UMA NOITE DE TERROR I [Edição 94]

 

Nossa câmara mostra um cenário assustador. Nele aparecem alguns túmulos com cruzes antigas e tortas. Sobre as cruzes, alguns morcegos imóveis. À direita, ergue-se ameaçadora a estrutura de uma forca, com uma corda esfiapada pendente e balançando de modo macabro.

No lado oposto, há um grosso cepo de madeira no chão, com um enorme machado cravado nele. Atrás dele, uma cadeira elétrica.

Perto do centro, uma guilhotina. Sua lâmina mostrando manchas do mesmo líquido escuro que se espalha pelo cepo.

Pairando no alto, uma lua cheia que emite forte claridade. O chão está juncado de folhas secas e vegetação baixa e mal-cuidada. O contraste forte entre o luar e as sombras torna o ambiente muito assustador.

Silêncio. Tensão do público.

Vindo da esquerda, uma figura estranha caminha lentamente e se situa à frente da guilhotina. A luz da lua mostra que é um indivíduo baixinho, vestindo uma gabardine amarrotada com a gola erguida, grande demais, com um chapéu desabado que oculta completamente o rosto.

Ora, vejam só, é o nosso bravo Detetive das Palavras, o famoso X-8.

O que será que ele está fazendo aqui?

Ele se volta de costas para esses objetos macabros e começa a falar:

– Forca. Sua origem é o Latim furca, nome dado ao forcado, uma ferramenta com duas ou três pontas que se usa para erguer palha ou trigo. Por semelhança de uso, o nome se aplicou ao aparelho empregado há tempos imemoriais para erguer condenados pelo pescoço.

Sua estrutura varia muito, ao sabor da inventividade humana.  Para coisas desagradáveis assim ela não tem limites.

Uma corda pode ser pendurada numa árvore ou num poste de rua; pode ser colocada numa estrutura temporária, como se fazia no Velho Oeste americano. Ela pode também fazer parte de uma construção mais elaborada; na Inglaterra e na França houve montagens que duraram séculos e permitiam a execução de até vinte e quatro pessoas por vez.

A forca propriamente dita era montada, para melhor visibilidade, num patíbulo, do Latim patibulum, instrumento de tortura onde eram amarrados certos condenados. A palavra se forma por pateo, “estou aberto”, mais –bulum, indicando meio ou instrumento. O aparelho tinha forma de “Y”, daí a menção a “estar aberto”.  Mais tarde passou a indicar “forca” ou “palanque de forca”.

Falando nisso, execução vem do Latim executare, “realizar, cumprir”, de ex-, “fora”, mais sequi, “seguir”.  Em épocas posteriores passou a designar “ato de levar a efeito uma sentença de morte”.

Como a forca apresentava uma função didática, os corpos eram deixados no lugar até terminar a decomposição ou até a chegada de mais um cliente.

O detetive fez uma pausa dramática enquanto apontava para o macabro aparelho:

– Elas muitas vezes eram erguidas no exterior das muralhas medievais ou perto de um castelo, como sinal do poder das autoridades. No caso de piratas, na Inglaterra, no entanto, muitas vezes elas eram erguidas temporariamente na areia da praia, na faixa entre a maré alta e a maré baixa. Isso era para o corpo ficar largado  ali e ser levado pelas águas.

A forca sempre teve uma conotação de humilhação, sendo que determinadas camadas sociais eram poupadas dela em favor de outros métodos.

Um deles, por exemplo, é a decapitação, que vem do Latim de-, prefixo que denota privação, separação, mais caput, “cabeça”.

O bravo detetive se aproximou do cepo enquanto falava:

– Foi sobre um objeto como este que muitas cabeças nobres rolaram; seu nome vem do Latim cippus, “marco ou defesa feita de troncos e galhos”; por extensão, “tronco”.

Em épocas não muito remotas remotas, o pessoal nas vilas e cidades não tinha televisão, iPad, computadores. Na verdade, não tinham nem luz elétrica em casa. Portanto, qualquer coisa que saísse da rotina era uma distração viável.

Portanto, quando se ia fazer uma decapitação, o cepo era colocado sobre um cadafalso, que vem do Latim catafalicum, de catasta, “estrado para colocar escravos à venda”, formada do Grego katá-, aqui com o sentido pouco usual de “para cima”, mais fala, “torre de madeira, máquina de cerco”, de origem etrusca.

A pessoa encarregada de fazer essas coisas desagradáveis com o pescoço dos condenados era chamada, entre outras coisas, carrasco. Pelo que sabemos, a origem desta palavra é o sobrenome de Belchior Nunes Carrasco, executor em Lisboa ao redor do século XV.

E o sobrenome dele vem de uma pequena árvore da família do carvalho, o carrasco ou azinheira, de origem pré-ibérica.

Este funcionário público também pode ser designado por verdugo, do Latim viriducum, “vara verde que se corta para usar como açoite”, de viridis, “verde”. Isso porque uma das suas funções era açoitar os condenados por crimes menores. Eles muitas vezes usavam varas verdes e flexíveis, talvez para dar um tom mais ecológico ao seu trabalho.

Nos filmes a gente costuma ver esses senhores fazendo um serviço rápido e limpo, mas a realidade era bem outra. Muitas vezes eles eram uma escolha de momento entre prisioneiros para uma execução. E, mesmo sendo portadores de uma função oficial, sua capacidade nem sempre era a ideal, resultando em várias tentativas horríveis antes de conseguirem exterminar com o pobre cliente.

O trabalho no cepo é conhecido pelo termo degolar. Esta palavra vem do Latim decollare, “cortar o pescoço”, de de-, indicando “retirada, afastamento”, mais collum, “colo, pescoço”. É usada, tecnicamente, para indicar lesão incisa na parte posterior da região cervical.

Quando isso é feito pela parte da frente do pescoço, o certo é dizer esgorjar, que vem de es-, “para fora”, mais gorja, “pescoço”, do Latim gurguis, “pescoço, garganta”.

Mas estas distinções não preocupavam as vítimas; qualquer que fosse  a palavra, o resultado era o mesmo.

 

 

 

CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO

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