Ainda Divindades Antigas Em Nossa Vida [Edição 48]

Já vimos, nas edições 3 e 9 desta seção, como os nomes relacionados à mitologia greco-romana estão presentes em nosso idioma atual. Por incrível que pareça, ainda há mais palavras que enquadram nessa classificação. A seguir:

OSCILAR – nos jardins romanos costumava-se pendurar, nos galhos das árvores, pequenas máscaras de Baco, deus relacionado com a natureza e o crescimento da vegetação. Elas eram chamadas de oscillum, “pequena face, mascarazinha” ou “pequena boca”.

O movimento que o vento lhes imprimia acabou recebendo o nome desses adornos e formou o verbo oscillare, “ondular, sacudir-se”.

PALÁCIO – veio do Latim palatium, “residência real”. E isso se deve ao esplêndido prédio construído por Nero numa das colinas de Roma, o Mons Palatinus, “Monte Palatino”, no local onde havia sido a casa de Júlio César.

E o nome deste provavelmente se deve a Pales, uma deidade de origem etrusca, que presidia à vida pastoril e ao gado.

DÉDALO – eis uma palavra que a incultura que toma conta de nosso povo relegou ao esquecimento. Significa “labirinto, lugar onde a orientação é difícil”.

Deriva do nome do mítico arquiteto e inventor ateniense, Daídalos, que teria construído, para o rei Minos, de Creta, um labirinto extremamente complicado.

LABIRINTO – esta palavra se liga também à situação descrita acima. Ela deriva do Grego labyrinthos, “labirinto, prédio com passagens complicadas”, que viria de labrys, “machado de dois gumes”. Sendo este o símbolo do poder real cretense, faz-se a suposição de que o labirinto original fosse o palácio real, e que seu nome quisesse dizer “palácio do machado duplo”.

ÍCARO – poucos sabem, mas este substantivo em nosso idioma quer dizer “pessoa que se deu mal por se achar mais capaz do que é”.

E faz parte do assunto acima. É que Dédalo, após terminar o labirinto, acabou jogado lá dentro, junto com seu filho Ikaros, “Ícaro”.

Parece que o rei Minos não estava lá com muita vontade de pagar os honorários do seu arquiteto.

Antes que o Minotauro, monstro feroz muito pouco amistoso, que habitava o local, descobrisse os dois, Dédalo fez dois pares de asas com cera e penas das aves que encontrou pelo chão.

Ele e Ícaro levantaram vôo com esses equipamentos, mas o curioso jovem, sem seguir o conselho do pai, subiu demais. O calor do sol derreteu a cera das asas, com o que o rapaz se espatifou no mar abaixo; daí o uso de seu nome para certas condutas.

PERDIZ –  nosso amigo Dédalo rendeu muito em matéria de palavras. O nome desta ave vem do nome de um seu sobrinho dele, Perdix.

Acontece que este rapaz, sim, é que era o gênio da família. Seu tio era um grande inventor, mas o sobrinho o botava no chinelo. Um dia, Dédalo o convidou para um passeio à beira de um precipício e, movido pela inveja, empurrou-o para a morte.

No entanto, os deuses, que tudo viam, se compadeceram da sorte do coitado e o transformaram numa ave antes que ele chegasse ao chão.

Daí surgiu a nossa perdiz. Mas essa ave, traumatizada com o fato, para sempre se dedicou ao vôo rasteiro. Ficou com horror das alturas.

Pudera!

MEANDRO – na Frigia havia um deus-rio chamado Maíandros, “Meandro”, cuja origem talvez seja o Indo-Europeu mai-, “manchar, sujar”, trazendo o significado de “rio dos pantanais”.

Como ele era extremamente retorcido, esse nome passou a designar “caminho muito tortuoso, muito cheio de voltas”.

CALAMIDADE – bem, o deus-rio acima teve um filho chamado Kálamos, “Cálamo”, que até hoje significa “haste de gramínea, caniço, caule”.

O rapaz era muito, muito amigo de um outro de sua idade, Carpo. Um dia ambos se banhavam no rio Meandro quando Cálamo desafiou o amigo para uma corrida natatória durante a qual o outro se afogou.

A amizade deles era tão grande que o filho do deus-rio acabou secando de tristeza e virando apenas um caniço na beira da água.

Os romanos chamavam alguma doença que afetasse as hastes do trigo de calamitas, “a doença do cálamo” de onde vem nossa atual calamidade.

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