar-Comum, Clichê, Estereótipo, são a mesma coisa: palavras que um dia tiveram certa felicidade expressiva em determinado contexto; a partir daí ganharam popularidade e passaram a ser usadas indiscriminadamente, de forma mecânica, como uma saída fácil para não se ter que pensar e criar uma frase própria.

A pessoa que convoca vocês para o uso está fazendo uma aceitação preguiçosa de expressões prefabricadas, verdadeiros substitutos para o pensamento original.

Vocês representam pobreza estilística, falta de originalidade, falta de leitura e de vergonha na cara. Vocês são verdadeiros carimbos que as pessoas usam em sua comunicação para não terem que pensar.

Vocês só servem para preencher o vácuo da fala e dos pensamentos, apenas ajudam as mentes descuidadas a manter a inércia.

Para piorar as coisas, muitos dos seus usuários pensam que estão sendo espertos ao citarem um clichê, mas eles estão na verdade se mostrando despreparados para uma comunicação inteligente.

Vocês deveriam ser enfiadas na cadeia e apodrecer ali, para não permitir o enfraquecimento de nosso idioma! Saiam já daqui antes que eu cometa uma besteira!

Abriu a gaveta da escrivaninha e dali puxou algo que fez as palavras empalidecerem: uma grande borracha daquelas antigas, com um lado avermelhado para apagar lápis e um azul para apagar tinta.

As duas palavras, assustadíssimas, saíram do escritório e correram tão rápido quanto podiam com os braços dados, cruzaram o corredor sujo e escuro, desceram aos trambolhões a escada perigosa.

Chegadas à rua, esgueiraram-se junto à parede do Edifício Éden, não fossem receber na cabeça algum projétil do descontrolado detetive, que bradava à janela:

– Sumam! Desapareçam do bairro, da cidade, do idioma!! Lorpas, hipócritas, satanases, biltres, mães-da-preguiça!

Foi o que as duas fizeram. Foram para casa viver as suas prósperas vidas. Num acordo tácito, nunca falaram sobre o assunto entre si, que dirá com os outros.

Enquanto elas fugiam pelas ruas escuras do bairro, X-8 atirou o maço de dinheiro enrolado com um elástico contra a parede e sapateou sobre ele, resmungando coisas hediondas sobre o imundo dinheiro mal havido por aquela dupla de empulhadoras.

Abriu a gaveta dos remédios, pegou duas cápsulas de digestivo e as tomou com água mineral, enquanto guardava no bolso o dinheiro para depositar no dia seguinte.

Como fazia todos os meses, jurou nunca mais comer o hamburger do Bar do Garcia.

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