Palavra domingo

O Nome Dos Dias

Bati à soleira da porta do gabinete do meu avô e o velho cavalheiro me fez entrar, com um brilho de afeto nos olhos claros. Conversamos algumas generalidades e eu lhe trouxe a dúvida do dia:

– Vô, por que não existe a Primeira-Feira em nossa semana? Aliás, que história é essa de “feiras”, que parece que não existe em outros idiomas?

– Muitas pessoas se perguntam isso. Você deve saber que, nos demais idiomas europeus, os dias da semana têm nomes que vêm das épocas pagãs. Assim, em Inglês nossa segunda-feira é Monday, “dia da lua”. Em Francês é Lundi, em Italiano Lunedì, em Alemão Montag, em Espanhol Lunes, sempre com esse significado.

– Interessante. E a terça-feira, como é nessas líguas?

– Seguindo a ordem que usei, Tuesday, Mardi, Martedì, Dienstag, Martes. Por este último se vê que o deus do dia era Marte.

– Esse Tuesday aí não se parece nada com Marte.

– Ele vem do nome de um deus da guerra germânico, Tiw. O nome latino, martias dies, “dia de Marte”, foi adaptado ao deus regional correspondente.

E a quarta-feira nesses idiomas é Wednesday, Mercredi, Mercoledì, Mittwoch, Miércoles.

– Qual o deus?

– Em Francês, Italiano e Espanhol, era Mercúrio, o deus de pés alados que era padroeiro dos ladrões, dos comerciantes e dos médicos. Nos idiomas germânicos, o seu equivalente mitológico era Wotan.

Mas preste atenção: Mittwoch em Alemão agora quer dizer “meio da semana”, de Mitte, “meio”, mais woche, “semana”. Antigamente o nome do dia era Wotanstag, “dia de Wotan”.

– Parece que era mais interessante assim. E como fica a quinta-feira?

Thursday, Jeudi, Giovedì, Donnerstag, Jueves. Aqui o deus era Jove, outro nome de Júpiter, o pai dos deuses. Em Inglês ele é representado por Thor; em Alemão, usa-se Donner, “trovão”, um atributo desse deus.

E a sexta-feira é dita Friday, Vendredi, Freitag, Viernes. Quem manda aqui é Vênus, a deusa da beleza e do amor.

Nos idiomas germânicos, usa-se o nome da deusa Frigga ou Freya, a rainha da turma por lá.

Mas em Português houve uma predominância eclesiástica sobre esses nomes de deuses pagãos. A Igreja Católica conseguiu banir essas lembranças da memória do povo e impor nomes terminados por feira. Isto vem do Latim feriae, “dias de folga, parada do trabalho, dia de mercado”.

– Opa, Vô, quer dizer que de segunda a sexta não é para trabalhar nem estudar e depois vem o fim-de-semana para a folga? – disse eu, muitíssimo animado com a descoberta.

– Nada disso, seu espertinho. O que vale aqui é o significado de “dia de mercado”, ou seja, de trabalhar, de vender e comprar. É que, na época medieval, as feiras se confundiam também com distração, pois havia apresentações de músicos, malabaristas e outras atrações.

– Ora… Mas diga, Vô, por que é que afinal não temos a primeira-feira?

– Porque o primeiro dia da semana na verdade é o domingo, do Latim domenica dies, “dia do Senhor”.

– Mas e o sábado?

– Esse manteve o nome por influência bíblica. Ele deriva do Latim sabbatum e do Grego sabbaton, que vieram do Hebraico shabbath, “dia de descanso”, pois nesse dia teria Jeová descansado depois de criar o mundo.

– Deve ter sido cansativo, né?

– Pois é, e ele estava em excelente forma se agüentou a tarefa seis dias corridos antes de parar.

E já que estamos nesse assunto, convém lembrar que, por muito tempo, considerava-se que o dia começava ao nascer do sol e não à meia-noite, como se convenciona hoje.

– E por que a semana tem sete dias?

– Talvez porque cada dia correspondia a um dos astros móveis que podiam ser observados a olho nu: Sol, Mercúrio, Vênus, Lua, Marte, Saturno, Júpiter. Deve haver aí também a influência do ciclo lunar: um quarto de ciclo – uma fase da Lua – corresponde aproximadamente a uma semana.

E esse nome vem de…?

– Do Latim septimanus, “relativo ao número sete”, de septem, “sete”. Falando nisso, sabe o que é um hebdomadário?

– Âããh… algum tipo de camelo, Vô?

O velho riu até chorar:

– Estava demorando a besteira. Viu só, você não acredita que tenha que ler mais? Essa palavra é usada para designar uma publicação de sai uma vez por semana, já que vem do Grego hebdomada, “semana”, de hebdoma, “sete”.

Mas já estamos conversando há tempo demais sobre o tempo. Vamos encerrar com a sabedoria por hoje e vamos ver o que é que o gato está aprontando ali no pátio.

Resposta:

Casa

Crianças, muito bem. O materialzinho de aula está guardado, todas as tarefas estão terminadas, mas falta ainda um tempinho para podermos voltar para casa. Para nos distrairmos um pouco, a Tia Odete vai contar umas coisas sobre a origem da palavra casa.

Em Latim, o que nós hoje dizemos casa era chamado domus. Era tão importante ser a pessoa principal num domus, – o dominus, o “Senhor” – que daí derivaram palavras como dominador e domínio, que dão a idéia de alguém com poderes para ser obedecido pelos outros habitantes da morada, como parentes e servos.

O próprio título Dom, usado para os reis da Península Ibérica e os imperadores do Brasil, bem como para certas categorias eclesiásticas, vem de domus. Em Espanhol e Italiano, Don é uma manifestação de respeito.

Sim, Miguelito, já explico por que usamos casa e não um derivado de domus em Português. Em Latim se usava a palavra casa para designar uma choça, uma cabana, uma habitação miserável. Por algum motivo, foi essa a palavra que ficou em uso para designar nossas habitações atuais, já sem a conotação de baixa qualidade.

Daí vem também a palavra cassino, um diminutivo que designava “casa de campo”. Parece que as pessoas preferiam jogar em lugares mais afastados da cidade, donde o nome acabou pegando.

Muito bem, Leonorzinha, esta palavra não se usa apenas para um lugar de jogos de azar. Indica locais de reunião mais respeitáveis, como o “cassino dos oficiais”, a sala das refeições, num quartel. Você está bem informada. Será porque o seu pai é militar?

Outra derivada de domus é doméstico, “referente ao lar”.

Hein? Não, Ledinha, um trabalho doméstico não é feito por uma pessoa domesticada. Há relação, mas é outra.

Domesticar, “tornar caseiro”, também vem de domus, e se refere ao animal que, como espécie ou, às vezes, como indivíduo, teria uma vida selvagem mas que se adaptou à vida junto às pessoas, às vezes na casa delas.

O cão e o gato, por exemplo, eram selvagens e foram domesticados como espécies. Algumas aves podem ser criadas em cativeiro e acabar se habituando a viver em casa. Há pessoas que acham bonitinho o jacarezinho ou o leãozinho quando pequenos e resolvem criá-los na sua propriedade. Quando os bichos ficam adultos, no entanto, a sua condição selvagem se manifesta inescapavelmente, o que traz muito trabalho para os donos e maus resultados para os pobres bichos.

Outro derivado é domicílio, “local onde se reside, habitação”.

Muitos derivados de domus pertencem à linguagem culta, como domo, “cúpula, estrutura arredondada sobre uma edificação”. Aqui cabe também domificar, “dividir a cúpula celeste em doze partes” – coisa de astrólogos.

Ai, ai. Quando o Robertinho levanta a mão para perguntar, já sei que vai sair algo muito esquisito. Fale, meu filho. Ah, descobriu um nome de pessoa que vem de domus? Qual é?

Bem como eu esperava. Você é um amor de menino, mas eu já disse que seu futuro como etimologista é dos mais duvidosos. Não, Demóstenes não tem essa origem. É Grego e quer dizer “a força do povo”. Agora desligue o seu bicho carpinteiro e fique quietinho um pouco. Pense em estudar Medicina no futuro, é mais simples.

Uma palavra que poucos desconfiarão que descenda de domus é domingo. Este era “o dia do Senhor”, ou dominicus dies, onde obrigatoriamente não se trabalhava. Mas crianças que querem ser boazinhas de verdade deixam de brincar nesse dia e estudam, sim, senhores!

Antigamente, quando uma pessoa espirrava, alguém por perto dizia Dominus tecum!, ou seja, “O Senhor esteja contigo”, pois se pensava que a alma da pessoa corria o risco de sair pelo nariz com o espirro.

Estudos aprofundados demonstraram que isso não pode acontecer. As pessoas educadas tapam o nariz nesse momento para não espalhar eventuais microrganismos por aí, não para segurar a alma.

Bem. Quando saímos daqui do coleginho onde algumas professoras sacrificadas penam devido à desatenção de certas pessoinhas, voltamos para casa pelas ruas.

Esta palavrinha tão curta para coisas tão compridas vem do Latim ruga, “sulco, ruga”. E tem uma relação maior com a realidade do que parece modernamente, quando as ruas são mantidas tão lisas quanto possível.

Na época em que os leões faziam seus lanches nos Circos romanos, as ruas que não tivessem uma pavimentação especialmente sólida eram profundamente sulcadas pelas rodas das carroças. Isto inclusive determinou um padrão de largura para os eixos, pois senão os veiculos teriam que andar com as rodas de um lado num sulco e as do outro lado fora do outro sulco, forçando-os a andarem inclinados. As estradas romanas tinham todas a mesma largura, em qualquer dos países que eles dominavam, por causa disso.

Quando estamos a caminho de casa, não imaginamos que essa palavra, que passou pelo Latim Vulgar como camminus, tenha vindo do Celta kamm, “andar, ir”.

E a estrada? Vem do Latim via strata, “caminho em camadas”. Sternere queria dizer “estender, dispor em camadas”. Daí vêm “estratificar” e “estrado”, que é uma estrutura em geral feita com mais de um nível de material onde uma professora nos dias de hoje tem que ficar para poder controlar seus aluninhos, e tire já a mão da Helozinha, Sidneizinho!

Quando chegamos em casa, se não desmaiarmos de exaustão antes, no caso de certas professoras mais sacrificadas, entramos pela porta. Em Latim, portus significava o local de passagem de um lugar para outro, como entre aposentos.

Se olharmos para fora pela janela, estaremos lidando com algo cujo nome veio do Latim januellam, diminutivo de janua, “pequena porta”. Parece que as janelas foram uma invenção meio tardia nas habitações européias, pois em Inglês são chamadas windows, em Francês fenêtres, em Espanhol ventanas, tudo com origens diferentes.

Já imaginaram, viver num lugar escuro, cuja única abertura nas paredes fosse uma porta? Até certa época, nem chaminé havia para a saída da fumaça gerada pelo fogo para cozinhar. Como? Não senhores, eles não podiam usar fogões elétricos, não, e não era só por serem pobres!

Aliás, já que falamos em parede, ela vem do Latim paries, que também é usado no nome dos parietais, ossos do crânio que formam, por assim dizer, as suas laterais, junto às orelhas. Parietal, como adjetivo, significa “relativo às paredes”, e tem uso culto.

Olhem só, tocou o sinal. Podem sair em fila, bonitinhos, como sempre. Se eu estiver viva amanhã vou contar mais fatos interessantes para vocês.

Resposta:

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