Palavra eletrocussão

UMA NOITE DE TERROR II

(CONTINUAÇÃO)

 

O conferencista de gabardine chega a um canto daquele cenário macabro e levanta uma espada muito grande e estranhamente leve:

– Muitas das execuções de que acabo de falar eram feitas com um objeto como este, uma espada. Esta palavra vem do Grego spathé, “peça achatada de madeira usada pelos tecelões, pá do remo”. Como se vê, ela começou a vida sendo usada para nomear objetos construtivos, mas logo passou a ter usos menos pacíficos.

Ela a larga no chão e ergue um machado de lâmina dupla, também leve demais:

– Quando não se usava a espada se usava isto, o machado. Uns dizem que deriva do Francês hache, do  Frâncico hapja; outros, que vem é do Latim marculatus, derivado de marcus, “martelo”. Seja como for, era uma visão assustadora para quem estava no cadafalso.

Após depositar o machado no chão, o detetive se aproximou da assustadora guilhotina. Encostou de leve a mão nela e levantou dramaticamente o olhar para a lâmina com manchas escuras que estava no alto:

– Como muitas vezes a execução por espada ou machado levava a espetáculos pouco condizentes com a compaixão humana, um médico francês, resolveu enfrentar a questão. Seu nome era Joseph-Ignace Guillotin.

Em 1789, quando as mãos do povo francês estavam coçando para cortar algumas cabeças, ele propôs que a pena de morte fosse a mesma para todas as pessoas do país, independentemente de classe social: decapitação por meio de aparelho adequado. A ideia era eliminar a vida rapidamente e com o mínimo de dor.

A voz do detetive se tornou cavernosa quando ele disse:

– Até então, a execução com espada ou machado era reservada só para os nobres. Muitas vezes a família do condenado pagava para garantir que o carrasco mantivesse a lâmina bem afiada, para acelerar o ato.

Já com um tom mais leve, ele prosseguiu:

– O aparelho entrou finalmente em uso em 1792, com grande sucesso. Ficou sendo o único método de execução para civis na França por pena capital até 1981, quando a pena de morte foi abolida por lá.

Existe uma lenda que diz que o Dr. Guillotin morreu por seu próprio aparelho durante a Revolução Francesa. Não é verdade; o que ocorreu foi que um outro médico, de mesmo sobrenome, foi decapitado. Guillotin morreu de causas naturais bem mais tarde.

Ele é muitas vezes visto como um sádico que inventou um método industrializado de matar. Isso é errado.

Para iniciar, não foi ele que criou o aparelho. Mecanismos semelhantes existiam já havia séculos. O que entrou em uso na França foi apenas um melhoramento feito após alguns estudos.

O Dr. Guillotin era contra a pena de morte e esperava que o aparelho começasse uma era de mudança que a eliminasse como método de castigo.

O fato de a guilhotina ser aplicada a todas as classes sociais era, digamos, um tipo de democratização penal.

O doutor também se bateu para que as execuções deixassem de ser públicas, querendo assim impedir que o povo tivesse distração tão macabra. Um dos artigos de sua legislação impedia que o Estado se apoderasse dos bens do falecido, como era o uso até então.

Mas a má fama acabou sendo incômoda. A família peticionou ao governo, mais adiante, para que o nome do aparelho mudasse. Como o pedido foi recusado, a família trocou de nome.

 

Caminhando para o outro lado da fúnebre paisagem, o narrador se aproxima da cadeira elétrica:

– Aí por 1880, em Nova Iorque, sempre tentando fazer da pena de morte algo rápido e indolor, foi concebida a cadeira elétrica. Um dos membros do comitê dedicado ao assunto era um dentista; por estar ele acostumado a tratar seus pacientes numa cadeira, o aparelho acabou se baseando nesta forma.

É esquisito, mas não é piada, não.

Os dois técnicos que fizeram o desenvolvimento do mecanismo eram empregados do famoso inventor Thomas Edison, o do fonógrafo, da lâmpada elétrica e outras centenas de patentes. Isso acabou trazendo a ele a fama de ter inventado a tal cadeira, mas não é verdade.

É interessante saber que a palavra inglesa electrocution inicialmente significava apenas  “execução de pena de morte através da eletricidade”. Como não havia outras palavras no idioma sobre o assunto, depois ela acabou se aplicando a quaisquer mortes por eletricidade, mesmo as acidentais.

A primeira parte desta palavra deriva de electric, “elétrico”, de eletron, do Grego elektron, “âmbar”. Como esta substância, quando esfregada, produz eletricidade estática bem discernível, seu nome foi aplicado aos fenômenos elétricos através do Latim científico electricus, “o que lembra o âmbar”.

E a segunda parte vem de execution, do Latim executio, formado por ex-, “para fora”, mais sequi, “seguir”, com o sentido de “levar em frente”  – no caso, uma punição.

 

Nesse momento, a lua que estava no alto do céu, paradinha, tão brilhante e cheia, balançou e caiu fragorosamente sobre a cadeira elétrica, espatifando-a. O corajoso detetive saiu correndo e tropeçou na guilhotina. Ela se esfacelou e um dos seus pedaços fez o cepo rolar pelo chão, indo desmantelar por sua vez a forca, que se partiu como se fosse feita de isopor.

O que era o caso. Aliás, era o caso de todos aqueles objetos, excetuados os morcegos de plástico que pendiam imóveis dos galhos secos de árvore que complementavam o cenário.

Enquanto o detetive se debatia no meio daquela confusão improvável de pedaços de coisas, aproximou-se uma figura magra e que só sabia olhar de esguelha. Trata-se de Fininho, o ecônomo do Clube Ultrapassador de Toda a Ralé, conhecido por todos como “O Cultoral”.

Eleva a voz para se sobrepor à gritaria em aplausos do público, formado por palavras e pessoas, que está delirando porque acha que a sucessão de desastres no palco foi proposital:

– Tivemos um pequeno problema técnico com um dos fios que seguravam o nosso refletor, mas não faz mal porque a nossa apresentação de um quadro de Etimologia Mórbida já estava no fim mesmo.

Destaco que o quadro foi escrito e interpretado pelo nosso maior e único intelectual, o Detetive das Palavras, X-8, para o qual peço demorados aplausos!

Colho o ensejo para lembrar que o cenário foi inteiramente feito pelas senhorinhas de maior destaque de nossa sociedade, com materiais que seus pais encontraram por aí e que tem gente por aí em atraso com as mensalidades do nosso Clube e que é melhor pagarem loguinho em dia, antes que a Diretoria se irrite.

Delirantes aplausos são dirigidos à figura encapotada e empoeirada que tenta se erguer no meio do palco.

 

Dias depois, X-8 meteu a mão por acaso dentro do bolso da sua gabardine e dali retirou um morceguinho de plástico. Jurou que seria a sua última participação teatral.

 

Resposta:

CASSAR

 

O impertérrito Detetive das Palavras aguarda pela consulta das 21h. Sentado atrás da escrivaninha de seu decadente escritório, tem todo o aspecto de uma aranha à espera que sua presa caia na teia.

Pelo menos ele pensa assim. Mas ele é um romântico incurável e um perpetuador do roman noir, o que se evidencia na decoração de seu local de trabalho, onde ele atende ao desejo que toda palavra tem de saber sobre seu passado.

Entra a palavra-cliente: é Cassar. Como todas, está impressionada por estar frente a frente com o lendário detetive.

Este, para a deixar mais à vontade, pergunta por que ela está ali. E recebe a resposta de sempre: ela sempre quis saber de seu passado, de suas parentas longínquas, de que país veio, sente-se meio ultrapassada ao ver suas amigas que já se informaram sobre o assunto, juntou uma graninha e finalmente resolveu dirimir a questão que tanto a afligia.

Dá para ver que ela está menos tensa agora. X-8 entra finalmente no assunto:

– Pois veja você, Cassar, sua origem remonta aos tempos de Roma, quando andava por lá o verbo quatere, “sacudir, chacoalhar, bater”, por extensão “ameaçar, quebrar”.

Usava-se dizer também quassare quando a ação era repetida, o que se chama de um verbo “frequentativo”.

O mesmo acontece com “cantarolar”, que é o frequentativo de “cantar”, “mordiscar”, que é o frequentativo de “cantar” e assim por diante.

Enfim, dessas duas formas de seu antepassado vieram para o nosso idioma várias de suas parentes.

Você, para iniciar, com esse seu sentido de “anular, revogar, privar de”, é quem tem mais semelhança com a origem.

A palavra inchou de orgulho. São tão fáceis de alegrar, elas!

O grande profissional prosseguiu:

– Com esse significado original, não é estranho que outras descendentes expressem idéias meio agressivas.

Por exemplo, concussão. Ela se forma por com, “junto”, mais o particípio passado de quassare, que era cussus, passando a ideia de “abalo, batida”.  Uma concussão cerebral é uma coisa a ser tratada com muita seriedade.

É interessante lembrar que essa palavra, além de passar a ideia de “sacudida”, tem o significado de “obtenção de vantagens indevidas por funcionário público”, de um significado inicial de “extorquir pelo terror”.

Também podemos falar em eletrocussão, com o mesmo final e começando com “eletro-“, formado a partir de “eletricidade”.

Quando as pessoas se desentendem verbalmente, dizemos que surgiu entre elas uma discussão, de discutere, formado por dis-, “fora, mal, inadequado”, mais cussus.

Originalmente, o sentido do verbo discutere era o de “destacar, soltar algo por meio de sacudidas”. A Etimologia não é uma beleza? Olhe só se uma discussão não lembra algo como uma caixa contendo pequenos objetos, os argumentos, que vão sendo chacoalhados e se soltando durante a rixa! E depois se tem que limpar tudo.

Em termos mais amenos, podemos falar em percussão, com o início per-, “através” e o verbo quatere: é “através da batida” que se faz  o acompanhamento de uma música.

Com usos menos pacíficos, temos o percutor de uma arma de fogo, a peça que bate contra a cápsula da bala para provocar a explosão do propelente e a conseqüente saída do projétil.

Quando queremos dizer que algo se espalhou, se refletiu por aí e causou uma impressão generalizada, falamos em repercutir, com o acréscimo do prefixo re-, aqui como intensivo.

Falando em bater, surge a lembrança de um instrumento feito para isso, o cassetete. Deriva do Francês casse-tête, “quebra” mais “cabeça”. Só que no sentido literal, não se trata de nenhum enigma ou adivinhação, não. Em certa época a palavra se referia também a vinho barato, que sobe logo à cabeça e a deixa em mau estado.

Falando em Francês, como eu aprecio muito a música clássica, lembro-me da Suite Casse-Noisette, a “Suíte Quebra-Nozes”, de Tschaikowski, outra ilustre parenta sua.

Existe também aquilo de que ninguém gosta, o fracasso. Ele deriva de uma mistura feita no Italiano das palavras latinas frangere, “quebrar” e quassare. Em Francês e Italiano elas têm um significado bem diferente do Português: querem dizer “ruído, estrondo como de algo a se quebrar”.

E quassare gerou uma palavra de uso militar: casco, “capacete antigo”, relacionado a “pedaços quebrados de potes”, ligado à imagem de um crânio quebrado. Para que este não se partisse como um vaso, deveria ser protegido com alguma coisa.

Temos também, veja só, a queixa. Ela vem de quassare, que de tanto chacoalhar acabou assumindo esta forma de expressar descontentamento e desgosto.

E agora vem sacudir, de succutere, “sacudir, agitar, abalar”, formado por sub-,  “abaixo”, mais quatere.

Então, como a senhora vê, cara cliente, seu parentesco é bastante agitado, expressando quase sempre suas origens muito sacudidas. Vou aceitar agora o pagamento… Obrigado, eis o recibo… Não tente abatê-lo do Imposto de Renda porque é proibido, viu?

Até uma próxima, vá pela sombra e cuide-se dos ratos no corredor que eles estão agitados hoje.

Resposta:

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