GOLPISTAS NO ESCRITÓRIO! [Edição 98]

 

Nosso Detetive Etimológico preferido, se não único, está alterando a disposição dos móveis de seu escritório. Ou, como se diz tantas vezes em nosso idioma, “mudando o layout”.

Coloca todos os bancos que reservou para o público das sessões coletivas mais para trás, o mais encostados que for possível na parede da porta de entrada.

Muda, com muito esforço, a grande escrivaninha para perto da parede oposta. O esforço é intenso, já que, como ele diz, todos os seus músculos estão na sua cabeça.

Guarda cuidadosamente todos os objetos soltos, até o cesto de lixo.

Senta-se à escrivaninha e examina o resultado. Fica satisfeito com a terra de ninguém que deixou entre o lugar da platéia e a sua pessoa.

Perguntamo-nos a razão dessas estranhas manobras. Atividade tola e puramente literária, pois batem à porta e deduzimos que a explicação está chegando.

Com a voz gelada que ele treina todos os dias, manda entrar. E elas entram, as palavras-clientes que marcaram este horário para aprender sobre as suas origens.

Chegam desconfiadas, olhando para todos os cantos, procurando eventuais  rotas de fuga, muitas de cabeça baixa e bonés desabados para a frente, uma que outra com uma sacola de supermercado na cabeça, com furos para os olhos.

Acomodam-se nos bancos, o mais próximo que podem da porta, as golas dos casacos levantadas.

O grande profissional sabe que precisa se impor de saída. Retira a grande arma do bolso e a coloca sobre a escrivaninha. As palavras estremecem.

Todos sabem, naquele bairro esquecido das autoridades e das divindades, que ele é uma das poucas pessoas que tem direito ao porte de tal peça.

Trata-se de uma borracha de grande calibre, daquelas metade azuis, metade avermelhadas. Pode apagar qualquer palavra em questão de segundos, ainda mais se esgrimida por uma pessoa com tamanha proficiência.

Pausadamente, ele diz:

– Boa noite à querida clientela. Pelo que vejo, o grupo de palavras relacionadas a Golpes & Trapaças que marcou para hoje se encontra todo aqui.

As palavras disfarçaram, olharam para os lados, abaixaram a cabeça, fingiram que não era com elas, mas não se manifestaram. Não iriam confessar tão facilmente.

O detetive suspirou:

– Favor pagarem adiantados os meus honorários. Favor aguardarem enquanto eu conto, reconto e olho as notas contra a luz.

Bem, vamos começar logo, já que o pessoal não está se sentindo muito à vontade. Posso ver que se destaca à minha frente a palavra golpista. Ela vem de golpe, que deriva do Latim vulgar colpus, que anteriormente era colaphus, “soco, bofetada”, do Grego kolaphos, “golpe na face”.

A palavra se agitou e o nobre profissional respondeu:

– Sei que você agora representa uma ação de se apoderar dos bens alheios, sem envolver normalmente qualquer violência. Mas veja, seu início foi esse.

E agora, quanto a  seu sócio trapaceiro ali:

Você veio do Latim trappa, “armadilha”. Uma trapaça não deixa de ser uma espécie de armadilha. Só que, em vez de pegar uma ave com um cordão ou um animal grande com uma fossa, se pega os bens de algum incauto.

Apontou para outra palavra sentada bem quietinha, como esperando não ser reconhecida:

– Já a sua origem, vigarista, se refere a uma história da qual há várias versões, nenhuma das quais confirmada. Mas envolve um golpe praticado com o envolvimento ou citação de um vigário. E a origem desta é o Latim vicarius, “substituto, o que está em lugar de outro”, de vicis, “mudança, turno”.

O vigário era um padre que substituía outro temporariamente em sua paróquia.

Vendo falcatrua, lembro-me de que, apesar de variados esforços, sua origem ainda não foi definida. Talvez isso ajude a escapar das autoridades um dia.

E nossa amiga camuflagem, tão bem disfarçada no cantinho que a gente quase não a distingue?

A palavra, que estava imitando uma vassoura, não conseguiu evitar de se ruborizar intensamente.

– Pois, com toda a sua capacidade de mimetismo, veio-nos do Inglês, onde entrou em uso no sentido militar, em 1917, a partir do Francês camoufler, “disfarçar”, que veio do Italiano cammuffare, aparentemente da expressão capo muffare, “tapar, cobrir a cabeça”. Provavelmente houve influência no Francês de camouflet, “baforada”, com o sentido de “jogar fumaça nos olhos de outro”.

E nosso verbo enrolar? A partir da ação física de “enovelar, emaranhar” se fez o sentido metafórico de “enganar emaranhando idéias e informações”.

Vem de rolo, que vem do Latim rotulus, “pequeno cilindro”. Por sua vez, esta vem de rota, “roda”.

Outro verbo que pode trazer prejuízo para alguém é engambelar. Veio para nós do  baixo Latim gamba, que deu o Italiano gamba, “perna”, do Grego kampé, “curvo”. Meios indiretos, tortuosos, “curvos”, costumam ser usados para enganar as pessoas.

Ligada a isso está a expressão “passar a perna” em alguém para dizer que, metaforicamente, lhe foi dado um calço, foi feito algo que fez a pessoa tropeçar na realização de seus objetivos.

Também temos escamotear, usado quando o golpe contra a vítima implica em esconder algum objeto dela. Do Francês escamoter, “esconder, fazer desaparecer”, aparentemente do Espanhol camodar, do Latim commutare, “mudar, trocar”.

Bem, caras amigas, vou parando por aqui porque percebo que o nervosismo de estarem num lugar com uma única saída as está prejudicando.

Favor saírem com as mãos bem visíveis para eu ter certeza de que não se apoderaram sem querer de alguma coisa daqui.

 

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