Palavra gargalhada

RINDO

 

Mais uma noite de trabalho, mais um dinheirinho que vai entrar na conta corrente de X-8. Ele está perdido em pensamentos sobre aplicações financeiras quando ouve, vindo do corredor, uns risinhos.

É o grupo de palavras que ele vai atender esta noite, todas relacionadas com os diversos aspectos e significados de rir.

Elas entram e se espalham pelos bancos duros, de frente para o grande detetive que está sentado atrás de uma mastodôntica escrivaninha. Estão o tempo inteiro emitindo manifestações de achar graça em tudo.

O famoso profissional, tratando de se mostrar muito frio, começa a falar:

– É um prazer fazer contato com palavras que se divertem tanto. Iniciaremos aqui por riso: sua origem é o Latim risus, de ridere, “rir, mostrar-se alegre, manifestar alegria”. Tem a mesma origem que o Grego rizein, “grunhir, guinchar”.

A palavra não pareceu ficar muito contente com essa origem.

X-8, percebendo isso, seguiu adiante:

Naturalmente, suas primas risota, “riso de mofa ou escárnio”, risada, “riso alto ou repetido”, sorriso, “riso leve, apenas elevando os cantos da boca”  têm a mesma origem.

No caso de sorriso, acrescentamos que vem de sub, “abaixo”, mais riso.

Colho a ocasião para explicar que, em Italiano, riso também tem o significado de “arroz”. Só que, neste caso, a origem é o Latim risium, “arroz”, do Grego oryza, do Sânscrito vrihi, um grão que foi trazido da Ásia pelos remanescentes do exército de Alexandre o Grande.

Ou seja, até dá para comer um bom risoto achando graça, mas não confundam as origens.

Naquela extremidade se encontra irrisório, “cômico, ridículo, de tão pouco valor que desperta o riso”, do Latim in-, aqui como “em direção a, sobre”, mais ridere.

E ao seu lado vemos ridículo, do Latim ridiculus, “aquilo que desperta o riso”, de ridere com um sufixo diminutivo.

Existe o riso sardônico, um riso que denota ironia, zombaria, desprezo. Esta palavra tem origem no Latim sardonius risus, “riso amargo ou de desprezo”, tradução do Grego sardonios gelos, alterado a partir de sardanios, de origem incerta, por influência de sardonios, “relativo à ilha da Sardenha”. Isso porque se acreditava que comer de uma planta chamada sardonion, que lá abundava, causava convulsões faciais que lembravam um riso alterado, após o que se seguiria a morte.

Mas parece que havia certo exagero quanto aos resultados dessa ingestão. A planta, Ranunculus sardous, apresenta certa toxicidade mesmo, mas como é muito irritante para as mucosas é difícil alguém ingerir quantidades perigosas dela. Até mesmo o gado a evita.

Deixando de lado a mastigação de plantas venenosas, falemos agora da gargalhada, que está ali com vontade de se manifestar. Fique à vontade, cobramos apenas um pequeno extra para ruídos gerados durante uma sessão cultural. Sua origem é o Latim gurgulio, “garganta”, com um certo toque onomatopaico,  imitativo em relação ao ruído produzido nesta atividade.

Ali, muito discreta, está a palavra lol, uma novata em nosso idioma. Ela é usada em conversas escritas portadas pela Internet e nasceu em 1993. É uma sigla usada para a frase inglesa laughing out loud, “rindo alto” e nos parece que terá uma vida longa.

A pequena palavra se ruborizou.

Prosseguindo, ali está risório. Vem do Latim científico risorius, de risus e é o nome de um músculo situado no canto da boca e que o eleva no ato de rir ou sorrir.

Há um adjetivo que muitas vezes acompanha a palavra riso. É sarcástico, do Latim sarcasmus, do Grego sarkasmos, “deboche, reprovação insultuosa, observação usando desprezo”, de sarkázein. Este verbo queria dizer literalmente “arrancar a carne”, de sarx, “carne”.

Às  vezes ser alvo de sarcasmo pode ser pior do que receber uma mordida de animal que pretende fazer um lanchinho de nossa pessoa.

Quanto a risível, meio encolhida ali, veio do Latim risibilis, “aquele que faz rir, ridículo, cômico”, de risum.

Epa, o que é que eu vejo ali? Rizotônico? Parece que temos uma clandestina em nosso grupo. Seu significado é “palavra cujo acento tônico cai no radical” e vem do Grego rhyza, “raiz”, mais tonos, “modo de fazer, tom”. Nada tem a ver com riso.

Como? Já pagou por sua parte? Bem, discuta isso com as demais participantes do seu grupo, pois o que foi recebido já está contabilizado e não somos responsáveis pelas escolhas erradas de nossas clientes.

Como já terminamos mesmo, sugiro que se retirem antes que o bairro fique ainda mais perigoso do que já é.

Boas noites.

 

Resposta:

Gárgula

É noite na pior parte da cidade. Aliás, no resto dela também.

No seu escritório mal-encarado, X-8 espera uma cliente que tinha marcado hora por telefone. Ela havia exigido que não houvesse mais ninguém na sala de espera. Ele garantiu que não haveria.

Fácil: seu escritório não tinha sala de espera. Fora da sua porta reforçada, com a placa de latão brilhante que dizia apenas “X-8”, apenas o corredor sujo e mal iluminado, onde ninguém se atreveria a ficar esperando.

Ele está com a sua roupa de trabalho: uma gabardine cor de areia, amarfanhada e com a gola levantada, que o oculta quase todo. Um chapéu desabado sobre o rosto completa a tarefa. Nenhuma cliente conhece o seu aspecto físico. “É melhor assim”, gosta de pensar ele, com a vaga noção de que não sabe bem o que isso quer dizer, mas que é bastante dramático.

A porta é discretamente arranhada.

– Entre – diz ele.

A cliente empurra a porta e entra.

Apesar dos seus anos de crua experiência etimológica, X-8 se espanta. Sua boca se abre, felizmente sem ser vista do exterior.

Ele já tinha lido sobre isso, mas é a primeira vez que vê: ela usa um chapéu de abas largas, do qual pende um véu negro que vai até abaixo dos ombros. Apesar de inusitado, o conjunto feito com o vestido cinza-escuro e os sapatos de saltos altos e finos é inegavelmente elegante. E, principalmente, é usado com uma elegância fácil, inconsciente, capaz de bolir com quaisquer hormônios masculinos. As curvas estão logo ali, abaixo do tecido, e isso se percebe mesmo sem ver.

O detetive se sente remetido às histórias mais clássicas de sua profissão.

A figura alta e esguia com véu desliza harmoniosamente, sem ruído, parecendo nem tocar no chão. As curvas do corpo descrevem sinuosidades doces, macias, tépidas e vários outros adjetivos menos apropriados. Senta-se à frente da escrivaninha enorme, cruza as pernas e começa a falar. Sua voz é baixa e aveludada, suas palavras são concisas, sem qualquer hesitação:

– Sou uma palavra que só circula em meios cultos e viajados. Sou bastante requerida por estudiosos de História, Arte e Arquitetura. Mas me sinto muito solitária. Minhas origens… Não sei nada sobre elas. Estou à procura de meus parentes, se é que os tenho.

X-8, apesar de sua frieza, não pôde deixar de sentir um certo rubor de lisonja: então ele já era conhecido na elite! Ótimo.

Ela levantou o misterioso véu, mostrando quem era: Gárgula. Mostrou também olhos de um verde profundo enlouquecedores, um nariz de desenho delicado, lábios que eram um verdadeiro atentado ao pudor.

O detetive fez um considerável esforço para não deixar transparecer nenhuma emoção ao tratar dos seus emolumentos, mais gastos gerais, mais taxas, seguro, etc. etc. Sentiu-se suar um pouco quando combinou chamar a cliente assim que tivesse algo a relatar.

A intrigante figura velada se retirou, deixando atrás de si um perfume caro iluminando o ar e um investigador estranhamente perturbado. Perturbado a ponto de só mais tarde perceber que se tinha esquecido de cobrar um adiantamento, o que era absolutamente inédito para ele.

Após longos minutos fitando o vazio e aspirando o perfume, ele sacudiu a cabeça com força e se dirigiu à sua estante atulhada de livros.

Ao ver de quem se tratava, ele logo fizera idéia do que havia por trás. Mas, para fazer um trabalho completo e honesto, como sempre, ele abriu vários livros, pegou caneta e papel e começou a fazer anotações, absorto.

Na hora de escrever o seu laudo, hesitou. Apresentá-lo no habitual papel de jornal sujo e amassado, batido na sua máquina de escrever velha? Ou usar aquele papel especial cor de pêssego e imprimir numa fonte romântica? Dar a habitual impressão de profissional descuidado com as formalidades ou agradar mostrando-se sofisticado? X-8 se espantava consigo mesmo: nunca se havia visto num dilema deste tipo.

Raciocinou que aquela cliente devia preferir o que se podia esperar daquela ambientação sórdida. Resolveu escrever no papel pobre de sempre, na mesma máquina. Mas pelo menos não sujou nem amassou o papel depois de datilografar.

Eis o que resultou:

GÁRGULA –

Ao que tudo indica, a antiga raiz garg- ou gurg- surgiu como onomatopéia, uma imitação de sons feitos com a garganta, sem modulação pelas cordas vocais ou boca.

Daí surgiu o Grego gargarízein, “gargarejar”, que passou para o Latim como gargarizare. Neste idioma, gurgulio significava “garganta, esôfago, goela”. Gurgis era usado para “redemoinho”.

Dessas origens surgiu uma grande quantidade de palavras de uso atual, como:

Regurgitar – fazer sair de volta pela garganta.

Gargalhada – emitir sons de riso.

Gargalheira ou gorgueira – parte da armadura que protegia o pescoço.

Gargalo – o pescoço das garrafas. Por extensão, o ponto de estreitamento do trânsito, das atividades, de processos.

Gargantear – o ato de contar vantagens, de se supervalorizar.

Gargantilha – adorno para se usar em torno do pescoço.

Gargomilo – quando alguém está “cheio até os gargomilos”, está cheio até à garganta; não cabe mais.

Gorgolejar – o ruído de líquidos jorrando ou sendo vertidos, como através de um gargalo.

Gorjeta – esta é inesperada! Era a quantia de dinheiro dada a uma pessoa “para molhar a garganta”. O Francês tem uma palavra mais clara para isso: pourboire, literalmente “para beber”.

Se a pessoa que merece a recompensa for abstêmia, não deixe de lhe dar algo como propina, que significa “para comer”.

A Gárgula, distinta cliente, é um enfeite arquitetônico usado nos pontos de saída das calhas, nas igrejas antigas da Europa. Eram esculturas de seres fantásticos de cuja boca jorrava a água da chuva que caía nos telhados.

Dias depois, chamada por X-8, Gárgula compareceu ao desleixado escritório. O corajoso investigador havia tomado um banho caprichadíssimo e estava muito bem penteado. Claro que nada disso se enxergava de fora, mas ele estava se sentindo o máximo.

Esta cliente era uma palavra altiva e cônscia do seu valor. Deslizou para o escritório sem dizer nada, almofadada pelas suas curvas. Sem tirar o véu, ergueu levemente a cabeça, num inequívoco gesto de: – “E”?

X-8 não quis falar, por medo de lançar um grasnido. Indicou com o queixo o envelope pardo lacrado sobre a mesa. Em silêncio, a palavra o pegou, colocou-o numa finíssima bolsa de couro negro, largou um maço de dinheiro atado com uma fita dourada em seu lugar.

Deu meia-volta e flutuou para fora, uma visão etérea, deixando atrás de si um perfume intenso e um detetive abalado.

Primeiro o detetive embolsou o dinheiro, depois chegou à janela para ver a cliente pairar pela rua suja, três andares abaixo, passando sob a luz crua da lâmpadas dos postes. O véu se movia em torno dela, sugerindo mistérios sobre mistérios, em camadas concêntricas.

X-8 nunca se tinha sentido tão apropriado em sua profissão.

Encostado à parede que fazia ângulo com a janela, pensou que o momento pedia um cigarro. Ah, lançar as preguiçosas volutas de fumaça azulada para o ar na solidão do devaneio, acompanhar as suas formas caprichosas…

Se ao menos ele soubesse fumar!

Então, pelo menos um uísque. Como todo detetive particular, ele guardava uísque barato numa gaveta de arquivo metálico, com a letra “U” na frente. Pegou um copo de plástico, abriu a garrafa, aspirou profundamente o cheiro que saía do gargalo.

Tossiu, engasgou-se, fez uma cara de nojo irreprimível e guardou rapidamente a garrafa de volta. Foi até o frigobar que havia na sala ao lado, onde os clientes
não entravam, tirou uma lata de suco de morango e voltou para a janela.

Contemplou longamente a rua deserta, marcada a intervalos pelos círculos de luz, enquanto bebericava o seu suco. Ele tinha a sensação de enxergar o rastro de perfume por onde Gárgula tinha passado.

Precisou usar de todo o seu cinismo para evitar pensamentos doces sobre a cliente misteriosa que recém tinha saído.

Usou-o também para evitar a desmoralização despertada por aquela lata fria em sua mão.

– “Ossos do ofício”, pensou.

Ser um Detetive Etimológico é coisa para poucos. O sujeito tem que ser puramente profissional.

Mas, ao guardar a fita dourada que envolvera o maço de dinheiro na sua carteira, não pôde deixar de pensar que tinha o telefone de Gárgula em sua agenda.

Resposta:

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