Palavra brinquedoteca

Jogos De Azar Na Aulinha

– Que horror, Santo Antenor! Que pesadelo, São Serzedelo! Uma contravenção, meu São João!

Cri-an-ças! Dedicando-se aos jogos de azar em plena aula! Volto do recreio e descubro um antro criminoso, um covil de mafiosos aqui! Só faltam o uísque e os charutos!

Não, Valzinha, não quero saber se era um inocente jogo de dados para ver quem tinha mais sorte ou mais azar. É assim que começa a queda para o abismo, em cujo fundo se encontra Satanás com suas hostes, esperando para espetar as crianças viciadinhas com seus tridentes farpados. E não pensem que há TV a cabo para se olhar por lá quando não se está sendo torturado!

Como é? Que nem o seu vizinho, que joga cartas em casa e já perdeu diversas vezes a mulher para outros? Não, não quero nem saber, vamos passar para outro assunto mais ameno, como imaginar vocês passando a Eternidade no inferno.

Deem aqui esse material, está apreendido. E desde já fiquem sabendo que dado vem do Latim donare, “dar”. Exatamente por que nunca pude entender.

E cartas é do Latim charta, “folha de papel” material em que são impressos esses verdadeiros convites do Demônio.

Já a palavra jogo vem do Latim jocus, “pilhéria, gracejo, zombaria”. O que eles usavam para designar o que agora conhecemos como jogo era ludus, mas esta foi dominada pela outra.

Agora ela trabalha fazendo parte de palavras mais cultas, como “lúdico”. Inclusive surgiu a moda de se usar a detestável pseudo-palavra brinquedoteca, para designar um local onde há jogos e brinquedos à disposição dos interessados; invenção de gente ignorante que não sabe que se deve dizer ludoteca, de ludus mais o Grego theke, “caixa, lugar para guardar algo”.

Quando eu vejo essa horrível palavra, saio correndo atrás com o chinelo na mão e a esmago como se fosse uma barata.

Quanto a saber se alguém tem sorte, é uma grande bobagem. Esta não passa de uma coincidência que favorece a pessoa.

O que me traz à mente a afirmação de Mark Twain, para quem “Coincidência é a única explicação que um trouxa encontra para a coincidência”.

Colho a ocasião para dizer que sorte vem do Latim sors, “parte, porção, o que cabe a cada um”. Ela apresentou uma evolução, em vários idiomas, no sentido exclusivo de “boa sorte, fortuna”.

Mas não pensem que esta pode ser adquirida apostando na loteria; esta, que deriva do Inglês arcaico hlot, “objeto usado para fazer uma escolha, para tirar a sorte”; não vale a pena para ganhar dinheiro, não.

O hlot podia ser uma varinha, uma pedra, qualquer coisa que pudesse ser colocada num recipiente e retirada às cegas pelos participantes.

E o azar vem do Árabe sahr, “flor”, pois uma das faces dos dados árabes tinha o desenho de uma florzinha. Em Espanhol, essa palavra tem uma conotação diferente da nossa; quer dizer “acaso”, sem definir se é bom ou mau.

Falando nisso, acaso vem do Latim a casu, “por acaso”, onde casu quer dizer “possibilidade, acontecimento” e deriva de cadere, “cair”. Não é uma noção interessante, a de comparar o acaso a algo que “cai” na nossa frente?

Agora, a fortuna vem do Latim fortuna, “boa sorte”, de fors, “possibilidade, força”. Inicialmente queria dizer apenas “boa sorte”, mas acabou ficando mais com o significado de “riqueza”.

Muitas vezes ela era personificada como uma deusa, em Roma; daí a frase “a fortuna lhe sorriu”. Mas não se esqueçam de que esta gosta mesmo de sorrir é para quem estuda e trabalha bastante.

Claro que ela faz exceções, como no caso de certas pobres professoras que trabalham que nem umas mouras e que da cor do dinheiro veem muito pouco, mal dá para comprar o Nervocalm de que ela precisa para não ter ataques em plena rua.

E agora vão para suas casas. Lá podem jogar até roleta, mas aqui é sem jogos.

Resposta:

Ilusão

X-8, o famoso detetive que resolvia qualquer problema etimológico, por perigoso que fosse, acabava de receber uma palavra cliente, que comparecia ao seu local de trabalho, o escritório de investigações etimológicas mais famoso do bairro.

Na verdade, o único do bairro, mas isso não era importante. Pelo menos tinha o destaque de se tratar de um lugar com muitos livros, o que contrastava violentamente com o restante das moradas, onde nem jornal havia.

Pudera; o bairro era tão ruim que os entregadores se negavam a trabalhar lá.

Mas, esquecendo os seus entornos, vemos que o detetive, usando a gabardine e chapéu que caracterizam sua profissão, se senta, impávido, à frente da sua consulente. Esta é uma palavra recatada, sentada sobre um longo banco de madeira lustrosa, que tinha pertencido outrora a uma churrascaria e que X-8 tinha comprado a preço de banana quando o estabelecimento quebrou.

Depois que ela paga adiantado pelo serviço (com X-8 é assim…), ele diz, em sua voz elaboradamente fria e indiferente:

– Então, Dona Ilusão, a senhora quer saber de onde veio e para onde vai, não? Para onde vai não posso saber, mas de onde veio, sim.

Sua origem é o Latim illusio, um termo de retórica que equivalia a “ironia”. Tratava-se de um artifício do discurso em que o orador debochava de um adversário, fingindo dizer coisa diferente do que ele na realidade estava falando.

O termo se forma por in-, dando a sensação de inclusão, mais ludere, de ludus, “jogo, brincadeira”, que deriva do Indo-Europeu leidh-, “brincar”.

Com o tempo, a palavra perdeu o sentido técnico inicial e passou a significar “erro de percepção” ou “erro de julgamento”.

Há uma outra conotação também para a senhora: a de “esperança por erro de avaliação”. Uma pessoa pode dizer que “tinha a ilusão de que tudo ia dar certo”. Nessa situação, ela pode dizer que sofreu uma desilusão, formada por ilusão precedida por des-, um prefixo de significado negativo.

Outra palavra parente sua é ilusionista. A pessoa que faz truques de prestidigitação é alguém que leva o público a cometer erros de percepção.

Entre suas parentes se contam também as ludotecas. É o nome correto dado aos lugares onde são colocados à disposição do público jovem jogos e brinquedos. Forma-se pelo ludus já citado e pelo Grego theke, “caixa, depósito, lugar de guarda, conjunto”.

Eu destaquei que é o nome correto porque tenho visto cada vez com mais freqüência a horrenda, mal-soante, fétida e monstrengosa palavra brinquedoteca. Não sei quem foi o infeliz que a inventou, mas com isso demonstrou ser uma pessoa que merecia definhar num calabouço até o fim de seus tristes dias.

Mais um derivado de ludus é o nosso lúdico, que quer dizer “relativo aos jogos, à diversão”.

Se uma pessoa induz outra a um engano, o verbo usado para descrever esse ato é ludibriar, evidentemente um derivado seu, prezada cliente.

Para finalizar, se alguém tentar lhe dizer que a senhora deriva de “luz”, favor chamar a Polícia Etimológica e denunciar devidamente o crime de Falsa Etimologia. Está na hora de dar um basta nesses atentados que vêm sendo cometidos em relação à matéria, possivelmente parte de uma conspiração mundial contra a cultura.

Passar bem, minha prezada cliente, e fico sempre à disposição sua e de quaisquer outras palavras que pretendam enriquecer seu cabedal de conhecimentos. Falando em enriquecer, cada vez que me encaminhar uma palavra, favor informar que sempre cobro adiantado.

Resposta:

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