Palavra histeria

E a Histeria

Palavras: histeria

 

O grande detetive etimológico está em seu gabinete numa noite de outono.

Lá fora o vento empurra miríades de folhas secas, enquanto as criaturas da noite – corujas, serpentes, raposas – observam umas às outras, no eterno ciclo de caça que vem desde o início do tempos.

Ele olha pela janela. A lua cheia ilumina os campos e as árvores. A estreita estradinha de pedra clara que leva até o casarão, ladeada por arbustos bem-aparados, se perde brilhante e sinuosa na distância.

As colinas próximas sustentam os bosques verdejantes onde ele tantas vezes se dedica à caça com seus cães prediletos.

Quando o vento amaina um pouco, dá para ouvir a pequena cascata formada pelo regato de águas cristalinas que nasce logo ali perto.

X-8 está sozinho na enorme casa senhorial, tirando baforadas do seu cachimbo, a criadagem dispensada esta noite. Ele pensa em aproveitar para ler a monografia “Variações do Formato da Letra ‘R’ nos Últimos 4500 Anos“, coisa pesada e que requer muita concentração.

A dor súbita o traz de volta ao mundo real quando ele mastiga a língua em vez do chiclete que tinha na boca.

Não há casarão senhorial, há o velho Edifício Éden, onde ele tem seu escritório de detetive entre numerosas outras salas de serviços e comércios pouco recomendáveis.

A noite é de outono, mas o que o vento empurra lá fora são partículas de fuligem, pedaços de papel, copos descartáveis descartados.

Não há lua no céu, o que há são alguns dos focos dos postes e as lâmpadas do cartaz luminoso que fica logo do lado de fora da janela.

Corujas, raposas, cobras, etc.? Baratas, mosquitos, ratos, etc.

Barulho de um regato cristalino? Há o pingar da infiltração da pia da cozinha do andar de cima sobre o peitoril da janela.

O cachimbo, já se vê, não passava de um chiclete. Bem doce, já que X-8 não agüenta coisas fortes como hortelã.

Bem, fazer o quê? Não é fácil retornar aos sonhos acordados, de forma que é melhor continuar aguardando que chegue alguma palavra cliente sofrendo dúvidas até que ele a cure explicando a origem.

Hum. Talvez esteja na hora de inventar algo diferente. Etimoterapia? Etimologoterapia? Cura Alternativa para Dúvidas de Origem? Puxa, isso sim é que ia dar dinheiro!

Ele podia alugar uma salinha noutra quadra do bairro e atender lá, com um avental branco e um estetoscópio pendurado ao pescoço.

Inclusive ia poder encaminhar clientes/pacientes para si mesmo, de uma para outra sala, já que como detetive ele andava sempre com a cara encoberta pela gola da gabardine e o chapéu.

Era só cuidar de ter uma voz diferente em cada local. Não seria difícil; ele se tinha saído muito bem na cadeira de Disfarces Vocais na Faculdade. Puxa, e se…

Foi arrancado do seu devaneio por um som terrível logo atrás de si.

De um pulo quase atingiu o teto. Virou-se, sobressaltado. Uma palavra tinha entrado e fechado a porta atrás dela enquanto ele divisava novos meios de aumentar suas divisas.

Ela estava agora em pé, com a boca aberta e fazendo uma excelente imitação do que seria uma cruza entre um urso com cólicas e um hipopótamo com dor de dente, só que num registro agudíssimo, de intensidade decididamente insalubre.

– IIIAAaarrrgghhh!!! Ninguém presta atenção em mim! Ninguém me dá bola, nem mesmo quem é pago para isso! Eu vou ficar sangrando aqui até morrer! Depois garanto que vão se livrar do meu corpo num canto qualquer deste edifício infecto-contagioso, neste bairro amaldiçoado, esperando que os ratos me devorem!

Pensou rapidamente X-8:

– Estou bem arranjado! Dentre tantas palavras, logo uma assim… – olhou melhor – Pudera! É Histeria. Vou ter que usar toda a minha técnica em emergências psiquiátricas.

Sua voz soou calma e fria como a lâmina de uma faca que tivesse sido esquecida no congelador ao responder suavemente para a palavra escandalosa:

– Não, a gente não faz mais isso neste bairro. Nosso método padrão é tirar a roupa da vítima, amarrá-la, lambuzá-la com restos de refrigerante barato e deixá-la num beco.

Nossos ratos adoram isso. Mas não se preocupe, eles são muito delicados e não mordem. Já pensou, quanto tempo se leva para morrer de lambida de rato?

A palavra, com os joelhos trêmulos, puxou uma cadeira e sentou:

– Mas antes disso eu morreria de fome ou de sede!

– Não. A gente coloca um sorinho glicosado na veia para a pessoa durar bastante. Afinal, nossas crianças precisam de um pouco de diversão sadia, têm que ser tiradas das ruas…

Pálida, Histeria pergunta, agora com voz meiga:

– Mas um homem forte e corajoso como você não faria isso comigo, faria?

– Nada impede. Você entrou num bairro sem lei e sem ordem. Nem a Polícia se atreve a entrar aqui. Nós somos um verdadeiro Buraco Negro dos direitos legais. A menos que você pare de gritar e se aquiete…

A tática do detetive estava funcionando. A palavra, agora bem menos agitada, começou a se explicar:

– É que eu não estava mais agüentando o meu sofrer, o amargo sabor da dúvida, o triste peso da ignorância, o lento roer da falta de conhecimento, o pesado…

– Está bem, vejo que você tem lido bastantes publicações baratas. Afinal, você está aqui para saber a sua origem, certo?

– Sim, Seu Detetive! Minha vizinha, Dona Gárgula, recomendou muito o senhor… Foi logo depois que ela soube que eu tinha tentado o suicídio cortando os pulsos com bolacha maizena – ou foi a vez em que tentei me matar tomando Luftal? Não, peraí, foi quando eu me enforquei pela canela na gaveta da cômoda. Ou o dia em que eu comecei a apertar meu pescoço para morrer estrangulada mas parei porque estava doendo… não tenho certeza, eu estava meio agitada na semana passada.

Ao ouvir o nome de Gárgula, o coração do detetive pulou. Aquela cliente infinitamente charmosa e sedutora, que ele tinha atendido há tempos, com quem ele gostaria tanto de ter mais contato, conversar mais, quem sabe… quem sabe até…

E ela o tinha recomendado! Não se esquecera dele, então!

Sacudiu a cabeça. Isso não é pensamento para um profissional ter em pleno serviço.

Falou em tom calmo, quase hipnótico, para Histeria:

– Vejo que você precisa de um tratamento muito sério. Pegue estes saquinhos de chá de maracujá, leve para casa, prepare uma jarra grande e tome dois goles e meio de hora em hora. Se vai ter que acordar durante a noite para isso? Claro que sim! Se não quiser obedecer, devolva os saquinhos, pode sair e eu lavo as mãos.

– N-não, detetive, por favor! Eu vou fazer tudo o que o senhor me disser! Quero acabar com o meu sofrimento!

– Muito bem. Então preste atenção: foi muita sorte a sua em aparecer aqui nesta ocasião. Mais um pouco e já não haveria volta.

Faça o tratamento que lhe dei e volte daqui a exatamente vinte e quatro horas. Falaremos mais sobre o seu caso. Vou-lhe falar sobre o seu passado remoto. Traga dinheiro. A salvação nunca é barata. Não conte a ninguém o que houve aqui entre nós.

Foi até à janela, olhou atentamente para fora com a mão erguida, esperou alguns segundos e falou, de modo conciso e urgente:

– Agora! Eles não estão à vista! Siga logo, não olhe para trás!

A palavra, fascinada pelos acontecimentos, não se lembrou de perguntar quem ou como eram “eles”. Escafedeu-se pela porta e voltou tão rápido quanto pôde para a sua casa.

O detetive suspirou:

– Cada uma que me aparece aqui…

E foi remexer nos seus livros.

Na noite seguinte, à hora precisa, apareceu a cliente, agora bem mansinha.

– Você tomou o chá como eu mandei? – perguntou a voz fria de X-8.

– S-sim, senhor.

– Como está se sentindo?

– Cansada e com sono.

– Para quem você contou o que aconteceu aqui?

– Para ninguém, conforme o senhor mandou.

– É bom que seja assim mesmo. Agora vou lhe contar de sua origem; ela vem do Grego hysteros, “útero”, de  uma fonte Indo-Europeia udero-, “abdome, estômago”.

– Mas que confusão era essa?

– Em épocas distantes os conhecimentos anatômicos não tinham sido sistematizados ainda. O pessoal fazia o que podia com carcaças de tigres Dentes-de-Sabre e inimigos caídos, mas custaram a definir os nomes dos órgãos.

Seja como for, o seu nome é um primor de machismo. Originalmente se definia como uma situação neurótica peculiar à mulher, causada por uma disfunção uterina. Essa definição caiu há muito tempo dos manuais.

Puro estereótipo, pois já vi cada macho ter pitis que nenhuma mulher seria capaz de encenar.

Espero que com esta orientação e o chazinho de maracujá, a senhora agora possa se comportar com um pouco mais de calma ao apreciar as diversas situações que se lhe apresentam na vida.

Passar bem, e tome cuidado com os perigos da rua.

A palavra foi embora satisfeita e calma. X-8 rezou para que ela não voltasse.

Resposta:

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