Palavra periferia

Separa Uma Briga

O irretocável detetive das palavras, X-8, se desloca corajosamente pelas ruas ventosas do seu bairro, que apenas não foi escolhido O Pior do Mundo porque a Prefeitura da cidade pagou regiamente à imprensa para não falar no assunto.

Ele tem uma missão e vai cumpri-la custe o que custar. Nem o vento nem a poeira, o lixo nas sarjetas ou os olhos brilhantes das ratazanas nos bueiros o impedirão de chegar até a carrocinha do Auauzão para comer um insalubre cachorro-quente com Extra-Molho, conforme anunciado no costado do equipamento. Ainda mais que está em promoção, com desconto de 20%.

X-8 cuidadosamente bloqueia a parte da sua lógica que pergunta o motivo da promoção.

Ele aproveita que está na hora de mandar lavar mesmo sua gabardine, pois sabe que o conteúdo do pão bem fofo tem uma malévola vontade própria que o leva a se derramar inevitavelmente pela roupa do freguês, bem como  de entrar manga adentro sempre que possível.

Antes de chegar lá, percebe um movimento num beco à sua direita: são palavras-crianças em desenfreada luta, puxando cabelos, mordendo, dando tapas, rolando pelo chão entrelaçadas, xingando-se mutuamente.

Olha cuidadosamente ao redor. O seu bom-senso lhe diz para não se meter, mas é apenas um grupo infantil. E, afinal, elas são futuras clientes em potencial. Não faria mal algum começar sua propaganda naquela tenra idade.

Assim, sempre mantendo na cabeça uma rota de fuga para o caso de as coisas encresparem, o bravo X-8 se aproxima do grupo em turbilhão, separa alguns, fala com autoridade a outros e os faz parar com a luta.

– Mas que é isto, pessoal? Umas palavrinhas tão bonitinhas que nem vocês, brigando desse jeito? O que foi que houve?

Uma das palavras, Limbo, toda embarrada, explicou que elas estavam numa briga de gangues de nomes para saber quem era mais importante.

O detetive as olhou melhor e logo entendeu: umas se referiam a coisas divinas e outras, a assuntos infernais.

-Ora, ora, vocês não sabem que isso é proibido agora? Todas as palavras são iguais perante a lei, não podendo sofrer distinção por assunto representado.  A legislação impede que esta ou aquela palavra seja considerada melhor do que as outras.

Acalmem-se, vamos sentar e falar um pouco sobre as origens de vocês  –  ele sabia que palavras não resistem a este tipo de argumento e percebia que, no fundo, aquelas crianças estavam precisando de uma desculpa para parar com a luta.

Elas se acomodaram sobre caixotes velhos que estavam por ali espalhados e prestaram atenção.

– Começaremos por você, Limbo. Sua origem é a expressão latina in limbo, “na beira”, de limbus, “margem, beirada”.

Os teólogos da Idade Média criaram o Limbus Patrum,  para santos nascidos antes de Cristo, e o Limbus infantum, para crianças mortas antes do batismo.

Eles não achavam justo uma pessoa ser condenada ao Inferno por não ter sido batizada, no caso de não haver possibilidade de isto acontecer. Por isso arranjaram um lugar onde não havia diabos espetando o traseiro de ninguém mas onde também não dava para estar perto do Chefe nem bater papo com ele.

Já que falamos em você aí, Inferno, palavra mais do que conhecida, sua origem é o Latim Infernus, derivado de inferus, “o que está abaixo”, de infra, “abaixo”.

Quase todas as religiões imaginavam seus mortos seguindo suas atividades  embaixo do chão, pois era lá que eles eram colocados na maioria dos casos.

Uma exceção são os Farsis, em certa região da Índia, que colocam os cadáveres sobre torres para que os abutres os devorem, já que acham inadequado colocar um corpo para se desagregar na Terra.

Aliás, tive notícias de que, modernamente, as funerárias de lá andam num aperto: os abutres, apesar da amável oferta de alimento, estão diminuindo muito em número naquela região, por mudanças climáticas ou por ação do homem mesmo.

Vejo que Céu, ali, se abespinhou. Claro que você também tem muitas citações. Você vem do Latim caelum, “céu”, de uma fonte Indo-Européia que significava “brilhante”. Todos dizem que querem ir para lá depois da morte, mas o comportamento da maioria por aqui não demonstra isso.

Assim como Limbo é mais ou menos um meio-termo, temos também ali  Purgatório, que deriva do Latim purgatorium, usado por S. Bernardo em 1130, e que queria dizer “local ou meio de limpeza”, de purgare, “limpar, purificar”, relacionado a  purus, “limpo, puro”.

E agora é a vez de Paraíso, ali tão expectante. Sua história é bem interessante: lá pela Mesopotâmia, numa parte que um dia chegaria a ser a Pérsia, os ricos e poderosos gostavam de mandar fazer jardins muito lindos com pomares, aves e peixes em tanques, flores para todo lado, usando recursos muito eficazes de irrigação.

Como eles não eram bobos nem nada e sabiam que estavam rodeados por gente faminta, seus jardins eram bem cercadinhos, para que nenhum intruso fosse aproveitar do que não era seu.

Este fato era tão relacionado ao bem-estar e ao desejo de viver eternamente num lugar assim, que se incorporou aos primeiros escritos da Bíblia como o Paraíso, do Avéstico pairidaeza, “parque, jardim cercado”, que passou para o Grego como paradeisos, “jardim cercado, Jardim do Éden”.

Esse pairi quer dizer “ao redor” e é aparentado com o Grego peri-, “ao redor”, tão conhecido de palavras como perímetro, periferia  e tantas outras. E o daeza é do verbo diz, “fazer” – no caso, um muro.

Hum, vejo que agora estão mais calminhas. Vamos fazer o seguinte: esvaziem os bolsos, vamos ver quanto vocês têm em moedas. Quanto deu? Só isso? Puxa, os pais de você devem ser umas palavras unhas-de-fome. Em todo caso, já dá para pagar a lata de refrigerante que preciso tomar para refrescar minha garganta depois de ensinar tanto.

Certo, criançada, vou cobrar apenas isso pelos meus serviços.  E vou deixar com vocês, absolutamente grátis, meus cartões de visita, para que possam encaminhar-me suas parentes que estejam em crise de origens.

Até à vista!

Resposta:

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