Palavra bronca

ÓDIO

  

Uma vez fui visitar meu avô e o achei meio abatido. Perguntei por que e ele disse que tinha sabido que dois amigos muito queridos seus tinham tido uma briga muito séria.

Fiquei com pena dele.

– Por que acontecem essas coisas, Vô?

– A Humanidade tem dessas coisas, meu rapaz. Sempre teve e não vai mudar. A palavra ódio, por exemplo, é antiga; vem do Latim odium, “aversão, raiva por alguém.” Sabe aquele imperador romano chamado Calígula?

– Sim, parece que era uma peste.

– Era detestável pelos seus atos. Tanto que um dia um seu assessor criou coragem  –  não sei como  –  para lhe dizer que o povo o estava odiando pelo que fazia. E ele, em sua arrogância, respondeu “Oderint, dum metuant“, ou seja, “Odeiem, contanto que temam”. Um dia ele pagaria por esse jeito de ser.

– Falando nisso, e raiva, Vô? Foi inventada a partir de um cachorro furioso?

– Já começou a falar bobagens, menino? Mas não pare, que aguentar suas asneiras me faz bem. Essa palavra vem do Latim rabia, de rabies, “loucura, fúria, delírio”, de uma fonte Indo-Europeia rabhas, “ficar furioso”.

O vírus da raiva se instala num mamífero, muitas vezes um cão, e  altera seu comportamento, tornando-o agressivo. Parece que ele sabe exatamente o que tem que fazer para seguir reproduzindo-se, pois é pela mordida de um animal que está em surto de ferocidade que a saliva contaminada é passada adiante.

– O outro dia li algo que falava em aversão.

– Essa vem do Latim aversio, de aversus, literalmente “virado para o outro lado”, de ad-, “a”, mais versus, de vertere, “virar”. Quando a gente sente algo assim por uma pessoa, prefere se voltar para outro lado para não a enxergar.

– E se a pessoa for antipática?

– Ahá, essa vem do Latim antipathia, do Grego antipatheia, de antipathes, “aquele que se sente de maneira contrária à nossa, aquele que é oposto em sentimentos”, formada por anti-, “contra, oposto”, mais pathos, “sentimento”.

– Tem gente com quem eu antipatizo na escola e nem sei por que.

– É, a gente tem dessas. Às vezes é porque estamos percebendo intuitivamente que há algo ali que não é compatível com a gente. Mas pode ser apenas por razões inexplicadas; vale a pena dar uma oportunidade à pessoa.

Há outras palavras que têm significados nessa área que são pouco usadas, vamos ver se você conhece alguma. Digamos… quizília, já ouviu?

– Que esquisita, não conheço.

– Ela vem do Quimbundo kijila, “regra, mandamento, preceito”.

– E o que tem a ver com brigas e raivas?

– Tem que várias regras e mandamentos culturais definiam quais as coisas deviam ser evitadas, quais as  que deviam dar aversão às pessoas. A partir daí passou a se aplicar a antipatias, broncas, etc.

– Já que o senhor falou em…

– Sei. Bronca, não é? Vem do Italiano bronco, “indivíduo grosseiro”, originalmente “galho, ramo grosso partido”.

– Tenho uns colegas assim…

– Todos conhecemos gente deste tipo. Felizmente já percebi que você nunca será desta forma.

E antes que você se ruborize, vou falar de outra palavra que só se diz nas camadas mais cultas: cizânia. Ela vem do Latim zizania, do Grego zizanion, “joio”. Este é uma planta que cresce com o trigo, mas que não serve para consumo e é uma atrapalhação para os cultivadores. Deixa-os incomodados, gera uma briga entre eles e a planta intrusa.

– Essa é mesmo novidade para mim, Vô.

– Comigo perto tudo é novidade! Mas estamos falando nessas coisas feias e até agora não citamos uma consequência delas, a briga. Ela vem do do Italiano briga, “luta, incômodo, problema”, do Celta briga, “força”. Estes Celtas eram mesmo um povo muito chegado a essa atividade.

– E luta tem a mesma origem?

– Esta vem do Latim lucta, primitivamente luita, “luta, pugna, esforço”, de luctare, “lutar”, originalmente um termo desportivo.

Também podemos falar em ojeriza, do Espanhol ojeriza, “má vontade, antipatia, repulsa”, de ojo, “olho”, do Latim oculus, “olho”. Se a gente tem má vontade com uma pessoa, passa a olhá-la torto.

Outra meio rara hoje em dia é picuinha, que se refere a pirraça, provocação, implicância, cisma. Ela vem de picar, que deriva do som de uma bicada, “pic-pic”, provavelmente relacionado ao Latim beccus, “bico” – originalmente o do galo.

Outro termo usado entre estes é ira, que em Latim era ira mesmo e queria dizer “raiva, cólera”.

– E esta, Vô?

– É do Latim cholera, do Grego kholé, “bile”.

– “Bile”, aquela que o fígado faz? O que tem a ver?

– Sabido, este meu neto, hein? Tem a ver que o temperamento irascível e briguento era atribuído, na Medicina antiga, à preponderância da bile entre os humores do organismo. Pensava-se que o sujeito colérico era assim devido a ter mais bile no sangue.

Mas agora chega de falar nessas coisas. Foi bom você ter aparecido e me feito falar. Nesse meio tempo percebi que os problemas são lá desses meus amigos e que não é impossível que eles acabem se acertando. Agora vá para casa e não se meta em brigas pelo caminho.

 

Resposta:

Briga

AI, meu Santo Pai! Santo Antenor, mas que horror! São Brandão, que vasta confusão! São Delfino,segurai aquele menino! Santa Geraldina, aquietai esta menina!

Cri-an-ças! Leônidas enfrentando os Persas era fichinha perto do que vocês conseguem. Eu me afasto um instante da sala de aula e encontro ao voltar uma cena de carnificina que nem os selvagens mais bárbaros já fizeram.

E não, não quero saber a causa. Tenho certeza de que foi um dá-cá-aquela-palha, como sempre, que acabou envolvendo todo o mundo numa onda de briga retro-alimentada.

Ei, isso mesmo, sentem-se aqui que eu vou contar a origem de umas palavras muito adequadas para vocês.

Briga, por exemplo. Ela vem do Italiano briga, “luta, incômodo, problema”, do Celta briga, “força”. Estes Celtas eram mesmo um povo muito aguerrido, e deixaram entre nós algumas palavras relacionadas a este tipo de atividade.

Derivam daí brigue, um tipo de navio de guerra, brigada, um tipo de divisão de um exército, brigadeiro… certo, é um doce muito comum em aniversários, que todos vocês gostam de colocar sobre a cadeira onde alguém vai se sentar, mas esse nome veio da patente de um certo tipo de oficial das forças armadas.

Por que? Bem, dizem que é porque, na Aeronáutica, um brigadeiro é um oficial que está há muito tempo sem pilotar, tamanha é a sua responsabilidade em terra, e que ele só assume o manche quando o céu está perfeito e sem turbulências, um “céu de brigadeiro”.  Foi o que me disseram; se a Aeronáutica vier reclamar, eu não falei nada.

Há outra palavra para isso, de menor uso: cizânia. Ela deriva do Grego zizanion, “joio”, uma planta que cresce com o trigo, mas que não serve para consumo e é uma atrapalhação para os cultivadores. Ah, se eu fosse separar o joio do trigo nesta aulinha e ele fosse bem cotado, eu estaria rica…

rixa é do Latim rixa, igualzinho, sim, que queria dizer “briga, combate, luta”.

E querela também é latina, querela, “queixa, reclamação, lamento, desavença judiciária”, do verbo queri, “queixar-se, lamentar-se, gritar”.

Temos também bronca, que é de bronco, “grosseiro, obtuso, de mau trato”, que veio do Italiano bronco, “áspero, irregular, nodoso”, de uma mistura do Latim brocchus, “pontudo, saliente”, mais truncus, “tronco”.

Pouco se usa, mas saibam que há pouco vocês estavam em desforço físico. Essa palavra veio do Latim fortis, “forte”, e não há muito o que imaginar sobre ela.

Temos também a discórdia, do Latim discordia, formado por dis-, “fora”, mais cor, “coração”. É bem assim, o que está fora do nosso coração pode acabar trazendo desavenças.

Hoje em dia quase não se conhece mais a palavra quiproquó, que expressa não tanto uma briga mas uma confusão – que naturalmente pode acabar em pauleira. Ela deriva da expressão latina quid pro quo, “quem a favor de quem”, o que dá bem a idéia de uma situação mal-definida.

Agora que o sinal definiu que nossa aulinha aqui acabou, vamos todos para casa quietinhos. Se precisarem muito, briguem com seus pais, para que não sobre nenhuma dessa energia para nosso dia de amanhã.

Resposta:

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