Ilusão [Edição 45]

X-8, o famoso detetive que resolvia qualquer problema etimológico, por perigoso que fosse, acabava de receber uma palavra cliente, que comparecia ao seu local de trabalho, o escritório de investigações etimológicas mais famoso do bairro.

Na verdade, o único do bairro, mas isso não era importante. Pelo menos tinha o destaque de se tratar de um lugar com muitos livros, o que contrastava violentamente com o restante das moradas, onde nem jornal havia.

Pudera; o bairro era tão ruim que os entregadores se negavam a trabalhar lá.

Mas, esquecendo os seus entornos, vemos que o detetive, usando a gabardine e chapéu que caracterizam sua profissão, se senta, impávido, à frente da sua consulente. Esta é uma palavra recatada, sentada sobre um longo banco de madeira lustrosa, que tinha pertencido outrora a uma churrascaria e que X-8 tinha comprado a preço de banana quando o estabelecimento quebrou.

Depois que ela paga adiantado pelo serviço (com X-8 é assim…), ele diz, em sua voz elaboradamente fria e indiferente:

– Então, Dona Ilusão, a senhora quer saber de onde veio e para onde vai, não? Para onde vai não posso saber, mas de onde veio, sim.

Sua origem é o Latim illusio, um termo de retórica que equivalia a “ironia”. Tratava-se de um artifício do discurso em que o orador debochava de um adversário, fingindo dizer coisa diferente do que ele na realidade estava falando.

O termo se forma por in-, dando a sensação de inclusão, mais ludere, de ludus, “jogo, brincadeira”, que deriva do Indo-Europeu leidh-, “brincar”.

Com o tempo, a palavra perdeu o sentido técnico inicial e passou a significar “erro de percepção” ou “erro de julgamento”.

Há uma outra conotação também para a senhora: a de “esperança por erro de avaliação”. Uma pessoa pode dizer que “tinha a ilusão de que tudo ia dar certo”. Nessa situação, ela pode dizer que sofreu uma desilusão, formada por ilusão precedida por des-, um prefixo de significado negativo.

Outra palavra parente sua é ilusionista. A pessoa que faz truques de prestidigitação é alguém que leva o público a cometer erros de percepção.

Entre suas parentes se contam também as ludotecas. É o nome correto dado aos lugares onde são colocados à disposição do público jovem jogos e brinquedos. Forma-se pelo ludus já citado e pelo Grego theke, “caixa, depósito, lugar de guarda, conjunto”.

Eu destaquei que é o nome correto porque tenho visto cada vez com mais freqüência a horrenda, mal-soante, fétida e monstrengosa palavra brinquedoteca. Não sei quem foi o infeliz que a inventou, mas com isso demonstrou ser uma pessoa que merecia definhar num calabouço até o fim de seus tristes dias.

Mais um derivado de ludus é o nosso lúdico, que quer dizer “relativo aos jogos, à diversão”.

Se uma pessoa induz outra a um engano, o verbo usado para descrever esse ato é ludibriar, evidentemente um derivado seu, prezada cliente.

Para finalizar, se alguém tentar lhe dizer que a senhora deriva de “luz”, favor chamar a Polícia Etimológica e denunciar devidamente o crime de Falsa Etimologia. Está na hora de dar um basta nesses atentados que vêm sendo cometidos em relação à matéria, possivelmente parte de uma conspiração mundial contra a cultura.

Passar bem, minha prezada cliente, e fico sempre à disposição sua e de quaisquer outras palavras que pretendam enriquecer seu cabedal de conhecimentos. Falando em enriquecer, cada vez que me encaminhar uma palavra, favor informar que sempre cobro adiantado.

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