UMA NOITE DE TERROR II [Edição 95]

(CONTINUAÇÃO)

 

O conferencista de gabardine chega a um canto daquele cenário macabro e levanta uma espada muito grande e estranhamente leve:

– Muitas das execuções de que acabo de falar eram feitas com um objeto como este, uma espada. Esta palavra vem do Grego spathé, “peça achatada de madeira usada pelos tecelões, pá do remo”. Como se vê, ela começou a vida sendo usada para nomear objetos construtivos, mas logo passou a ter usos menos pacíficos.

Ela a larga no chão e ergue um machado de lâmina dupla, também leve demais:

– Quando não se usava a espada se usava isto, o machado. Uns dizem que deriva do Francês hache, do  Frâncico hapja; outros, que vem é do Latim marculatus, derivado de marcus, “martelo”. Seja como for, era uma visão assustadora para quem estava no cadafalso.

Após depositar o machado no chão, o detetive se aproximou da assustadora guilhotina. Encostou de leve a mão nela e levantou dramaticamente o olhar para a lâmina com manchas escuras que estava no alto:

– Como muitas vezes a execução por espada ou machado levava a espetáculos pouco condizentes com a compaixão humana, um médico francês, resolveu enfrentar a questão. Seu nome era Joseph-Ignace Guillotin.

Em 1789, quando as mãos do povo francês estavam coçando para cortar algumas cabeças, ele propôs que a pena de morte fosse a mesma para todas as pessoas do país, independentemente de classe social: decapitação por meio de aparelho adequado. A ideia era eliminar a vida rapidamente e com o mínimo de dor.

A voz do detetive se tornou cavernosa quando ele disse:

– Até então, a execução com espada ou machado era reservada só para os nobres. Muitas vezes a família do condenado pagava para garantir que o carrasco mantivesse a lâmina bem afiada, para acelerar o ato.

Já com um tom mais leve, ele prosseguiu:

– O aparelho entrou finalmente em uso em 1792, com grande sucesso. Ficou sendo o único método de execução para civis na França por pena capital até 1981, quando a pena de morte foi abolida por lá.

Existe uma lenda que diz que o Dr. Guillotin morreu por seu próprio aparelho durante a Revolução Francesa. Não é verdade; o que ocorreu foi que um outro médico, de mesmo sobrenome, foi decapitado. Guillotin morreu de causas naturais bem mais tarde.

Ele é muitas vezes visto como um sádico que inventou um método industrializado de matar. Isso é errado.

Para iniciar, não foi ele que criou o aparelho. Mecanismos semelhantes existiam já havia séculos. O que entrou em uso na França foi apenas um melhoramento feito após alguns estudos.

O Dr. Guillotin era contra a pena de morte e esperava que o aparelho começasse uma era de mudança que a eliminasse como método de castigo.

O fato de a guilhotina ser aplicada a todas as classes sociais era, digamos, um tipo de democratização penal.

O doutor também se bateu para que as execuções deixassem de ser públicas, querendo assim impedir que o povo tivesse distração tão macabra. Um dos artigos de sua legislação impedia que o Estado se apoderasse dos bens do falecido, como era o uso até então.

Mas a má fama acabou sendo incômoda. A família peticionou ao governo, mais adiante, para que o nome do aparelho mudasse. Como o pedido foi recusado, a família trocou de nome.

 

Caminhando para o outro lado da fúnebre paisagem, o narrador se aproxima da cadeira elétrica:

– Aí por 1880, em Nova Iorque, sempre tentando fazer da pena de morte algo rápido e indolor, foi concebida a cadeira elétrica. Um dos membros do comitê dedicado ao assunto era um dentista; por estar ele acostumado a tratar seus pacientes numa cadeira, o aparelho acabou se baseando nesta forma.

É esquisito, mas não é piada, não.

Os dois técnicos que fizeram o desenvolvimento do mecanismo eram empregados do famoso inventor Thomas Edison, o do fonógrafo, da lâmpada elétrica e outras centenas de patentes. Isso acabou trazendo a ele a fama de ter inventado a tal cadeira, mas não é verdade.

É interessante saber que a palavra inglesa electrocution inicialmente significava apenas  “execução de pena de morte através da eletricidade”. Como não havia outras palavras no idioma sobre o assunto, depois ela acabou se aplicando a quaisquer mortes por eletricidade, mesmo as acidentais.

A primeira parte desta palavra deriva de electric, “elétrico”, de eletron, do Grego elektron, “âmbar”. Como esta substância, quando esfregada, produz eletricidade estática bem discernível, seu nome foi aplicado aos fenômenos elétricos através do Latim científico electricus, “o que lembra o âmbar”.

E a segunda parte vem de execution, do Latim executio, formado por ex-, “para fora”, mais sequi, “seguir”, com o sentido de “levar em frente”  – no caso, uma punição.

 

Nesse momento, a lua que estava no alto do céu, paradinha, tão brilhante e cheia, balançou e caiu fragorosamente sobre a cadeira elétrica, espatifando-a. O corajoso detetive saiu correndo e tropeçou na guilhotina. Ela se esfacelou e um dos seus pedaços fez o cepo rolar pelo chão, indo desmantelar por sua vez a forca, que se partiu como se fosse feita de isopor.

O que era o caso. Aliás, era o caso de todos aqueles objetos, excetuados os morcegos de plástico que pendiam imóveis dos galhos secos de árvore que complementavam o cenário.

Enquanto o detetive se debatia no meio daquela confusão improvável de pedaços de coisas, aproximou-se uma figura magra e que só sabia olhar de esguelha. Trata-se de Fininho, o ecônomo do Clube Ultrapassador de Toda a Ralé, conhecido por todos como “O Cultoral”.

Eleva a voz para se sobrepor à gritaria em aplausos do público, formado por palavras e pessoas, que está delirando porque acha que a sucessão de desastres no palco foi proposital:

– Tivemos um pequeno problema técnico com um dos fios que seguravam o nosso refletor, mas não faz mal porque a nossa apresentação de um quadro de Etimologia Mórbida já estava no fim mesmo.

Destaco que o quadro foi escrito e interpretado pelo nosso maior e único intelectual, o Detetive das Palavras, X-8, para o qual peço demorados aplausos!

Colho o ensejo para lembrar que o cenário foi inteiramente feito pelas senhorinhas de maior destaque de nossa sociedade, com materiais que seus pais encontraram por aí e que tem gente por aí em atraso com as mensalidades do nosso Clube e que é melhor pagarem loguinho em dia, antes que a Diretoria se irrite.

Delirantes aplausos são dirigidos à figura encapotada e empoeirada que tenta se erguer no meio do palco.

 

Dias depois, X-8 meteu a mão por acaso dentro do bolso da sua gabardine e dali retirou um morceguinho de plástico. Jurou que seria a sua última participação teatral.

 

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