Palavra não

Santo Caramba I

Palavras: continua , decreto , não

 

Eu estava já no início da Faculdade quando apareci para visitar meu avô em seu gabinete gostosamente forrado de livros, madeira e couro.

Olhei pela porta e o vi lidando com alguns objetos à mesa. Ele estava completamente concentrado, passando cuidadosamente um pano num cubo esbranquiçado que tinha na mão.

Quando o cumprimentei, ele pareceu voltar de muito longe antes de largar o que estava fazendo e vir me dar seu carinhoso abraço.

– Que tal, Vô? O que é isso que o senhor está fazendo? – e estendi a mão para o tal cubinho.

NÃO! – a ordem era tão cortante que parei com a mão no ar, espantado – nâo toque nisso!

– Puxa, mas que mistério, Vô! Nem que fosse um ovo quadrado!

– Isso é um ovo quadrado. Ou melhor, cúbico. Esta palavra vem do Grego kybos, “sólido com seis lados, dado para jogar, vértebra” – disse ele, enquanto tratava de guardar os objetos misteriosos.

– Peraí, Vô! O senhor está tentando me enrolar. Agora que eu vi essas coisas estranhas e que o senhor disse que eram ovos, eu quero saber direitinho de que se trata.

Nós sempre tínhamos sido muito francos e honestos um com o outro. Percebi que o velho cavalheiro não ia mudar isso agora. Estendeu-me um dos cubinhos, rosnando:

– Abra a mão. Pegue como se isso fosse a sua alma e ela fosse feita de asas de libélula costuradas com língua de borboleta. Ou mais frágil ainda. Se você quebrar, eu tiro aquela espada da parede e o atravesso de lado a lado.

Eu nunca tinha visto ninguém para fazer ameaças horrendas como o velho. Por outro lado, nunca o tinha visto cumprir nenhuma. Tive que provocar:

– Ah, é? O senhor está querendo passar o resto da vida na cadeia?

– Para o júri, vou ser um pobre velho senil que se esqueceu de tomar o seu remédio naquele dia, teve um surto e acabou com um jovem que ele confundiu com um assaltante. Saio rapidinho. E ainda escrevo um livro choroso sobre o assunto e fico rico.

Parei de incomodar e prestei atenção no cubo. Suas arestas eram arredondadas e suaves e mediam uns quatro centímetros. A superfície, cor de marfim velho, era algo áspera e lembrava alarmantemente uma casca de ovo. Olhei bem de perto. Não parecia um objeto manufaturado.

– Agora passe de volta – disse meu avô, e guardou cuidadosamente o cubo numa gaveta junto com os outros dois semelhantes que estavam sobre a mesa, cada um num pequeno saco de veludo que cabia ajustado numa caixinha de madeira escura e polida.

Eu não disse nada. Simplesmente me sentei sobre a banqueta de couro estofada à frente da cadeira de balanço dele e o fitei com os olhos bem abertos.

Desde a minha infância isso queria dizer “Conte, Vô!”.

Ele se acomodou à minha frente e pensou por um tempo, cabeça baixa. Depois suspirou e começou a falar:

– Bem, eu tinha mesmo que contar isso tudo para alguém antes de morrer, e não há ninguém melhor para escutar do que você. A história é muito longa, dá muitas voltas e quase não tem Etimologia. Pode ser?

– Não faz mal, Vô! Manda brasa!

Ele suspirou de novo e começou uma das narrativas mais surpreendentes que já ouvi. Repito-a agora, condensada, sem conseguir dar nem uma pálida idéia da expressão facial e corporal do velho enquanto desfiava uma história extraordinária, nem dos pormenores que davam cor ao relato.

Durante a Segunda Guerra Mundial, meu avô era um garboso tenente de Cavalaria do Exército Nacional. Aconteceu de ele estar fazendo um curso na capital do país e de conhecer uma bela moça, filha de um general.

Iniciou-se uma paixão que só podia terminar em casamento. E isto evidentemente não agradava nem ao papai nem à mamãe da linda donzela, para quem eles tinham um pretendente bem mais interessante, filho de um poderoso industrial da época.

Resultado: de um dia para o outro, meu avô se viu nomeado Adido Militar de nosso país numa república sul-americana e para lá enviado às pressas, sem ter tempo de pensar ou reclamar.

Para efeitos de contar a história, ele se referiu a esse país sempre como Santo Caramba, dizendo que era assim que os nativos o chamavam. Recusou-se a dizer o nome verdadeiro, mesmo tendo certeza de que eu nunca tinha ouvido falar nele.

Segundo ele, trata-se de uma nação de pequenas dimensões, que atinge os contrafortes orientais dos Andes; tem uma parte de deserto, bem como planície e matas, contendo alguns afluentes do Rio Paraguai.

A História dela é muito interessante. Ela foi fundada há uns 400 anos pela escória do rebotalho da sobra do lixo dos colonizadores da parte meridional da América do Sul, o que não é dizer pouco.

Lá se juntaram assassinos, funcionários públicos ladrões, escravos fugidos, renegados, hereges, maridos em busca da liberdade, trânsfugas de hospícios, canalhas, biltres e bandidos de toda espécie.

Quando perceberam que estavam longe das autoridades, houveram por bem reclamar para si aquelas terras, fundar um país e começar do zero. Passaram a se tratar por títulos de nobreza, fizeram toda uma estrutura administrativa, estabeleceram uma indústria de extração de metais e implantaram a agricultura, facilitada pela grande fertilidade das terras.

Acima de tudo, tiveram a sorte (ou habilidade, difícil dizer) de estarem situados exatamente no cruzamento das vias entre os demais países da região. Quem não transitasse por ali para comerciar teria que fazê-lo por caminhos muito mais longos em montanhas tenebrosamente geladas ou pântanos eivados de insetos e animais agressivos ou por um deserto que ostentava numerosos esqueletos de gente e de bestas de carga como prova da sua aridez.

Com isso, a principal renda do país passou a ser o pedágio que era cobrado das tropas de mulas, dos rebanhos de gado bovino e ovino que se deslocavam ou mesmo de viajantes individuais. Até hoje o tráfego terrestre passa por ali em caminhões, pagando preços escorchantes por esse direito.

Uma das razões para nunca se falar nele, que inclusive não figura nos mapas, é a vergonha. O lugar é tão corrupto, tão imundo em suas instituições que a classe dirigente do resto do mundo não se atreve a falar nele e em seus hábitos.

Extra-oficialmente, porém, numerosos políticos em início de carreira vão fazer algum curso de curta duração numa das faculdades de lá. Apenas viver alguns meses na capital, Santa Magnólia, ler os jornais e acompanhar os acontecimentos já dá um enorme acervo de conhecimentos para quem quer entrar no ramo.

A capital é um lugar muito interessante, com casas e prédios coloniais, praças com árvores centenárias, ruas de terra, cargas levadas em lombo de mula. As pessoas se vestem com roupas coloridas de influência espanhola que não mudaram muito nos últimos 150 anos.

Montanhas altas e nevadas são avistadas a poucos quilômetros dali. A vegetação cresce com imensa facilidade, parecendo que vai engolir os prédios, e abriga uma enorme quantidade de aves. A água é abundante, de excelente qualidade, e vem direto do degelo das neves que recobrem os picos próximos. Enfim, mais pitoresco impossível.

O regime lá é um presidencialismo estranho. A presidência é um cargo vitalício e hereditário. Só não é considerado uma monarquia com outro nome porque as revoluções são tão freqüentes que nenhum presidente durou muito tempo no cargo. Aliás, não só esse cargo é de curta duração como a sobrevida dos seus detentores também.

Os deputados e senadores também são vitalícios e sofrem o mesmo problema que o presidente quanto aos cargos e às vidas.

As revoluções são sempre respaldadas por lindos discursos e programas prometendo liberdade, dignidade, bem-estar, comida, emprego e outras bobagens. E sempre acabam mostrando que se tratava apenas de um bando destronando outro e cometendo as mesmas barbaridades que todos costumavam cometer.

A população já está tão acostumada com isso que todas as casas têm faixas em branco, onde eles escrevem vivas ao partido ou grupo que venceu a revolução do trimestre. Elas são estendidas nas sacadas por ocasião do tradicional desfile de vitória.

As leis são feitas pelo presidente de plantão. Ele faz um discurso da sacada do lindo Palácio Presidencial e anuncia que dali para a frente as coisas serão de tal ou qual jeito.

Mas não se pense que o Legislativo não participa, isso é que não! Uma cópia do discurso de El Presidente é passada para assinar entre os congressistas. Até agora, as assinaturas mostram cem por cento de concordância, que se eles estão ali é porque não são bobos.

Como exemplo, traduzo agora na íntegra um documento oficial de Santo Caramba, em papel amarelado com vistosos selos oficiais, que meu avô tirou com cuidado de um envelope.

DECRETO

Juan Croissant Dulce, Senador Vitalício e Grão-Sorrelfo em Exercício da Presente República, relata a legislação resultante do Grupo de Estudos do Âmago dos Sabonetes, decretada por sua Excelência El Glorioso Atual Presidente da República, Josafá Chinchulín.

Considerando:

1) Que os sabonetes em geral, ao se aproximarem do término da sua vida útil, têm o desagradável hábito de se esbugalhar, partindo-se em fragmentos que escoam ralo abaixo;

2) Que os supracitados fragmentos costumam, em se acumulando, promover cascurrâncias no interior dos encanamentos, com notável diminuição do diâmetro interno dos mesmos, levando inclusive à obstrução;

3) Que os cidadãos desta República têm apresentado gastos crescentes na rubrica Desentupimento de Canos, o que contribui não pouco para o aumento da inflação;

4) Que, ao parecer que se entra no banheiro com uma quantidade “X” de sabonete, cálculos matemáticos mostram que, na verdade se entrou com uma quantidade “X” menos “Y”, sendo esta última variável a quantidade de material perdido que vai entupir os canos;

5) Que daí resulta uma higiene incompleta no caso de não haver um familiar ao alcance da voz para fazer o aporte de uma nova unidade de sabonete ou que, por ausência ou recusa do dito familiar, o usuário do banho sai encharcado para pegar o material em questão, emporcalhando assim a casa e gerando conflitos familiares quando os outros vêem o chafurdo que ele fez no piso;

6) Que os níveis de higiene deste país são modelo para o resto do mundo e que este Governo não permitirá o seu rebaixamento,

Resolvo:

1) Determinar que as fábricas de sabonetes, em atendimento ao Programa Sabonete Total, do Atual Governo, coloquem no centro geométrico dos ditos um núcleo de plástico reciclado correspondente à porção não só inútil como até prejudicial do sabonete, como exposto acima;

2) O volume deste pedaço de plástico está definido pelas fórmulas estabelecidas pelo Comitê para Estudo da Nuclearidade Plástica dos Sabonetes, constituído por probos, doutos e grados Senadores Vitalícios desta República, Comitê esse que se tem dedicado com notável afinco ao estudo da questão nos últimos meses.

3) Forçoso é reconhecer que faltam recursos ao nosso Erário para cobrir os gastos do citado estudo técnico, já que encontramos o Governo sucateado e o Tesouro vazio quando nossa Gloriosa Revolução ascendeu ao poder, tendo o conteúdo do Banco Central sido levado para o mato pelo Governo anterior em sua fuga desabalada. Nossa brava Polícia encontrou os fugitivos, que foram mortos ao reagirem à prisão, mas não o dinheiro.

Tais gastos foram elevados, considerando que os membros do Comitê e suas famílias foram obrigados a passar períodos na Europa e no Caribe fazendo levantamentos e análises comparativas.

Destarte, para cobrir esses gastos cada núcleo plástico representará um imposto de Pz$ 0,30 (trinta centavos de Pazuza), pagos adiantadamente pelas fábricas ao Tesouro Nacional, que fará o rateio entre os dedicados senadores e o presidente, nomeado Coordenador de Honra desse esforço.

4) As fábricas de sabonete, que tanto contribuem para a higiene nacional, terão o direito de acrescentar em dobro o preço do imposto a cada sabonete, de modo a evitar o prejuízo e os problemas sociais que ocorreriam caso houvesse um desemprego em massa no Setor Saboneteiro do país, cujo proprietário é o filho de nosso bem-amado Presidente.

5) Os comerciantes, que tanto contribuem para o Comércio Nacional, repassarão o citado imposto ao preço final do produto, para evitar os problemas sociais que ocorreriam caso houvesse um desemprego em massa no Setor de Armazéns e Supermercados do País, gerido pelo proprietário dos Supermercados El Cucurucho, o sogro de nosso inefável Presidente.

6) Unicamente ao bravo e imbatível Povo, que tanto contribui para a nacionalidade deste país, e somente a ele, caberá o privilégio de pagar os impostos aqui definidos pelo seu querido Presidente.

Da alegria de manter estes privilégios como apanágio do Povo faremos a meta de nosso Governo.

7) Para ressaltar a austeridade característica de nosso governo, veda-se aos membros do Parlamento a compra de sabonetes como definidos por este Decreto, para evitar que eles sejam eventualmente acusados por algum oposicionista que ainda esteja vivo de se beneficiarem por alguma forma da nova legislação. Eles se verão constrangidos, sob pena de prisão, a comprar sabonetes estrangeiros subsidiados em estabelecimentos próprios do Governo.

Publique-se.

Cumpra-se.

Degolem-se os faltosos.

Seguiam-se as assinaturas desbotadas de figurões da República. Fiquei abismado. Mas foi pior quando meu avô contou outras conseqüências deste Decreto. O Setor Saboneteiro do país, cujo homem forte era Pepe Chinchulito, o filho de El Presidente, logo começou a fazer dois tipos de sabonetes: os populares (chamados de Executivos, por técnica de marketing) e os de luxo.

Os de luxo tinham núcleo de plástico liso; o dos populares era cheio de pontas, de modo que, após uns poucos banhos, ninguém os conseguia mais usar sob pena de ficar com a pele toda lanhada. Portanto, duravam menos e as pessoas tinham que comprar mais.

E houve mais ainda: sabem aquele liquidozinho que fica grudado ao palito dos picolés? Pois foi criado o Comitê para Estudo da Nuclearidade Plástica dos Picolés e Assemelhados, o que levou a serem feitos palitos plásticos com uma dilatação no meio e conseqüente diminuição do picolé em si.

Houve muito regozijo na Associação das Indústrias de Reciclagem de Plástico, cuja presidente de honra era Camélia Chinchulín de Pití, mãe de El Presidente. A Associação teve inclusive que importar plástico para reciclar.

Pode-se imaginar o decreto que definiu as medidas a serem tomadas em tão importante matéria.

E sabem aquela casquinha que sempre se solta do pão durante o seu transporte da padaria até a mesa da gente? O Comitê para estudo do Desperdício das Cascas de Pão se encarregou de examinar o assunto.

Por hoje chega. Contarei mais barbaridades de San Caramba na próxima edição.

CONTINUA.

Resposta:

Aulinha De Pintura

Ai meu coração, Santo Antão! Que porcaria, Santa Maria! Isto me arrepia, Santa Sofia! Parem já com isso, crianças! Isto era para ser uma aula de pintura, não um cataclismo!

E, para quem não sabe, cataclismo é uma palavra que vem do Latim cataclysmos, “inundação, dilúvio”, pelo Grego kataklysmos, do verbo kataklízein, “recobrir com água”, de katá-, “embaixo, sobre, completamente” mais klízein, “verter água”.

Joãozinho, tire a mão daí! Artur, pare de pular! Não acordem o Soneca, que é menos um para incomodar. Mariazinha, pare de ensinar coisas para a Maria Tereza. Zorzinho, pare de escrever que nós viemos é aprender a pintar.

Quem será que teve esta idéia de colocar água e tinta nas mãos destas crianças? Certamente foi alguém que não fica em aula com elas. Estas pobres paredes viraram um quadro do Pollock sofrendo de cólicas. Há tinta em tudo, até no teto, menos nos papéis.

Não, Helozinha, meu anjinho, você não é uma índia Seneca, não era para pintar o seu rosto. E quem foi que derramou tinta na roupa do Oscarzinho ali?

Custava muito colocarem a tinta no papel que foi feito para isso, custava?

O céu é testemunha de que eu não sou rígida, Santa Brígida! Mas esta turma eu não agüento, meu São Bento! Que horror, meu Senhor!

Parem com a baderna!! Vocês parecem os badernas, um grupo de admiradores da dançarina Marieta Baderna, que se apresentou no Rio de janeiro em 1851, de onde veio essa palavra tão detestada pelas professoras.

Vamos fazer assim: agora nós vamos sentar em círculo e, enquanto eu tento limpar um pouco disto tudo, vou contando para vocês a origem de algumas palavras relacionadas com esta infeliz experiência que certas diretoras resolvem arranjar para complicar a vida alheia.

Hum, esta cola que alguém derramou dentro de uma mochila vai acabar inutilizando-a. Vocês talvez não saibam que cola vem do Grego kolla, “grude, goma, cola”. Essa palavra originou o nosso protocolo.

Um protocolo era a página inicial de um daqueles rolos que eles usavam em vez de livros, porque era a primeira (protos, “o que vem antes”) página a ser colada. Ali iam o nome do autor, o nome do livro, a errata, os capítulos, etc.

De “primeira página de uma publicação”, esse sentido mudou para “informação oficial” no Latim Medieval e depois para “registro de uma transação”, para “documento diplomático” e “fórmula de etiqueta diplomática”. Atualmente também se chama assim o local de uma repartição pública onde são recebidos documentos.

Como, Ledinha? Se errata é a mulher do errato? Não, meu anjo, não se trata de nenhuma espécie de roedor. Errata é o plural de erratum, “incorreto, errado”, e designa a parte do livro que traz correções, mostrando onde foi que houve erros na impressão que só foram detectados depois de pronta a edição.

Imagino que os editores deviam se descabelar se encontrassem muitos erros. Errare, para os romanos, queria dizer “vaguear, andar sem rumo”. É isso o que acontece quando nossos pensamentos perdem a orientação. Conheço gente que está constantemente nesse estado.

De onde vem a palavra tinta eu já falei uma vez: é do Latim tingere, “encharcar, molhar, embeber, pintar”. Esse fato etimológico não lhes confere licença de encharcar os cabelos alheios com tinta, não, senhores!

E antes que me perguntem a origem da palavra encharcar, aviso que ela não é bem definida; pensa-se que venha de um idioma da Península Ibérica de antes da dominação romana.

Não, Arturzinho! Não coma esse crayon! Eu sei que ele parece uma bala, mas não é. Também sei que você já comeu cola e papel, mas não aconselho a ingerir isso aí, que é feito de um veículo sebáceo e um pigmento. O nome vem do Francês crayon, originalmente “lápis de giz”, de craie, “giz”, que veio do Latim creta, também “giz”.

E pigmento, “aquilo que dá cor”, vem do Latim pingere, “pintar”. Há uma palavra parente desta que se usa à mesa: pimenta. Esta vem do Espanhol pimiento, que veio de pigmentum porque dava cor aos pratos. Provavelmente se fez aí também uma metáfora sobre o sabor que essa frutinha acrescentava à comida.

Joãozinho, largue essa tesoura e deixe o cabelo da Leonorzinha em paz! Não, você não é um índio e esse não é o cabelo do Coronel Custer! O dele também era louro mas era mais comprido; ele o deixou crescer para que o índio que o tirasse se sentisse bem recompensado. Não me parece ser essa a idéia da menina.

E tem mais: os índios norteamericanos tiravam os escalpos dos inimigos, sim, mas isso não era costume deles. Foi aprendido dos brancos, quando estes matavam índios e retiravam o escalpo dos coitados para receberem recompensa.

Já que falamos nela, tesoura vem do Latim tonsorius, “aquele que corta”, de tondere, “cortar, tosquiar”. Os clérigos usam uma tonsura, viu, Lucinha, você que quer estudar Teologia quando for grande? É uma região do crânio da qual se raspa o cabelo em sinal de obediência ao Senhor.

Parece que este cuida de muita gente mas se esquece de certas professoras que sofrem nas mãos de certas criancinhas com cara de inocente, e pare com isso, Joãozinho!

Por que um canhoto não consegue usar direito uma tesoura comum? Ah, é porque o corte dela não é feito só pela aproximação do fio das lâminas um contra o outro, mas também porque as lâminas são apertadas entre si quando manejadas pela mão direita. Se a gennte usa a mão esquerda, as lâminas tendem a se afastar, podem experimentar. Em casa, em casa!

Mas não se preocupem, existem tesouras especiais para canhotos. Essas os destros não conseguem usar. O grande problema é na sala de cirurgia. Se não houver uma tesoura especial, um cirurgião canhoto sofre para operar.

Ai! Quem foi que espalhou mostarda na parede? Tá certo, existe uma cor com esse nome, mas esta daqui é para o cachorro-quente apenas. Ai, crianças, se eu conseguisse um pouco de gás de mostarda… Como? Para que serve? Ahh… afastem-se, sonhos! Ele foi proibido, mas ninguém consultou a categoria profissional dos professores para isso.

Na verdade, ele não era um gás, era um líquido em spray. Não, também não continha nada de mostarda, portanto não serviria para usar no lanche. Ele se chamava assim por causa da cor, do cheiro e também porque ardia muito nos olhos num primeiro momento. Se bem que essa era a última das preocupações para uma pesoa atingida pelo gás.

E a mostarda se chama assim porque, para se fazer o condimento com ela, os romanos moíam as suas sementes e as misturavam com vinho recém-feito para preparar uma pasta que era servida às refeições.

O vinho novo era chamado vinum mustum. Vinum, evidentemente, é “vinho”. E mustum queria dizer “novo, fresco”. A primeira palavra da expressão caiu e foi usada a segunda para fazer um nome para o tempero e a planta.

Pronto. Acabei de dar uma ajeitada neste pandemônio que vocês fizeram. Agora todos vão se levantar e sair direitinho. Em casa, vocês vão dizer para as mamães e para os papais que vocês já aprenderam a pintar e que aprenderam tão bem, mas tão bem mesmo que nem precisam mais estudar essa parte. Não é mais necessário trazer as tintas para cá, viram?

Até amanhã, se eu ainda estiver viva, crianças.

Resposta:

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