Palavra status

STATUS

 

Como estão bonitinhas minhas meninas hoje! Parece até que se combinaram para vir na última moda infantil, com roupinhas cor-de-rosa ou ciclame, adereços de acordo, fitinhas nos cabelos…

Pena que essa arrumação toda não vá chegar muito longe, estou certa disso. Em seguida vai começar uma confusão qualquer, as roupas vão ser rasgadas, as fitinhas serão puxadas… Conheço minha freguesia.

Na fútil tentativa de evitar esse fato bárbaro, vamos primeiro lembrar que o limite entre a boa apresentação e a ostentação vulgar às vezes pode levar a escorregões. A seguir, vamos lidar com palavras relacionadas a essas atividades de vaidade.

Esta, por exemplo, vem do Latim vanus, “vazio, ocioso”, do Indo-Europeu wa-no-, de uma raiz eue-, “deixar, abandonar, desistir”. Até parece que quem inventou a palavra pensava que ela iria representar o ato de abandonar o bom senso.

Outra que vem ao caso é o tal de status. Esta é a palavra latina para expressar “condição, posição, maneira, postura”, e se relaciona a stare, “ficar de pé, estar”. Há quem ache que se obtém mostrando coisas compradas, mas é engano.

Fale, Valzinha. Hum, suas vizinhas dizem que uma delas é exibicionista, por que? Ah, ela vai pegar cartas na caixa da correspondência de camisolinha curta e transparente? Deixe para lá, ela deve é sentir muito calor.

E rapidamente acrescento que exibir vem do Latim exhibere, “mostrar, expor à vista”, literalmente “segurar à vista de todos”, de ex-, “fora”, mais habere, aqui com o sentido de “segurar”.

E que ostentação deriva do Latim ostentatio, “exibição inútil, vã”, de ostendere, formado por ob-, “à frente”, mais tendere, “alongar, esticar”. Parece que a pessoa está estendendo as suas posses para os outros verem e acharem que ela é importante.

E agora a Tia Odete, em absoluta primeira mão, vai ensinar a vocês uma palavrinha que vocês não conhecem. Aposto que nem seus pais ou avós sabem o que é. Trata-se de gualdir, que significa “gastar exageradamente, esbanjar, botar dinheiro fora”. Ela aparentemente vem do Latim gluttire, “tragar, engolir”, que originou também glutão.

Ao chegarem em casa, podem exibir-se para a família com os seus conhecimentos.

dissipar é do Latim dissipare, “atirar de um lado para outro, destruir, espalhar”, se forma por dis-, indicando afastamento ou oposição, mais sipare, “lançar, atirar”. Chacoalhar o dinheiro com bobagens acaba destruindo nosso patrimônio.

desperdiçar é do Latim disperditio, “ruína, destruição, perdição”, de dis-, mais perdere, “perder”.

Como exemplo, Tia Odete vai contar para todos uma história de índios. Prestem atenção.

No noroeste dos Estados Unidos e em parte do Canadá, os colonizadores brancos depararam com uma festividade muito estranha.

Era o potlatch, que em Chinook quer dizer “presente” ou “ato de dar”.

Várias tribos se dedicavam a ela, como os Kwakwaka’wakw, Nuu-chah-nulth, Tsimshian e outros nomes que não precisamos decorar porque não vão cair em prova nenhuma.

Era um costume observado pelos ricos da tribo, e a coisa se dava mais ou menos assim: um belo dia, um deles convocava os amigos e vizinhos para uma festança.

Havia comida, bebida, cantos e danças. Até aí, nada de diferente. Mas então os donos da festa começavam a dar presentes: cobertores, peças de cobre, escravos, comida, peles de animais, canoas  –  enfim, coisas de valor. Quanto maior, melhor

O anfitrião dava essas coisas e desafiava os que as recebiam a entregar  outras de maior valor ou a destruí-las numa fogueira.

Aqueles que não podiam acompanhar à altura o ato de presentear ficavam humilhados, sentiam-se diminuídos, perdiam poder e status perante os outros.

Quando os brancos chegaram, com seus produtos industrializados, como contas de vidro, ferramentas, tecidos, houve uma inflação de objetos a serem dados, o que levou os aborígines a competirem ainda mais ferozmente pela distinção de serem os mais mãos-abertas.

Os missionários que tentavam converter as tribos se opuseram fortemente a esse hábito, a ponto de serem passadas leis no Canadá e Estados Unidos proibindo-o. O fato é que eles achavam que o hábito era um desperdício e algo alheio à civilização e aos seus propósitos de catequese.

Não, Lary, isso não quer dizer que você está proibida de dar uma lembrancinha para algum amigo. Ou, falando nisso, para alguma professora muito querida. Algo simples como um lindo vestido de seda, um livro importado, chocolate belga, coisinhas assim.

Quanto ao potlatch, a proibição foi suspensa há tempo. Pensando bem, nem tanto: nos Estados Unidos, isso ocorreu recém em 1951.

Sua querida Tia Odete até já era nascida nessa época. E não me olhem com essas caras de quem está enxergando um dinossauro!

Não, Ledinha, os índios que tinham esse costume não foram parar todos na prisão. Na realidade, as próprias autoridades perceberam que não havia meios para coibir a prática e afrouxaram a fiscalização, confiando em que as alterações de costumes com o tempo iriam trazer um fim aos festivais.

O fato é que hoje eles estão sendo revividos pelos indígenas que querem recuperar suas tradições.

E há estudiosos que dizem que se trata de um sistema de troca de presentes com implicações políticas, religiosas e familiares, com muitos dos presentes recebidos devendo ser passados adiante em festivais seguintes.

Mesmo assim, para os meus aluninhos que certamente já estão pensando em fazer um potlatch com suas roupinhas e brinquedos, fica a recomendação da Tia Odete de não fazerem festivais desses.

 

Resposta:

Olá… gostaria de saber a origem dos seguintes termos :

verecundiam (gostaria que fragmentasse por favor)

personalidade

comodato

mútuo

busílis

status

GRATO !

Resposta:

1) Este é o acusativo singular da palavra latina VERECUNDIA, “vergonha, derivada de VERERE, “sentir um temor religioso”.

2) L., PERSONALITAS, de PERSONALIS, “relativo a uma pessoa”, de PERSONA, “ser humano, pessoa”, originalmente “um personagem numa peça teatral”, talvez do Etrusco PHERSU-, “máscara”. Naturalmente que “pessoal” tem a mesma origem, bem como “interpessoal” (com o prefixo INTER, “entre”) e “impessoal” (com o prefixo IN-, negativo).

3) L., COMMODATUM, “empréstimo gratuito”, de COMMODUS, “próprio, adequado”, formado por COM, “junto”, mais MODUS, “jeito, maneira”.

4) L., MUTUUS, “recíproco, feito em troca de”.

5) Origem controversa; há quem diga que foi extraído da frase latina IN DIEBUS ILLIS, “naquele dia”.

6) É a palavra latina para expressar “condição, posição, maneira, atitude”, e se relaciona a STARE, “ficar de pé, estar”.

Estátua

Em Grego Clássico, o verbo hístanai significava “fazer ficar em pé”. Uma palavra não muito longa mas que teve uma prole numerosíssima, sem a qual não conseguiríamos nos comunicar.

Statós era “aquele que fica em pé, que fica ereto”. Em Latim, esse significado se manifestou no verbo stare, “estar”.

STATUS – muito em voga atualmente para dar uma sensação da ordem que alguém ocupa na hierarquia social. Em Inglês tem um uso de cerca de 400 anos.

O interessante é que a palavra em si é usada apenas no sentido de status bom, positivo: “Aquilo me deu o maior status“.

ESTADO – é a maneira como se apresenta a situação em dado momento. É um modo de dizer como tudo está.

Refere-se também a uma nação soberana ou a uma subdivisão administrativa dela.

ESTATÍSTICA – inicialmente, era “o conjunto de abastecimentos de um estado”. Mais tarde se aplicou ao uso de dados e informações para a administração de uma cidade e depois passou a abranger uma área muito mais ampla, aplicável a qualquer ciência.

ESTÁTICA – refere-se àquilo que está parado. Na Física, estuda certas ações sobre corpos que estão em equilíbrio.

Quando só se ouve chiado num rádio, dizemos que há estática, querendo dizer que a emissão está inativa.

ESTATURA – é a medida da pessoa quando está em pé.

ESTÁTUA – figura em relevo, seguindo o sentido de “fazer ficar firme”; do Latim statua.

ESTATUTO – vem de statuere, “manter em pé, estabelecer, firmar”. Um estatuto é um conjunto estabelecido de normas que se mantém em ação.

ESTABILIDADE – é a “ação de se manter”. Quem tem estabilidade em determinada área nela se mantém sem grandes alterações.

ESTATIVA – é a parte de um equipamento que serve para mantê-lo em pé. Um tripé para máquina fotográfica, por exemplo, é um tipo de estativa.

ESTÁDIO – deriva do Grego stadion, uma medida fixa de comprimento que equivalia a cerca de 185 metros.

DESTINO – do Latim de-, intensificador, mais stanare, derivado de stare. Destinare era “fixar, afirmar, estabelecer”. Passou a ser usado como “aquilo que é firmemente estabelecido para uma pessoa”. Às vezes, apelar para o Destino é uma maneira confortável de levar a vida sem lutar muito.

PRÓSTATA – do Grego prostatés, “o que se coloca à frente”, do verbo prohístanai, de pro-, “à frente”, mais hístanai, dada a situação desta glândula no sistema urogenital masculino.

PROSTITUTA – as moças desta antiga profissão, em Roma, “ficavam” (stare) “em frente” (pro-) dos possíveis clientes, fazendo uma exibição do material oferecido. Daí prostituere, “prostituir-se”.

METÁSTASE – do Grego metá-, “além, ao lado”. Designa as células que “estão além” do órgão de origem, que se deslocaram para onde não deviam estar.

SISTEMA – do Grego synístanai, “colocar junto ao mesmo tempo”, de syn-, “junto”, mais hístanai. Systema passou a designar “reunião de diversas partes diferentes”.

CONSTÂNCIA – do Latim com-, intensificativo, mais stare, com o sentido de “permanência, firmeza, segurança”. A pessoa constante é aquela que sempre está daquele jeito em relação a uma determinada característica.

CIRCUNSTÂNCIA – “condições que cercam um fato e que são inerentes à sua natureza”. Vem do Latim circum-, “ao redor”, mais stantia, de stare.

DISTÂNCIA – do latim dis-, “aparte, separado”, mais stantia: “o que está longe, que está afastado”.

Distal é “o elemento mais afastado numa série”. Falange distal é o ossinho do dedo situado mais na extremidade.

OBSTARde ob-, “à frente”, mais stare. Quem “fica à frente” de outra pessoa a está impedindo de chegar onde quer.

Usando o diminutivo, temos obstaculum, “obstáculo, aquilo que impede”.

OBSTETRA – o profissional que “fica à frente” do canal do parto para receber o nascituro, formado como no verbete acima. Só que aqui é para ajudar, não para atrapalhar.

INTERSTÍCIO – de intersticium, “o que fica entre duas coisas”.

ESTÁBULO – é o lugar onde fica, onde está o gado.

RESTITUIÇÃO – de restituere, formado por re-, “de novo, de volta”, mais -stituere, forma que assume a palavra status com a conotação de “estabelecer” ao formar outras palavras.

Resposta:

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